domingo, 4 de julho de 2010

POR FORA E POR DENTRO


Jaime Latino Ferreira, Por Fora e Por Dentro, Monserrate, Julho de 2010
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De fora vejo por dentro
sem me colocar no centro
o que por dentro queria
ser o que queria e não via
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Naquelas arcadas me ria
arabescas onde estaria
sendo eu o epicentro
dos meus silêncios que invento
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Por dentro sou meu intento
mas por fora gozaria
do que por dentro sustento
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Minha imensa alegria
de saber-me no que tento
e pelas palavras crescia
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 4 de Julho de 2010
Jaime Latino Ferreira, De Fora Para Fora, Monserrate, Julho de 2010

sábado, 3 de julho de 2010

DEDILHADO

Manuela Baptista, Março de 2010
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Se frente a este teclado
me dispusesse sentado
a interpretar partituras
daquilo que escrevo pinturas
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Retratos de diabruras
desde o dia em que as procuras
o polifónico armado
não caberia no prado
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Ficando o Mundo ligado
vãs seriam as alturas
de tão extenso dedilhado
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Cruzar-se-iam leituras
e não caberiam no estrado
as vozes de minhas escrituras
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Julho de 2010
Jaime Latino Ferreira, Frenesim, Julho de 2010

sexta-feira, 2 de julho de 2010

ONDE TUDO SE RESOLVE

Jaime Latino Ferreira, Domus, Julho de 2010
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É em casa, no domus, que tudo se resolve!
Que espaço de realização ...
Dir-me-ão que não, que a ela confinados definhamos em aridez sem horizontes de realização no desgaste rotineiro que a nada senão à mera sobrevivência se reduz ...!
Paternalisticamente, numa visão caduca, tende-se a olhar para o espaço doméstico com um olhar condescendente, macho, dir-se-á, replicador cultural do caçador e do guerreiro, olhar esse que a ele, ao trabalho doméstico o tende a substimar da sua inegável centralidade:
A gestão da casa com tudo o que ela implica, que monumental Serviço!
Das lides propriamente ditas, refeições, roupas, limpezas, lavagens, manutenção, estoques e compras, de toda a sua organização e planificação à gestão de orçamentos, coisas e afectos na coesão a manter e consolidar, no acudir a todas as necessidades, materiais e humanas que em permanência nos interpelam e já para não falar de jardinagem caso disso for, não sei se de alguma coisa me esqueço, que impressionante Trabalho ...!
E para lá de tudo isso, ainda encontrar espaço e tempo de realização Cultural que por ele, por essa desnudada entrega em si mesma cultural, se não deixe absorver, abater ...
E como os novos tempos, estes que aqui, neste como noutros suportes electrónicos nos permitem expressar, com o Mundo comunicar e por ele, também, nos deixarmos envolver, seduzir mesmo, sem sequer termos, necessariamente, de sair de casa!?
E como os primeiros, os afazeres domésticos na sua plena e não descurada extensão, nos reforçam a disciplina e organização que aos segundos os permite, por sua vez, realizar em plenitude!?
Com toda a Dignidade ...!?
O domus ...
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Ai de quem olhe para o que nele se passa com altivez cega e implacável surdez
Ai de quem à música invisível e às luzes brandas lhes não dê a importância devida
merecida
exigida
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dedicado a Manuela Baptista
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Julho de 2010

quinta-feira, 1 de julho de 2010

RÉPLICA A ALBERTO CAEIRO


Alberto Caeiro de Hermenegildo Sábat
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Sentes, Pensas e Sabes que Pensas e Sentes
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Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?
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Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.
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Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
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Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.
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Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.
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Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
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Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra",
Digo da planta, "é uma planta",
Digo de mim, "sou eu".
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?
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Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos
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Quadro em que me miro
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Alberto
Meu Caro,
Eu que como tu sou poeta e pensador, que como a Dulce que me deu este pretexto sabemos que pensamos e sentimos e vice-versa, como tu, escrevia, interrogo-me sobre a pedra ou a planta.
Elas não escrevem como nós, nem fazem poemas, não têm ideias que implicam conceitos nem cantam, nem pintam tão pouco ...
Consciência, como dizê-lo ao certo se a pedra ou a planta a têm ...!?
Somos diferentes mas também tu és diferente de mim e embora como eu, escrevas, penses, sintas, tens consciência e mais do que tê-la, como eu, repito, elaboras ideias sobre o mundo e teorias sobre as coisas!
O que é ser mais ou ser menos?
Poderíamos nós, tu como eu, ser alguma coisa sem as pedras ou sem as plantas?
Duvido ...!
É claro que tu como eu para além de gente poderemos ser poetas ou pensadores tal como a Dulce a tudo isso soma a mulher de leis, mas será que por tal nos tornamos superiores!?
Na nossa diferença de gente que somos, os códigos que inventámos permitem, não só que comuniquemos uns com os outros nas nossas tamanhas diferenças como também dizer se somos gente comum, poetas, pensadores ou homens de leis ...
Mas que códigos têm as plantas ou as pedras e se é que deles necessitam para comunicar umas com as outras!?
Se deles não necessitam, não seremos antes nós que diante das pedras como das plantas sofremos de um handicap que nos obrigou a criá-los!?
Os desequilíbrios que criámos no habitat que todos partilhamos, não foram nem as pedras nem as plantas que os provocaram ou foram!?
Então, o que falta saber, meu caro Caeiro, não é se somos superiores ou inferiores em relação a elas ou uns em relação aos outros, antes sim ... se estamos ou não à altura da situação criada.
E o resto, desculpa-me a rudeza (!), o resto é conversa!
Um grande abraço para ti que tanto te admiro, teu

inspirado por Dulce AC na caixa de comentários da página anterior
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Junho de 2010

pormenor de quadro em fotografia trabalhada de Jaime Latino Ferreira

quarta-feira, 30 de junho de 2010

PROA CELESTE

Jaime Latino Ferreira, Proa Celeste, Junho de 2010
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Como navio nas ondas
por elas deslizo e navego
à tona em minhas rondas
qual equídeo resfolego
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No que procuro me encerro
navego no que em mim sondas
num fio de água ou num rego
em vasta maré não me afundas
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Proa celeste me inundas
do azul em que me rego
do plasma que em mim fecundas
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Da música não fico cego
carrego luzes profundas
e ao invisível o enxergo
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depois de hesitar e uma vez existindo dedico este poema ao extenso diálogo da caixa de comentários da página anterior e, em especial, à mulher de leis, a Dulce AC, que nela pontifica e a um oportuno reparo feito pela Renata
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Junho de 2010

domingo, 27 de junho de 2010

AUTO - RETRATO

Jaime Latino Ferreira, Impercepção Gráfica, auto-retrato de 2005
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Haverá entre os políticos, entendendo-se estes em sentido lato e não como corporação ou classe, como aqueles cidadãos que sabem que as suas atitudes têm inevitáveis implicações políticas e por mais ténue que possa ser o seu impacto mediático, algum que, em Democracia, é bom de frisar (!), tão longa e persistentemente, em atitude de serviço e entrega, inconformadamente se tenha perfilado e fundamentado essa mesma atitude, ao longo dos anos, sem se deixar abalar ao peso do poder que ainda, autocrático na sua essência e génese sobre os cidadãos se faz sentir, interpelando-o assim e directamente, no benefício da dúvida que não pára de lhe conceder, quanto eu!?
Há vinte e um anos que ao poder democrático o cerco em vastíssima manobra de sedução, tão vasta quanto a minha Obra que neste meu blogue apenas desponta e se aflora, numa atitude que, mantendo a equidistância em relação às forças políticas e no respeito por elas e esse mesmo poder sem o qual nos afundaríamos no caos, dirigindo-me às suas mais altas instâncias simbólicas, aqui como em qualquer outra parte do mundo, na Língua Portuguesa, uma das que mais faladas é à escala global, a ele o incito a dar o passo que pela consagração do cidadão singular, apenas por via da República poderá, terá de ser dado pela consagração da coisa pública em que essa mesma Obra se torna com vista à mobilização global, do topo à base da pirâmide social, a que a emergência dos tempos que correm e logo em nome do equilíbrio ecológico obriga e não se compadece mais!
Os tempos exigem que, com vista à salvaguarda da Democracia que apenas pelo seu aprofundamento e à escala global, os cidadãos se possam nela sentir plenamente identificados e esse reconhecimento apenas pela consagração do indivíduo, do cidadão concreto que obstinadamente, resiliente se perfila e aprofunda a doutrina política que aqui mesmo, ao longo deste ano e meio, se dá, desde logo e sobejamente a conhecer sem pôr em causa tudo o que é fundamental na sua própria defesa e salvaguarda.
A saber:
A liberdade de expressão que pelo contraditório, na sua efectivação não poderá ser inócua, isto é, terá de ter e independentemente do seu impacto mediático, repito, implicações políticas, como é o caso;
O sufrágio universal;
O sistema multi-partidário;
A separação de poderes;
O Estado de Direito.
Como logo se diz na Constituição portuguesa que, estou certo, não divergirá muito das outras constituições democráticas, nos seus artigos primeiro e segundo:
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Artigo 1º
República Portuguesa
Portugal é uma república soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.
Artigo 2º
Estado de direito democrático
A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.
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Se uma situação de direito democrático se aprofunda pela democracia participativa nas suas várias dimensões então, assim sendo, o seu cabal aprofundamento, em todas as provas que tenho dado realizar-se-á, repito, tendo em vista a própria dignidade de quem assim, participadamente a interpela, pela consagração do indivíduo que na sua Obra, ao longo dos anos assim se perfila e entrega, ainda que discreta, sombreada mas transparentemente, em prova de resistência pacífica de elevados custos pessoais mas inabalável diante das variadas esferas e instâncias do poder e do político em particular, com vista à realização da necessária catarse colectiva de que o Mundo carece para a salvaguarda da qualidade de vida que, globalmente e pelas razões sumariamente expostas, mais e mais se encontra ameaçada.
Noutra dimensão e segundo o Evangelho do dia de hoje ninguém que, depois de ter metido a mão no arado olha para trás, é apto para o reino de Deus.
Reino do Homem ...
O meu é um indispensável compromisso com o Homem e a Sua História.
Eu não sou o Messias nem sou um santo antes, isso sim (!), um pecador confesso que sabe, no entanto, que sem o compromisso com o Homem, o reino de Deus dele se estiola e a Democracia nele não se enraizará!
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 27 de Junho de 2010
Jaime Latino Ferreira, Ao Espelho, auto-retrato do início (!?) da década de setenta

sábado, 26 de junho de 2010

VAU

Jaime Latino Ferreira, Escada, Maio de 2010
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Percorro degrau a degrau
escadaria sem ter grau
de ângulos recto ou raso
seu patamar seja o caso
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Que a pulso feita dê aso
a um nó ou a um laço
seja escadote de pau
ou uma escada de aço
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Seja um baixio ou um vau
seja trave de uma nau
ou uma ponte em que passo
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É nesta escada que caço
sanguínea com varapau
as presas a que me enlaço
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Junho de 2010