sábado, 30 de outubro de 2010

CASULO

casulo de borboleta
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Quanto mais por fora é negro
mais luminoso por dentro
o que vejo do casulo
impulso do meu cata-vento
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No lugar em que me enfrento
está o espaço em que me centro
qual firmamento estrelado
do céu um simples bocado
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Chovam vozes em chorado
empardecendo o toucado
orlado deste meu fado
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Pois mais ele espanta o finado
brilhante a luz do brocado
que irradia deste estrado
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no enxota-enxota de responsabilidades indignificante mas que mais me alumia
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The Royal Wind Music
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Outubro de 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

POR DENTRO

Por dentro me sinto mar
música no seu altear
reflexo de porte baixo
o que se diz sem pensar
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O pensamento o unguento
perfume que a faz soar
no lugar em que me enfaixo
sem querer dele regressar
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Não paraliso um momento
no acorde que quero dar
a cantar me reinvento
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Saiba eu onde me encaixo
assim soprará o vento
em ondas que sei dançar
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intencionalmente, nesta como nas páginas anteriores, num tempo em que no espaço público mais espaço parece não sobrar senão para aquele das contas do deve e do haver
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Outubro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

MEDO DE PENSAR

Há quem instado, aproveitando-se de interpostos palcos e resolvendo lançar soundbites, julgando, com eles, estar a pôr um ponto final no assunto ou a fazer boa figura, do alto do seu convencimento, afirme:
Pensar demais ... paralisa!
Com tais bitates assim revolvendo o charco, ao contrário de nos sentirmos paralisados, quiçá, estritamente pelo medo, paralisamos sim mas chocados pelo medo latente de pensar.
Como será possível fazer uma tal afirmação julgando com ela poder passar-se incólume ou fazer-se um vistaço e tanto mais quanto maiores forem as responsabilidades de quem a produz!?
Pensar demais paralisa!?
Como é possível produzir-se uma tal bojarda!?
O que é isso de pensar demais!?
Deve o pensamento ter limites!?
Poderá o pensamento, alguma vez, cingir-se a uma mensagem que se quer telegráfica e rotunda, sem que desencadeie réplicas de pensamento sucessivas!?
Pensar demais paralisa ...!
Como é possível!?
De um pensamento a outro e a outro mais, encadeados, palavra após palavra, de um a outro período e de página após página cheguei eu até aqui e não me sinto, minimamente, paralisado!

Este tipo de sentenças, por mais irrelevantes que possam parecer, quando emergem trazem à tona, larvar, o subterrâneo que a elas lhes subjaz e que ajudarão a explicar o ponto a que se chegou ...
Paralisado fica quem tem medo de pensar e os resultados ... saltam à vista!
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do que se diz mas que melhor seria calar
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Courante la Boivinette
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Outubro de 2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

LEVANTE

Ai tu outro eu arrepiante
que me empurras sempre para diante
julgando que me poderias aturdir
fazeres-me desertar do meu sentir
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De tudo o que faço por investir
escrever fazer por ver sem me iludir
julgaras tu parares-me de ir avante
em prosa ou na poética do levante
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Não tens força maior nem és possante
para aquilo que aqui deixo e está para vir
nem me interrompes assim e de rompante
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O medo que me rodeia faz-me rir
é cerco que medeia o que adiante
o desmorona e faz-me prosseguir
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Brisa
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 27 de Outubro de 2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O CHORO E O MEDO

Fotografia de Jaime Latino Ferreira, trabalhada como pintura livre a partir de escultura de Francisco Simões, O Que Temes (?), Julho de 2010
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Há momentos, fugazes momentos, em que um arrepio gelado me percorre de alto a baixo.
Um choro lancinante emudece, então, multicolor em espectro frio a minha voz!
Que tenho eu estado para aqui a fazer!?
Que disparate pegado, interrogo-me para logo concluir que já é tarde, tarde para mudar ou arrepiar caminho ...!
No choro que assim me emudece a voz, sou assaltado pelo medo.
Um medo adunco quase pânico mas contaminado de auto-controle.
Tudo se passa em fracções ínfimas de tempo que não chegam para me abalar a verbe, muito antes pelo contrário!
E logo me recomponho ...
Não Jaime, não ensandeceste, talvez mesmo seja esse o melhor sinal de que manténs a noção da razoabilidade que te fez chegar até aqui.
Como, como poderias ter perdido o pé no que, qual fiel testemunho não páras de escrever!?
O medo ...
Sendo esse arrepio o medo, ele é, simultaneamente, barómetro que me mantém lúcido.
Lúcido e presente mesmo se, por breves momentos, emudecido por um choro lancinante e dificilmente traduzível por palavras.
Dir-me-íam, então, que nunca é tarde para arrepiar caminho e desbravar outros mais ...
Mas como, como perante este rastro que vou deixando!?
E que ainda hoje me faz vibrar e desde o primeiro escrito que produzi, como se ao arrepio gelado se contrapusesse um outro choro, o choro de um canto afectuoso, aconchegante e morno que não pára de brotar decidido de uma nascente ávida de mar.
Não, não o temo e não o temendo ao medo, pinto esculpindo sequioso o que aqui, de página para página se vai erguendo!
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a propósito do que vem de trás e de uma conversa sobre o medo
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original da fotografia da escultura de Francisco Simões
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 25 de Outubro de 2010

domingo, 24 de outubro de 2010

DAR FAZENDO

Fotografia trabalhada de Jaime Latino Ferreira, Escultura de Francisco Simões, Não chores, Julho de 2010
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Pela escrita dou aquilo que faço.
Aquilo que escrevendo faço, fazendo por corresponder ao que na vida real também faço por fazer.
Há, dir-me-ão e no entanto, uma diferença entre o que escrevo e o que faço!
Haverá ...?
Só se for porque o que escrevo seja a súmula daquilo que faço ...!
Vejamos:
Súmula ou resumo feito com clareza e precisão, epítome ou sinopse doutrinal, consubstanciação de uma obra, união de dois corpos, o que sou e o que faço, na mesma substância, a escrita e com a qual nas suas ideias me identifico, a forma que dou àquilo que sendo, faço ...
E vice-versa:
O que na minha Obra se consubstancia naquilo que faço por fazer ...
E, em ambos os casos, sublimação daquilo que sou!
Sou o que sou e o que de mim próprio pela escrita sublimo:
Purifico ou expurgo, volatilizo quimicamente, faço por exaltar ou engrandecer!
O que sou e não sou embora querendo e pela escrita fazendo por ser ...!
Música ...
Projecção.
Projecção sublimada nos dois sentidos porque do que faço logo pela escrita o faço, escrevendo e porque esta, também, logo pelo que escrevo a mim me obriga neste interminável compromisso que se verte no que escrevo.
E nesse processo, da fonte para a foz e desta para a fonte, numa dinâmica contínua e permanente, o poder, Política que dele emana.
O que se subentende.
Do que dando se escreve, fazendo e que dando, pelo que se faz, se escreve.
Se adianta chorar e quando choro, escrevo fazendo por cantar.
Canto é o que faço quando escrevo!
Interminável é o meu choro ...
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Sublimação da Voz
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

ONDE RESIDE O PODER

Fotografia de Jaime Latino Ferreira, Poder, 2010
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O poder reside no que se consiga fazer a partir daquilo que se tenha ...
... do muito, pouco ou nada que se tenha!
Eu posso ter todo o poder do mundo mas se a ele lhe não conseguir acrescentar qualquer coisa de positivo, de que me servirá ele?
Eu posso não ter nada ou muito pouco mas se ao nada ou muito pouco que tenha acrescentar qualquer coisa de positivo, que margem de poder, ao pouco, residual que tenha, lhe não conseguirei acrescentar?
Eu posso ter todo o poder do mundo mas se com ele me limitar a frustrar expectativas, de que me servirá ele?
Eu posso não ter nenhum ou muito pouco poder mas se com o pouco ou nada que tenho contribuir para abrir janelas de oportunidade?
Poder é poder dar fazendo, cumprir com as promessas feitas ou não as fazer de todo num discurso com verdade que, ainda que apelando aos sacrifícios ou à austeridade crie, no entanto, janelas de oportunidade e tanto maior é o poder que se tenha quanto do muito, pouco ou nada, pela criatividade, se consiga, no que por seu intermédio pelo exemplo se dá, fazer erguer!
Abrir como sinal de esperança ...!
O verdadeiro poder, sendo residual, residindo naquilo que sobra, é de matéria não quantificável e a ele se chama, isso sim e com toda a propriedade, Política.
Política com letra maiúscula ...
A Política da política!
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a propósito de
Do Que Se Trata
I, II e III que acabei de editar nas páginas anteriores
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Galhardia
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 22 de Outubro de 2010