segunda-feira, 11 de outubro de 2010

INSTANTÂNEO

Fotografia de Jaime Latino Ferreira, Instantâneo, Setembro de 2010
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Sigo a cana no ar e instantâneo, fotografo-a em movimento.
Apanho-a!
Se me pedissem para descrever a minha escrita, defini-la-ia como fotografia de um momento, movimento aprisionado nestas linhas.
Quantas vezes, de uma palavra apenas, nem sequer de uma frase ou de um tema que me aflore o espírito, surge o instantâneo ...
Fracção temporal, segundo em movimento ...
... movimento de um comboio em alta velocidade captado aqui, retido na prisão do meu olhar!
O que do olhar se vê para lá do que se vê.
Do que se ouve como as palavras o dizem embora escritas se acabem, também, por ver.
Ver e sugerir ...
Instantâneo!
O que do instantâneo se alarga, cria espaço e tempo incomensuráveis nessa brecha do tempo que julgáramos estreita e impenetrável, fugidia como o reflexo espelhado tão distante, estanque e simultaneamente tão próximo e familiar.
Inaudível, invisível, indecifrável.
Apanho a cana no ar e aprisiono-a na roda do tempo.
À velocidade da luz, ultrapassando-a ...!
Ai se não me dou conta do foguete no impulso que a lança!
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Cenas
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 11 de Outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

DA GRAINHA PARA A GRANDE VINHA


Escreve-Te, mãe pátria, esta grainha, cidadão da Grainha de Uva como na Tua língua o meu país se nomeia, tão pequeno e irrelevante ao pé de Ti ...!
Assim sendo, apenas grainha, grão insignificante terei eu de ser, sem uva e sem nada, tão sem nada como as grainhas que profusamente Te habitam e que sendo, eventualmente, aprisionadas por delito de opinião em pouco Te poderão servir ...

Muito antes pelo contrário!
Escrevo-Te a Ti como Tu és, essa tão grande Vinha, a qual assim aprisionando grainhas, pequenos grãos como eu, impedindo-os de florir, apenas em Si mesma crava espinhos de difícil, incómoda e acusadora, desafiante denúncia a fazerem-se recair contra Ti e sobre Ti mesma ...

Os celeiros encheram-se, o vinho jorra por entre as belas castas apuradas, a grande Vinha abre-se ao mundo e a ele quer dar-se em sinal de Paz, mas uma que seja a grainha, o grão encarcerado por dissidência e a Vinha não poderá florescer plenamente nem os Seus frutos darem-se a escorrer em doce licor de Baco.
Há muitos anos estive do Teu lado perante a derrocada dos impérios e intuindo que se também Tu caísses, todos seríamos engolidos no Teu desabar ...

Há muitos mais anos Te visitei e convivi com camaradas recém libertados após o fanatismo que Te varreu antes da abertura e que se mostravam orgulhosos na sua fustigada mas inteira dignidade ...!
Ouve-me grande Vinha!
Sem Liberdade que é de todas as pátrias e de todos os horizontes, o vinho não jorra e as castas, verdadeiramente, não se aprimoram ...
... e o medo, esse apenas tolhe e é inimigo de uma fortalecida, desejada coesão ...

Que mil flores desabrochem e de todas as cores!

Liu Xiaobo
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na atribuição do Nobel da Paz a Liu Xiaobo, activista político da não violência encarcerado na China por delito de opinião
não deixa de ser um bom sinal, segundo relata a agência Efe que Sua mulher a poetisa Liu Xian tenha sido hoje autorizada a visitar o Seu marido na cadeia em que se encontra aprisionado, em Beijing
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Incentivo
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

FIBRA

Fotografia de Jaime Latino Ferreira, Sobreposições, Outubro de 2010
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Quantas vezes sou do meu olhar
o simples filamento duma trova
musculação tensa que não pára de vibrar
e que se é peça é o todo desta obra
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Sobreposição de outra a mais que se desdobra
camada após camada a querer mostrar
exílio de mim próprio que te louva
divide num cem número sem parar
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Quantas vezes sou não sou o que quero dar
tudo o que eu vejo e se calhar
também o que não vejo e que me mova
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E tudo o que em ti me inspira a nova
vontade redobrada que me sobra
murmúrio deste eterno sussurrar
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inspirado ali
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Sussuros
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Outubro de 2010

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

TRISTES PALCOS

Fotografia de Jaime Latino Ferreira, Ruído, Setembro de 2010
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Estou farto de televisões
diversão de parcas pistas
pantalhas de tristes sermões
sem fôlego para o que avistas
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Conversas de ilusionistas
de mal soletrados bordões
desejosas de querer richas
toleimadas confusões
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Ampliam-se opinões
em sentimentos de mistas
reacções para dar nas vistas
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Efémeros palcos de artistas
que cegam os nossos serões
deles se rindo Camões
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Passamezzo
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

JAIME LATINO FERREIRA

Fotografia de Jaime Latino Ferreira, Mural, Setembro de 2010
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Em vésperas da celebração do primeiro centenário da implantação da República em Portugal que se celebra amanhã, dia 5 de Outubro, importa frisar que não bastam declarações pesarosas sobre o défice de exercício da cidadania como da boca de tantos responsáveis políticos que aos mais poderosos meios de comunicação social têm acesso, sim, porque nem todos o temos (!), não se param de, recorrentemente, ouvir.
É imperioso que se reconheçam aqueles que, com os meios de que dispõem a exercem bem como a maior ou menor profundidade com que o façam, tirando-se daí as incontornáveis e legítimas consequências que com timings mediáticos e eleitorais não se compadecem mas que a própria República reclama!
Que piedosas mas inconsequentes lamurias as desses responsáveis políticos ...!
Eu, Jaime Latino Ferreira, tenho ao meu dispor este suporte público que o é e ele permite-me este exercício sistemático de cidadania que também o é, sem dúvida (!), dando-me nele publicamente a escrutinar, a avaliar.
Não percorrerei os tradicionais trâmites mas existe alguém ou alguma coisa, coisa que pública o seja que me impeça de seguir estes caminhos que eu, legítima e transparentemente, optei por trilhar!?
Serão eles menos legítimos, menos constitucionais do que outros!?
E tornam-se ou não eles, o conjunto sistémico de textos que aqui e desde antes do meu blogue, qual mural, Vos vou deixando em coerência com a minha própria praxis, em coisa pública, pública e publicada, res publica de relevância e merecedora de consagração!?
E deles devem-se ou não tirar as devidas ilações!?
Neste dia que ao centenário o precede, eu, Jaime Latino Ferreira, coloco-me diante da República e reclamo-me dela na assumpção da coisa que ou é do Povo e pelo Povo ou não o será de todo, esvaindo-se, então, as pias intenções e desejos que se proferem em
consumida, inconsequente e gasta, falida retórica!
Faça-se desta comemoração, não um desfile saudoso, alheado e moribundo mas uma prova de vida!
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Final da Abertura 1812
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 4 de Outubro de 2010

sábado, 2 de outubro de 2010

CORAGEM PARA DIZER

Fotografia de Jaime Latino Ferreira, Em Movimento, Setembro de 2010
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Eu diria assim:
Acabou o tempo das vacas gordas!
Acabou o tempo do consumismo desenfreado!
Acabou o tempo do compra, usa e deita fora!
Acabou o tempo da manipulação ...!
Acabou o tempo em que julgávamos poder viver indefinidamente numa crescente espiral acima, sempre acima das nossas possibilidades!
Acima das capacidades do próprio planeta do qual pensaríamos ser possível tudo poder extrair sem o pagamento de uma qualquer factura e sem limites nos recursos que estariam aí e sem mais, à nossa insaciável e caprichosa disposição!
Acabou o tempo do ter, ter cada vez ilimitadamente mais!
Acabou o tempo do ter como pressuposto do ascendente social!
Acabou o tempo da ditadura do dinheiro ou, melhor ainda, a ditadura do dinheiro ditou-lhe os seus próprios e não mais escamoteáveis limites!
Acabou o tempo do ter para se Ser!
Tenha-se o básico, todos temos direito a ele (!) e é nos limites do insignificante nada em movimento que somos que se vê quem, de facto, É!
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onde não há equidade
há um clamoroso défice de razoabilidade
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Movimento 1
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Outubro de 2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

PALAVRA E MÚSICA

Fotografia de Jaime Latino Ferreira, Aguarela, Setembro de 2010
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As palavras têm música.
São música ...
Música concentrada!
Repare-se numa, numa qualquer palavra:
A quantidade de harmónicos que ela tem ...
Harmónicos naquele sentido de terem, quaisquer delas, uma profusão de significados em vibração semântica, encadeados, consonantes ou dissonantes, em acorde ...!
Tomemos a palavra música:
" 1. Arte e técnica de combinar os sons de maneira agradável ao ouvido.
2. Teoria dessa arte.
3. Composição resultante dessa arte.
4. Execução de uma peça musical.
5. Conjunto de músicos.
6. Papel ou livro que contém notações musicais. Partitura.
7. Sequência de sons harmoniosos cuja cadência ou ritmo lembram uma melodia.
8. Choradeira, lamuria.
9. Lábia. "
Isto, apenas o que da palavra música diz o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, aqui ao dispor, na Internet!
Música e palavra ...
Se a música é água, a palavra aguarela!
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Combino os sons em palavras
no que escrevo minha arte
que transcende a pura música
no silêncio que a enquadre
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Chora a lamuria que arde
soa nela o que ditavas
peça que não descarte
partitura em que vibravas
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Teoria supersónica
nos seus contornos me encravas
enquanto espero e me travas
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Cadência que cedo ou tarde
em melopeia combine
aguarela que a define
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no dia mundial da música
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A música, a palavra e a harmonia
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 1 de Outubro de 2010