sábado, 31 de julho de 2010

AOS TERTULIANOS

tertúlia
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Por uma vez e porque disso são merecedores, esta minha página tem destinatários explícitos para lá de todos aqueles que sobre o tema desejem reflectir.
O fio de pensamento que até à página anterior desenrolei e que nas que se lhe seguem continuarei a desfiar que implicações tem naqueles que me lêem e, eventualmente, naqueles que, comigo, por aqui vão interagindo?
Nos assim chamados tertulianos, por exemplo, que por aqui circulam e que deste modo tanto se gostam, uns aos outros, de identificar?
Refiro-me, concretamente, a
Dulce AC, Linda Simões, Manuela Baptista, o José Ferreira e eu próprio ...
Que variáveis não se desencadeiam para lá daquilo que eu escreva e tenha ou não nelas qualquer responsabilidade directa ou indirecta?
O poder da palavra ...
A palavra tem um enorme poder!
E quando escrevo aqui, agora em primeira página como já na página anterior, na sua caixa de comentários e aos tertulianos os interpelo, escrevo sobre a palavra em geral e não apenas sobre aquela que paulatinamente, neste meu blogue, vou e se vai produzindo.
Seria prosápia pensar que da minha palavra resultam todos os acontecimentos que entre os assim chamados tertulianos, por exemplo, se desencadeiam ...!
Mas, que poder a palavra não tem!?
Imerso na perplexidade que esta interrogação me suscita motivado por acontecimentos que para aqui não quero tomar a iniciativa de trazer porque a terceiros não desejo expôr mais do que a exposição que eles mesmos consintam, não paro de reflectir sobre ela no desafio que lanço a que a tertúlia, neste sentido restrito como mais amplo, por uma vez, aqui se expanda e desenvolva ...
Repito o desafio lançado pela pergunta que publiquei na caixa de comentários da página anterior:
Até onde vai o poder da palavra e porque imprevisíveis linhas ele se não tece?
E a que responsabilidade maior ela não faz apelo e obriga ...!?
Ou então, que fascinante tema não poderá ser este o de uma tertúlia que para breve já se anuncia ...
Sede bem vindos!
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 31 de Julho de 2010
-
Os Tertulianos

video

sexta-feira, 30 de julho de 2010

FIO DE PENSAMENTO

aurora
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Um fio de pensamento ou tem plausibilidade
consistência
coerência e lógica interna
ou não as tem de todo
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O seu sufrágio prende-se
não com maiorias mas com a sua análise
com o contraditório sistemático
o aprofundar do diálogo e da democracia
que põe à prova até que ponto
esse fio de pensamento

novelo se encontra blindado
e lhes resiste ou não
-
A sua blindagem
isto é
plausibilidade
consistência
coerência e lógica interna
não depende do número daqueles que
num dado momento
com ele concordem ou discordem
ou está ou não está contida em si mesmo
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Por mais que clame no deserto
ele fará prova
e tal como uma qualquer constatação científica
irresistível
impor-se-á
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do fio de pensamento que como não escamoteável novelo desenrolei até aqui
-
Aurora
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Julho de 2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010

ECLIPSE

eclipse
-
Estou numa daquelas noites em que me ocorre que deixe o teclado por aqui a escorrer suor sem pontuação nenhuma até ver onde o parágrafo compacto como peça única ou buraco sem fundo aguentará de um fôlego só a ocorrência que daqui emane sem ao seu sentido o perder de vista nem à leitura a tornar de tão hermética ininteligível à medida que as suas gotas de sal o vão compondo em depósito que cresça sólido em condensação precisa e que não se cinja ao supérfluo nem a banalidades que importaria antes ver sumidas daqui enquanto se alimentam histórias de verão reiteradas de interesse público até que jornalistas e afins alcoviteiras de serviço incluídas partam de férias o que ao próprio interesse logo o questiona na urgência maior que às primeiras sempre as faz ter a primazia mandando o interesse às urtigas e logo o parágrafo se extingue exausto de lérias carente de férias e mergulhando em eclipse sem sol e sem lua exangue
-
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Julho de 2010

PACIÊNCIA

Pouso a pena
deixo ao largo
passar tudo o que se encena
tenho de mim a certeza
do calor e do que trema
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Do calor
é o meu amor
é este meu frágil andor
é saber sem tibieza
quanto vale e quanto pesa
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Do que treme
é o meu leme
seguro daquilo que eu reme
pese a forte correnteza
que magoa e que me lesa
-
A paciência
elixir
a minha ciência
o surgir
da esperança que me conduz
e me não deixa fugir
-
Paciência
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Julho de 2010

quarta-feira, 28 de julho de 2010

BRASA

Mamede Harfouche, Pavio desfiado
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Chega o pico do Verão e acelero ...
Quereria contrariá-la a esta minha tendência mas não sei se o conseguirei ou quererei fazer ...!
Exactamente quando a generalidade dos internautas fecha as consolas e as deixa em repouso aí vou eu em movimento uniformemente acelerado ...
... velocidade crescente agora como sempre!
O ano passado, só no mês de Agosto, foram mais de sessenta as publicações dadas à estampa ...
Não sei se repetirei igual proeza ...!
Serão lidas, as minhas páginas ou passarão ao largo?
Uma coisa é certa:
Para quem as queira ler e delas se apropriar, é só consultar o arquivo que o tenho por vivo e não por arrumado na prateleira!
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Brasa
calor insano
extravasa
mas o golpe
de minh'asa
recolhe-se à sombra
em casa
do plúmbeo calor que me abrasa
e é com a palavra
que casa
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À sombra fresca da música
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Julho de 2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

O DESTINATÁRIO INCERTO

o destinatário incerto
-
Até hoje e para lá de aqui há um destinatário incerto e silencioso que me acompanha sempre ...
Não me comenta, não diz nem que sim e nem que não, mas passa por aqui silencioso, lê-me e avalia e por maior que seja o número daqueles que comigo explicitamente interagem.
Ele vem cá sempre, está cá sempre ...
Ele não, eles já que não se cinge a um tão só a não ser pela característica comum do silêncio que a esses todos, muitos os engloba.
E a minha escrita, eis uma das suas particularidades incontornáveis, ao silêncio sempre o tenta englobar e integrar.
Até por lhe dirigir as não ditas e implícitas perguntas ...
Tal como só há música com silêncio, som com pausa incluída, também só há verdadeira escrita, com densidade, com conteúdos, entre-linhas que dela se deduzem ou emergem, por do silêncio se percutirem e com o silêncio, nela incluído, interagirem.
O silêncio da sua pontuação implícita como explícita.
O silêncio entendido como o destinatário não revelado, não comprovado mas que está lá e ainda que eu próprio ao incluí-lo o crie porque também dele provenho e se desvenda ou vai desvendando ...
Daí também a minha imparável verve que não se extingue e que do silêncio ou do não dito lhe está implícita porque dele nasce.
Sinto que, progressivamente, assim vai mais e mais acontecendo!
-
Quem será
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 27 de Julho de 2010

III - EXACTAMENTE ASSIM

densidade
-

Foi exactamente assim quando há muitos e muitos anos comecei a escrever
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Perplexo de
com densidade
o conseguir extroverter
e quando pensaria que os aplausos logo se fariam ouvir
que ingenuidade
ao silêncio que se foi
implacável
avolumando
em vez de a ele me deixar soçobrar
fui-lhe sentindo as nuances
o não dito que me escrevia
e tão resiliente
decidido quanto ele
comecei a responder-lhe
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Até hoje e para lá de aqui
-
E ao que escrevo gosto de lhe sentir a coloratura
-
E ao não escrito o abraço com a desenvoltura de quem não se deixa condicionar por uma visão subjectiva
parcial
limitativa
inquestionável e inequívoca do seu significado
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Só há música com silêncio
-
Touch me lightly
feel and wait
give me softly
light to paint
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até este momento e desde o início desta trilogia, ainda não havia nela comentários
publicados. Não Vos inibeis pois de os fazer
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Luminoso
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 27 de Julho de 2010

segunda-feira, 26 de julho de 2010

II - SILÊNCIO

Silêncio, Caspar David Friedrich
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Cai sobre mim o silêncio
não há ressonância na caixa
que me dirá na essência
a ausência em que se enfaixa
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Saudade da companhia
de o ter comigo por guia
não que não goste de ouvir
ou de ler o teu sentir
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Traz-me o silêncio a fugir
todo o naipe que se encaixa
de comentários que via
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Se quem cala consentia
mais do que cala mentia
se não diz tudo e confia
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a propósito da caixa de comentários da página anterior que até ao momento desta publicação não continha nenhum comentário editado
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Sorrio
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Julho de 2010

I - MONÓLOGO

pegada
-

Se ao que aqui está
acrescentasse não as impressões que perduram
mas o relato real do dia a dia
o que seria do que conto no que se fia
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Em que se transformaria esta minha caminhada
se não apenas às sua mais incisivas pegadas as relatasse
-
Incisivas não é sinónimo de ficção nem de escamoteamento
nem é tão pouco um relato cronológico
é o que sobra da espuma e que se ergue para lá dela
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A ondulação sublime
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Pinto-as a essas sobras
será que as pinto
-
Ou enalteço-as tão só em onda
vertendo aqui aquilo que sinto
que penso
que em mim se agita até fixar-se nos signos na condensação possível do que comigo mexe
-
Onda em movimento
-
Não
não vale a pena perder-me em miudezas e muito menos ficar a remoe-las
-
Distancio-me
-
Distancio-me das marcações pueris de território
do diz que diz-se
falatório
e da fotografia que outros tentam mutilar
se curo a chaga
só recordo o que se afaga
-
Vale a pena prosseguir se no que aqui está
aos dias e à dor
lhes acrescento mais valor
-
Come away
death
and tell me
how to go so far
and breath
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Vai-te embora
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Julho de 2010

domingo, 25 de julho de 2010

OIÇO - TE

ouvir
-
Oiço-te lá dentro
e não é um som qualquer
desfolhar de um bem me quer
-
Teus passos
soam a abraços
sem fingimentos os traço
e no compasso em que sinto
no que oiço eu não minto
-
Oiço-te por toda a casa
que nada seria sem asa
golpe de nossa enzima
escada abaixo
escada acima
-
Sinto-te e penso
que nada seria nem penso
pelas etapas que venço
sem te ouvir
e o meu rugir
do leão seria apenas
a vontade de fugir
-
Senhora minha
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 25 de Julho de 2010

sábado, 24 de julho de 2010

VERDE, AZUL E ROSA

cratera
-

Mudei a cara do meu blogue ...
Do amarelo de fundo, cinzento tinha sido essa mesma a cor de fundo com que a Filomena Claro me o havia oferecido, para o verde, rosa na cor dos acessos e palavras da sua barra lateral e o azul, forte e escuro naquilo a que chamo o seu miolo ou conteúdos centrais, o texto propriamente dito, mantendo inalterável o seu grafismo se exceptuarmos as molduras do cabeçalho e das ilustrações que num gesto simbólico as deixei cair.
Verde terra e mar de esperança;
Rosa velho de bouquet de rosas a que se acede;
Azul firme do que continuadamente se escreve.
E deixei pistas que poderão ajudar a recordar o seu cabeçalho e aspecto geral anteriores ...
Memória do que foi e que nestes suportes se perde na introdução de mudanças, por vezes mesmo, arbitrárias manipulações que ao conjunto do blogue o transformam por inteiro apagando-se, de certa forma, uma memória ainda que formal mas que importaria, quiçá, conservar viva ...!

-
Não me oponho a mudanças
nestas minhas andanças
da memória do que era
parto ao que me espera
-
Se apago da minha esfera
aquilo que estava em cratera
descabelada e sem tranças
fica o que está e avanças
-
Mutilado em minhas esperanças
no que fica desespera
o rodar de minhas danças
-
Sem o Passado que era
minhas fortes alianças
são o que conta e que impera
-
Chão
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Julho de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

III - SONHO AGRILHOADO

Oguz Gurel
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O meu sonho permanece agrilhoado ...!
Da Liberdade se tem, muitas vezes, a consciência dos direitos, menos a dos deveres ...
Tem-se, também, ténue a consciência da estreita relação, qual sistema de vasos comunicantes, entre uns e os outros, entre os direitos e os deveres.
Menos ainda se tem, talvez, a consciência de que quanto mais ambicioso é aquilo a que julgamos ter direito, mais os deveres que nos interpelam de nós próprios, sobremaneira, nos exigem.
O meu sonho permanece agrilhoado e pese embora a sua plausibilidade demonstrada ao longo do tempo, cercado ou, melhor dizendo, como se sujeito a um crivo que à sua própria consistência, sustentabilidade, capacidade de resistência, aferindo-as, pusesse à prova.
Sujeitando-me, de há muito, a essa provação, ao intangível cerco respondo editando página sobre página, num contra-cerco, manobra de diversão que de tão transparente acaba por a não ser mas que, incansável, se desdobra sem descurar as minhas defesas, impedindo fracturas que as alienassem ...
O meu sonho permanece agrilhoado mas na prisão do impossível não paro de abrir brechas nos altos murados deste invisível calabouço que ao sonho o deixem, em permanência, fluir ...

-
Contagiante de luz
e quebrando enquadramentos e molduras
a brecha funde-se com o amarelo de fundo
esperança
libertada deste meu blogue
-
se a Nelson Mandela dediquei mais esta trilogia, A Prisão da Liberdade, a
Dulce AC devo o pretexto do que aqui se conclui
-
Se
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Julho de 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

II - PRISÃO DA LIBERDADE

a prisão da Liberdade
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Minha prisão é um mar
destas palavras que são
janelas onde gravar
os passos que em mim se dão
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É consciência um vão
de escada sempre a rimar
versos prosa saguão
gradeado cordame a vibrar
-
No pátio da minha prisão
ao silêncio do cantar
não consigo dar vazão
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No que vos tenho para dar
que não é só ilusão
é Liberdade a sangrar
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Vozes ao céu
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 22 de Julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

I - PRISIONEIRO DA CONSCIÊNCIA

Oguz Gurel
-
E o tempo vai passando ...
Preso, por agora, a este blogue, prisão que nos dias que passam e à luz da Democracia, da liberdade de expressão em que vivo não mais terá de obedecer aos rigores de uma prisão como as de outrora e que em tantas partes do mundo ainda prevalecem contra e paradoxalmente na afirmação da estrutura de quem a eles resiste ou resistiu, prisão física de altos murados e células gradeadas e diminutas para onde eram, são jogados aqueles que ousam cometer os assim chamados delitos de opinião, aquela que de mim faz prisioneiro, amarra-me à minha própria consciência que aqui se vai expondo continuada e perseverantemente.
Terei de ser penalizado por a esses rigores, os das prisões físicas, os não ter sofrido na pele!?
Terá de ser essa a bitola aferidora para quem à sua idade adulta a viveu já, praticamente toda, em Liberdade!?
E deixarão, em Liberdade, de existir prisioneiros da sua própria consciência nos coerentes percursos em que, por sua própria e livre vontade e decisão, optem por prosseguir na sua legítima, legítima repito (!), ambição e afirmação e contra ventos e marés!?
Até onde, pelo silêncio que sobre esses e institucionalmente, profissionalmente também vai pesando, e como este pesa em regime aberto (!), se deverá fazer sentir a sua invisível mão implacável e sentenciadora?
Desafiadora ...
Olho para todos aqueles que em regime fechado resistiram, retomo o paradigmático exemplo de Madiba, Mandela, mas que nem por isso desistiram de perdoar e fazendo deste, do perdão, traço de continuidade permanente no meu já tão extenso percurso, brado aos céus e pergunto em que é que, pelo silêncio, deverei continuar a ser sistemática e profissional, socialmente penalizado?
Percorrei este meu blogue e imaginai o que para trás dele, passados já mais de vinte e um anos, como inalienável percurso, em congruência o antecede ...!
E em que é que, por qualquer delito, infrinjo o que quer que seja ou faço perigar a própria Democracia se, pelo contrário, a alimento!?
Dizei-me, já agora, onde é que o perdão não está, nesta minha saga e percurso, sempre implícita ou explicitamentemente presente!?
Não há aprofundamento da Democracia se na e em Liberdade não forem desbravados os caminhos singulares, é por eles que, em última instância, ela também se justifica (!) e que a amplificam ...
... nem esta, a Democracia, sem esses percursos como o meu, na coerência que lhes está implícita se enraizará, pronta a florescer, em toda a sua irresistível e necessária exuberância!
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uma vez mais dedico a Nelson Mandela a trilogia que ora se inicia e que tem por nome genérico A Prisão da Liberdade, para que a Liberdade que no cidadão singular se revê, seja mais do que um simples verbo de encher ou um pró-forma, formalismo sem consequências para lá dos muros das prisões físicas e que dela, em Democracia se devam, também individualmente retirar
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Vasto Horizonte
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Julho de 2010

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O RANFIOCOCO

Fotografia de Manuela Baptista, O Ranfiococo
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Era uma vez um Ranfiococo que vivia nos candeeiros e se não vivia dormia neles, seguramente, já que a dormir nenhum de nós se lembraria de fazer bonecadas, trapalhadas daquelas com os dedos.
O Ranfiococo tornava-se visível quando saltava dos candeeiros e se imiscuía no mundo dos homens, encarnando-se nas suas mãos.
Foi meu pai que, um belo dia, me o apresentou ...
Reparem bem nele:
O dedo médio ou pai de todos, sim, porque foi o meu pai que aos Ranfiococos os inventou (!), retorcido sobre si mesmo e apoiado qual cabeça no polegar esticado para a frente, os indicador e anelar transformados nos seus dois únicos membros polivalentes a fazerem, invariavelmente, de mãos ou pés de acordo com as circunstâncias e as inoportunidades e o dedo mínimo, o mindinho, de tão pequenino, raquítico, encolhido e mesmo dispensável à composição do personagem, resquício inútil da sua já longa evolução a perder-se nos tempos desde os mais antigos registos existentes sobre candeeiros de tecto.
Sim, porque um Ranfiococo que se digne vive em candeeiros de tecto, de preferência luxuriantes e recheados do brilho de muitas gambiarras.
Do Ranfiococo não se poderá contar assim uma história com pés e cabeça já que se cinge a uma mão, tão pouco duas (!) e muito embora de pés e cabeça composto, todavia sem tronco, nem com princípio, meio e fim, vai passando de geração em geração como encarnação póstuma, gosta de música de gala como de um candeeiro de sala ou de salão de baile e, como o seu autor, quer que se danem aqueles que estão sempre à espera de um enredo fácil de princesas e príncipes, fadas e fadunchos extemporâneos, sabe-se apenas que aparecia caído de chofre como desaparecia ao abrir da mão em passe de mágica, desfeita a encarnação na retirada estratégica para o lustre mal a criançada se punha a perguntar dos porquês ou a exigir mais dele após as suas inesperadas aparições envoltas em mistério e passadas as diabruras com que, eventualmente, as presenteava ou os parcos e renitentes beijos, mais diria beliscões com que as mordiscava, desconfiadas e apreensivas ...
A história do Ranfiococo confunde-se com aquela de cada um de nós:
Mal ela começa já acabou ou quando acaba, apagadas, por fim, as luzes da ribalta, pergunta:
- Ía garantir que ainda agora a sala estava cheia de malta, ora esta (!), então não sentem a minha falta!?
E ria-se, por fim, a bandeiras despregadas imigrando para o candeeiro, fundindo-se com as luzes do tecto que com ele se apagavam e dando cabo da compostura da mão que se abria num humor ácido de ilusionista de trazer por casa evaporando-se de vez satisfeito por, de avanço, às crianças as ter enxotado para a cama ...
O Ranfiococo, confesso-vos, tem uma magia tão incómoda e oportuna, mais sapuda do que ossuda, admito-o, almofadada e a parecer-se mesmo com um sapo (!) tirando-lhe a viscosidade que, por definição, com as minhas próprias mãos se se confunde dela não tem a porosidade atreita a tanta transpiração.
Ouviram bem?
Disse incómoda e oportuna!
Ainda hoje, por vezes, o Ranfiococo salta do candeeiro e leva-me, delirante, pelas brincadeiras antropomórficas de meu pai, escorregando, desaustinado, teclado fora ...
-
a minha mulher que me exigiu esta história na
caixa de comentários de X, Y e Z e que já me ameaça com uma birra e a meu pai que ao mundo dos Ranfiococos, entretanto, o já deve ter reduzido a fanicos ou, que ele me perdoe (!) e melhor dizendo, a simples ossadas
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Escorregando sobre o teclado
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 19 de Julho de 2010
Fotografia de Manuela Baptista, O Ranfiococo pisga-se para o candeeiro

domingo, 18 de julho de 2010

III - TRIDIMENSIONAL

A criação artística é tridimensional:
Nela está presente o seu autor;
Nela está ainda presente o outro autor ou aquele a quem ela se dá, que dela usufrui e que faz dela razão de ser;
Está, por fim, presente o reflexo dos dois anteriores ou aquele que nesses dois se reflecte, o distanciado autor padrão que em ambos se consubstancia.
No acorde que dessas três vozes resulta, em simultâneo, nasce a obra, polifónica ou tridimensional, com largura, altura e profundidade, digamos, que vibra nos harmónicos, leituras e conteúdos, que lhe subjazem e a fazem ter maior ou menor longevidade.
A tridimensionalidade da obra não se esgota por aqui ...
Nela justapõem-se outros planos de dimensões triangulares, sempre triangulares, desde os planos
X, Y e Z aos que permitem medir e determinar uma posição e um plano de navegação, qual sextante, ele mesmo poema tríptico, com vista à realização de um percurso tão abrangente quanto possível e que se desenrola no tempo, nas suas dimensões próprias, do Passado, ao Presente e ao Futuro ou simetricamente, partindo do Futuro, daquilo que se pretende alcançar para que, sem escamotear ou branquear o Passado se venha a realizar no Presente que aqui, nesta minha página se enforma como etapa de um outro, ainda Futuro, mas susceptível de se vir a realizar ou resolver.
Nessas tridimensionalidades que geométrica, caleidoscópica e dinamicamente se vão mostrando mutantes, ergue-se a criação que não pára, trilógica, concertante, trinitária, num teclado em permanente movimento ...

-
no dia em que um outro e ímpar corredor de fundo celebra os seus noventa e dois anos, Nelson Mandela, a quem dedico esta minha, mais uma trilogia
-
Fantasia
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Julho de 2010

sábado, 17 de julho de 2010

II - SEXTANTE

Sextante, instrumento utilizado para medir ângulos para determinação de posição na navegação
-
S
ou sextante
navegante
sou cadeira de baloiço
sou pulsar daquilo que oiço
baluarte
do levante
-
M
eço ângulos num instante
em viagem incessante
trago comigo em levada
o cheiro da Terra amada
pura arte
deslumbrante
-
R
epouso por fim e distante
no meu sonho lancinante
quando quisera dormir
não tenho para onde fugir
das páginas em que me tarde
a calcorrear para jusante
-
Sonho e descanso
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 17 de Julho de 2010

sexta-feira, 16 de julho de 2010

I - X, Y e Z


Entendamos X como a dimensão social;
Y como o patamar económico;
E Z, finalmente, como aquela ou aquele que para lá deles, do social e do económico, se encontra.
Se a X quero atacar, atacar no sentido de resolver, então é para lá dele que eu tenho que olhar, sob pena de ao social, nos seus problemas, o não conseguir, estrutural e sustentadamente, resolver;
O social prende-se, confunde-se mesmo, com a dimensão económica dos problemas, com Y, e se na sua abordagem aos dois primeiros patamares me cingir, duvido que com assertividade, a ambos os consiga, por seu turno e nos seus nós górdios, resolver ou desatar;
Terei pois de olhar para lá dessas duas abordagens específicas, terei de olhar para Z ...
É claro que nem tudo, a realidade no seu profundo dinamismo, se esgota em equações, fórmulas ou no alfabeto:
Passado, Presente e Futuro ...
Esta é outra dimensão, cruzada dimensão que com X, Y e Z, de forma igual e profundamente dinâmica se intersecta, imiscui ou intromete!
Eu não posso atacar os problemas sem olhar para a sua génese, o Passado que a eles conduziu ao momento que transcorre, o Presente e a este, de tão imediatamente Passado se tornar, tenho de o instilar, injectar de prospectiva, isto é, do estudo conjugado, interdisciplinar, transdisciplinar mesmo das causas técnicas, científicas, económicas e sociais, para lá delas, Culturais, em suma, que aceleram a evolução positiva do mundo moderno e a previsão das situações que poderiam derivar das suas influências conjugadas, de Futuro, portanto, sem o qual os problemas mais não fazem do que patinar e aprofundar-se ao contrário, longe disso (!), de se resolverem.
Quanto mais abrangente, para longe eu souber olhar ...!?
E quanto mais nesse olhar abrangente e de longo prazo, longo mesmo e susceptível de integrar a prospectiva em ante-câmara de reserva que contrarie e não se deixe sugestionar, pressionar pelo conglomerado de interesses, nacionalismos caducos e pelo imediatismo da sociedade da informação que pela sua natureza a ele, ao imediatismo, à instantaneidade permanentemente faz apelo, mais em condições estarei, estaremos de resolver os candentes problemas que globalmente, a todos, nos tolhem, constrangem e afligem.
A X, a Y e a Z, fórmulas, todo o alfabeto e o que o ultrapassa, as dimensões do tempo que pela música a elas tão magistralmente as ilustra em linguagem tridimensional como a Arte o é, há que somar, ingente, visão global, transversal e de longo prazo num desacelerando que se impõe não se venham a pôr os pés em ramo verde, cavando fracturas e abismos que, por contágio, se poderão tornar cada vez mais difíceis, de per si, de ultrapassar!

-
Peças em trio
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 16 de Julho de 2010

quinta-feira, 15 de julho de 2010

CONHECE-TE

Fotografia de Jaime Latino Ferreira, Formiga de Paula Rodrigues adquirida na Livraria Galileu em Cascais
-
Como formiga em carreiro
páginas carrego inteiro
nelas canto qual cigarra
a vida que a mim se amarra
-
No que transporto se agarra
tudo aquilo que eu traga
brotam folhas em canteiro
lanças de meu armeiro
-
A ambas por dianteiro
lhes returco prazenteiro
ao que a fábula delas narra
-
Ai meninas que a esta carga
canto com toda a garra
trabalho de meu tinteiro
-
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Julho de 2010

quarta-feira, 14 de julho de 2010

III - LARGO ESPECTRO

Jaime Latino Ferreira, Largo Espectro
-
O largo espectro da música
-
A música é linguagem que diz sempre para lá do que a língua e as outras linguagens específicas são capazes de traduzir
-
Como um gesto de cordialidade
um sinal de afecto
um sentimento profundo
uma manifestação de cavalheirismo
-
Como um bouquet
-
A música é mais do que o estrito silêncio
nas cores da sua sonoridade
-
Linguagem de largo espectro diz o que diz e o que não diz
no feixe de sentimentos
e de visões
razão sensível que desperta
-
A música acorda as palavras que dela brotam
mas que florescem noutro ritmo
espaçadas no tempo
a partir do que numa sequência de acordes instantaneamente ela transmite
-
O largo espectro da música
em vigília nos transporta para lá do momento que passa
na convicção de que nos alimenta
-
Foi o espectro musical
que a este poema me conduziu
hoje apenas
e passado tanto tempo
-
Como benesse
da claridade
de invisível chama nos banha
no que para lá do que se vê
se sente
ouve
e por fim ajuda a ver mais longe
-
Porque pese embora
o que se diz e escreve vê-se
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Julho de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

II - À LUPA

Jaime Latino Ferreira, À Lupa
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À lupa, observo os políticos e interrogo-me até que ponto é que na coerência das suas atitudes lhes não seria exigido, eticamente exigido, repito, olharem para este meu percurso na atitude que em relação a eles faço, da há muitos anos, por cultivar, concedendo-lhes sempre o benefício da dúvida de que acho serem merecedores e pesem embora as oportunas críticas que eventualmente lhes faça e pergunto-me por onde, em coerência, andam eles?
Falo dos políticos em geral e numa visão global e não estritamente nacional, muito menos nacionalista e enquanto institutos soberanos que nas democracias, nas suas visões plurais, os têm de enformar ...
Por onde andam eles?
Por onde andam eles e ainda que seja eu próprio sempre a dizer que não se pode cair em generalizações?
Por onde andam eles ...!?
Qual deles se sujeitaria a um percurso congruente como este e sem olhar a estatísticas, grupos de interesses, correntes de opinião, circunstancialismos ou conveniências eleitorais ou de momento!?
Assim despojado ou fazendo da Entrega e do Serviço, na reflexão que com o tempo se sistematiza, sem o contraditório que não o silêncio que da sua parte se avoluma, em Doutrina Política que não pára de crescer e de se consolidar!?
De crescer e de se enraizar!?
Em nome do indispensável equilíbrio que pela equidistância se faz e do aprofundamento da Democracia!?
Numa visão singular à qual a própria Democracia faz apelo, visão, em simultâneo, de largo espectro e sem a qual esta não passa de uma abstracção ou de um jogo de forças onde os tacticismos se acabam sempre por impor a qualquer visão estratégica global de futuro que urge e pela qual o Planeta grita!?
Por onde andam os Políticos!?
Passados todos estes anos, mais de vinte e um, calcule-se (!) e agindo pacificamente e com toda a hombridade, resiliente, insisto em afirmar:
O tempo o dirá!
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Julho de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

I - BOUQUET

Jaime Latino Ferreira, Bouquet
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Amanhã vou ter com uma senhora e apetece-me levar-Lhe um bouquet!
Não temos, um com o outro, uma relação pessoal, antes profissional ou melhor, de médica para o Seu paciente ...
Ficaria, com esse meu gesto, contaminada essa relação que de há muitos e bons anos já cultivamos, com frutos expressos e dados à evidência?
Há quem possa entender que sim ...
Há quem ache que este tipo de relação se não deve deixar toldar, que nela não se devem introduzir gestos susceptíveis de humanizar em excesso, de introduzir ruído, dizem, nessa mesma relação e ainda que fruto de um simples gesto de cortesia.
Eu, pela minha parte, não vejo nada que com esta minha atitude, um simples gesto de cortesia, repito, possa dar aso a que esse mesmo relacionamento se possa, no seu estrito âmbito, deteriorar ...!
Mas se por vezes nelas, nas relações deste âmbito se introduzir alguma humanidade, afecto adicional, não vejo em que é que daí possa vir algum mal ao mundo, perca de objectividade ou envolvimento excessivo que nem por um momento me ocorre induzir.
Assim, decidi, simbolicamente e nesta intenção, esta que nesta página simbolicamente se expressa e publicamente se anuncia, caso essa senhora a este meu texto o venha a ler - tudo farei para Lhe chamar sobre esta minha página a Sua atenção (!) - decidi, escrevia, aqui Lhe deixar à consideração em que é que este meu gesto de cavalheirismo poderá induzir o que seja numa relação, na relação que mantemos, que ao Seu profissionalismo o pudesse vir a questionar.
Com essa senhora que me tem, na preventividade do seu ofício, rastreado muito bem, o que logo ao meu gesto o justifica (!), da minha parte tudo farei para que a necessária isenção não se quebre e pese como pesará o simbolismo que publicamente, nesta página, aqui se dá!
E assim sendo, tornar-se-á ou não mais humana, menos fria e profissionalmente mais eficaz a relação que no estrito âmbito das suas finalidades, com Ela pretendo, continuadamente, contribuir para salvaguardar!?
Se essa senhora, amanhã, quando for ter com Ela, a este meu texto o já tiver lido, também pouparíamos tempo na procura de respostas que a estas mesmas perguntas, de antemão, antecipadamente, hoje aqui Lhe deixo!
Isto já que, no nosso encontro de amanhã e com o trabalho de casa feito, este seria um bom tópico de conversa ...
... e, já agora, com o tema musical associado que a este texto o acompanha!
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 12 de Julho de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

LATINO

Jaime Latino Ferreira, Pisa Papéis
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Despojo-me num Latino apenas, pisa papéis de meu avô paterno, self-made man e comerciante de sucesso em Lisboa onde se estabeleceu mas que não tive o privilégio de conhecer, Latino de seu primeiro nome.
Latino como latina é a língua portuguesa ...
Retiro de cima o pisa papéis e dou a volta ao maço que se avoluma por prateleiras e gavetas até chegar a esta virtualidade leporídea!
Sou Latino de segundo nome e linguisticamente falando ...
... nesta língua que de meus lábios e dedos não se extingue mais e na universalidade que a caracteriza.
Língua de poetas e de descobertas que logo no que escrevo mais se consubstancia!
Latino ...
Latino, meu avô que por aqui, no Estoril, se radicou.
E eu, já na terceira geração ...!
Essa sempre problemática geração que ou permanece desenraizada ou se enraíza de vez!
Enraizei-me ...
Enraizei-me não num território geográfico que amo, é certo mas, sobretudo, num outro linguístico, dinâmico e de fronteiras indefinidas que faz de mim aquilo que sou!
Poderei eu ser recriminado, discriminado por isso!?
E ainda que nem num livro, propriamente dito, nesse território material me tenha deixado, por ora, confinar!?
Permanecendo nesta virtualidade atenta, latina por certo (!?), onde me expando sem fim!?
Latino ...
Latino sou eu e depois, não o foi o próprio Império ...!?
Que aqui se confina à língua, meu império soberano, sem às outras as subestimar na elevação que a elas, a todas elas em paridade lhes atribuo!?
Na transculturalidade, cosmopolitismo de que sou feito, eu como todos e que tem de contrariar a uniformização linguística no enraizamento que na globalidade, globo este, nosso mundo, se complementa e constrói!
Latino de segundo nome, cidadão do Mundo, esta pequena aldeia que o é ...
O Mundo só pode, na sua imensa diversidade, caminhar para a paz e a unidade, elas próprias impulsionadoras da diferença, das diferenças ...
... e não a guerra!
Latino sou eu e canto-Vos assim em português.
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 11 de Julho de 2010

sábado, 10 de julho de 2010

SER ALADO

Jaime Latino Ferreira, Ser Alado
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Meu amor vive a meu lado
caço anémonas no montado
dança comigo a galáxia
vitória de samotrácia
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Borboleta que esvoaça
alegria me trespassa
é firmamento estrelado
cauda cometa gelado
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Bate as asas no telhado
do meu coração que ameaça
ser furacão no sobrado
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Pois a medusa me caça
deixa-me destrambelhado
no que em mim desembaraça
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Julho de 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

LÁPARO

Jaime Latino Ferreira, O Meu Coelho
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Sou como coelho amarelo
desenrolo este novelo
quanto mais pulo e avanço
mais longe com a vista alcanço
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Sem grasnar qual pato ou ganso
em mar de esperança me amanso
a ninguém eu atropelo
dando ao meu sonho a escrevê-lo
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Sou um coelho sem pêlo
de porcelana afianço
não parto a loiça a martelo
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Em alegoria me entranço
estampo páginas com meu selo
estafetas são não me canso
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Julho de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

CONVERSA COM SARAMAGO

José Saramago, caricaturado por autor desconhecido
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" Escrever é traduzir.
Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua ...
Transportamos o que vemos e o que sentimos para um código convencional de signos, a escrita e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não tanto a integridade da experiência que nos propusemos transmitir mas uma sombra, ao menos, do que no fundo do nosso espírito sabemos bem ser intraduzível, por exemplo a emoção pura de um encontro, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugaz de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o rasto de um sonho que o tempo não apagará por completo. "
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citação de Saramago recebida em powerpoint enviado por José Ferreira, homenagem brasileira a este grande autor de língua portuguesa
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JOSÉ SARAMAGO
Caríssimo José,
Sabendo quanto a internet está pejada de citações falsas ou atamancadamente atribuídas a, faço, no entanto, fé em que esta te pertença e escrevo-te como se assim fosse e tanto mais quanto a fonte que me a enviou é, considero-a (!), fiabilíssima.
Mas, esta citação até poderia não ser tua que, nem por isso, deixaria de ser fonte de reflexão que me apetece não desperdiçar ...
Ouve, por momentos, o Adagietto da quinta sinfonia de Mahler aqui transcrito, traduzido para vozes corais e interpretado pelo Coro Accentus:
É ou não este Adagietto e em si mesmo, tradução espelhada de estados de alma partilhados por tantos de nós e que Mahler traduziu, sabê-lo-ia (!?), neste clarão, como ninguém?
E transcrito para vozes, deixa-lo-á de o ser?
Tradução sobre tradução do que tu terás escrito:
... tradução para um código convencional de signos ...
...
do intraduzível na sua integridade a não ser, quiçá, pela inteligência do leitor ...
... que não é apenas inteligência no sentido estrito da capacidade racional mas também de um misto dessa e de todas as outras, das inteligências dedutiva como da indutiva, da emoção pura de um encontro e do deslumbramento de uma descoberta, prenhes desse fugaz momento de silêncio anterior à palavra, desculpa-me tomar como minhas as tuas próprias palavras e para lá daquilo que estritamente dizem, instilando-as da música que as precede e eleva sempre, já que o silêncio é a outra componente dicotómica (!?) que somada ao som propriamente dito se converte, traduz em música ...
... e que fica na memória, pois então e num rasto tanto mais vincado, impressivo quanto persistentemente cavado o for e que o tempo não apagará seguramente ...
... sombra ...
... ou clarão, porque não (!?) ...
... de um sonho que cresce e se afirma ...
... e cresce tanto mais quanto, repito-me, persistentemente cavado se o saiba sulcar ...
... quanta razão te dou naquilo que escreves assim repescado fora do contexto e mais, e mais ao que tu escreves me dou na liberdade de acrescentar ...
A escrita é, na música concentrada que encerra, ela também linguagem cifrada que traduzida se reflecte e espelha, a transposição e a transcrição do sonho!
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esta é a terceira de três réplicas, a primeira a Alberto Caeiro e a segunda a Almada Negreiros
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Tradução
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Julho de 2010

pormenor de quadro em fotografia trabalhada de Jaime Latino Ferreira

terça-feira, 6 de julho de 2010

CONVERSA A TRÊS

"As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca acabam."
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José de ALMADA-NEGREIROS, importado de
Terraços de um Anjo
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Paulo e Almada,
A ti, Paulo, perdoa-me o abuso que assim me levou a sacar deste teu blogue a imagem, desenho de Almada, seu auto-retrato e a citação que aqui está para sobre esta última, sem descurar o Seu inconfundível traço, a partir delas reflectir.
A ti, Almada, que já cá não estás para te defenderes (!), perdoa-me isso mesmo, o pegar assim em palavras tuas e descontextualizadas, para apontar nesse mesmo sentido ...
Sobre ti, à luz do teu traçado e das tuas palavras que aqui pontificam, remetendo-as para ti próprio na obra que nos legaste, como elas se aplicam, tout court, no teu personagem que por essa via, por via da tua obra, nunca mais se acabará de refazer ...!
Sim, porque, afinal, quem és tu!?
Será que esta pergunta poderá alguma vez vir a ser cabalmente respondida!?
Não, não me parece ... crescerás sem nunca mais acabar no precioso legado que nos deixaste!
Voltando a ti, Paulo:
Pegando também em palavra com que te gostas, eu pelo menos gosto (!), de te identificar, Intemporal ...
Acabas ou não!?
Claro que todos nós temos a nossa finitude, não ficaremos por cá para sempre ...
Tu és alguém, alguém de concreto com quem me habituei a conviver e a apreciar, mas como eu, como o Almada, como um anónimo qualquer, somos mortais!
Um dia, como o Almada, extinguir-nos-emos por aqui ...
De nós, o que sobrará?
Sobrará o que saibamos dar, como o Almada o deu!
Tu já me deste variadíssimos pretextos ...!
Dir-me-ás que o Almada é o Almada, nós ... quem é que somos!?
O que acontece em relação a Almada como em relação a todos os consagrados e disso, porque se tornaram consagrados e imortais entre nós e já não falo da vida eterna em que se acredita ou não, questão de fé que em cada qual eu respeito (!), o que se passa com eles, no seu sempre inacabado retrato, com certeza, é que houve um momento no seu percurso do qual já todos se esqueceram em que saltaram do anonimato para a consagração!
Antes disso, qualquer consagrado, Almada seria como tu ou eu:
Ilustres desconhecidos!
No entanto, se eu me puser a cavar no percurso de um ilustre desconhecido entretanto finado, tem ou não fim, acaba ou não o seu percurso?
Onde e como e para lá da sua morte física?
Poderá, alguma vez, ser refeito o seu retrato?
Não, meus caros amigos, nenhum de nós acaba mais e logo no estrito sentido terreno, somos todos imortais!
Tu, Almada, sabes bem que o és!
Tu, meu caro Paulo, imagina só se algum dia e depois de finados, tu e eu, alguém pegando ou não nesta carta tripartida, nos resolve revolver a nossa história!?
Aposto contigo que nunca mais o acabariam de fazer!
Pelo que ... a todos, Vós que não haveis posto um fim ou violentado as nossas próprias imortalidades, Vos admiro!
Imortalmente Vos enlaço, sempre inacabados, Vosso
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no dia da morte de Matilde Rosa Araújo
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Julho de 2010