domingo, 14 de novembro de 2010

PAISAGEM DE SONHO

Dreamscape, Ian Plant
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Planto o que avisto
e de escape
germina a semente
que por muito que se tape
se alicerça no que aqui ponho
e que vai da raiz ao meu sonho
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Por mais que se cubra de xisto

a paisagem que dele sai
ao medo o corta rente e ao medonho
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não são as adversidades antes o medo que impede a concretização dos sonhos
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Doce Memória
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Novembro de 2010

sábado, 13 de novembro de 2010

OLHANDO PARA LÁ


looking out the window ..., Ursula I Abresch
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Afasto as cortinas
e olhando para lá delas
outras e sempre mais se interpõem
a perder de vista
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E mais e mais
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Procuro um cais
porto de abrigo onde possa repousar
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Aqui
junto a mim
me diz que sim
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Seguro
confiante
permanente
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E revolvendo-as
às cortinas como às páginas de um livro
qual quixote e seus moinhos
ao que procuro encontro
e com elas
decidido me confronto
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do que se vê para lá do que se vê, no dia da libertação de Aung San Suu Kyi que se deseja seja para valer
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Novembro de 2010
Acervo da Biblioteca Nacional

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

QUANDO A OBRA SAI À RUA

ilustração de autor não especificado e por mim livre e arbitrariamente trabalhada
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Quando a Obra não se contenta por ficar numa estante ou prateleira;
Quando a Obra não se contenta em se encerrar nas páginas de um livro;
Quando a Obra não se contenta em ser peça de museu;
Quando a Obra não se confina a um palco;
Quando a Obra extravasa o ecrã;
Quando a Obra dispensa intermediários ou de Todos faz seus destinatários;
Quando, na primeira pessoa, a Obra se neles e por si mesma já interpela, não contente à realidade directamente a desafia ...
Quando a Obra, saindo de todos os clássicos padrões, foge dos salões ou de recintos circunscritos e decidida sai à rua ... é um bico de obra!
Onde metê-la, onde encaixá-la!?
Quando a Obra nesse passo se obstina ...!?
Quando a Obra a outras Obras as interpela e com elas dialoga, replica e sem que por isso as faça por desmerecer, muito antes pelo contrário, onde meter a Obra entre todas as demais!?
Quando a Obra sai daqui e ali, na rua, persiste em permanecer recriando-se em permanência, onde é que ela começa e, verdadeiramente, acaba!?
Como prendê-la, circunscrevê-la, qualificá-la ou classificá-la!?
Quando a Obra permanece viva, que raio de nome atribuir-lhe!?
Quando a Obra é Obra entre as demais, pares e seus iguais, que maior obra do que essa!?
Quando essa Obra assim se afirma, que obra essa!?
E que Obra, construção entre as demais!?
Tu és Obra!
Eu sou Obra ...
Quando a Obra como é cada um de nós sai à rua e obra maior não há (!), o que fazer à Obra para onde quer que ela vá!?
E tanto mais quanto se obstine em afirmá-lo ser ...!?
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num tempo em que à Obra se não dá, quiçá, a devida relevância
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Ária de Corte
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 12 de Novembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

RÉPLICA A WILLIAM SHAKESPEARE

fotografia de Walter
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Não te Arruínes, Alma, Enriquece
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Centro da minha terra pecadora,
alma gasta da própria rebeldia,
porque tremes lá dentro se por fora
vais caiando as paredes de alegria?
P
ara quê tanto luxo na morada
arruinada, arrendada a curto prazo?
H
erdam de ti os vermes? Na jornada
do corpo te consomes ao acaso?
N
ão te arruínes, alma, enriquece:
vende as horas de escória e desperdício
e compra a eternidade que mereces,
sem piedade do servo ao teu serviço.
D
evora a Morte e o que de nós terá,
que morta a Morte nada morrerá.

-
( William Shakespeare, in "Sonetos", tradução de Carlos de Oliveira )
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NÃO ME ARRUÍNO NÃO, MORTE É ALÇAPÃO
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Não tremerei por dentro nem por fora
nestas paredes que caio de alegria
nem poderia ser outra só pecadora
a máscara que assim em mim se fingiria
D
esta minha morada não tiraria
tudo o que dela retiro e assim dá azo
por mais arruinada não é uma casa fria
tão pouco é um lugar fora de prazo
M
inha alma não se arruína antes se aquece
não é simples comércio nem desperdício
nem à eternidade compro no que oferece
S
e a morte me devora não é serviço
o que de mim terá não me arrefece
a ela não lhe darei o meu ofício
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( réplica a William Shakespeare )
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dedicado a
Walter na fonte de inspiração que foi desta minha página
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Novembro de 2010
Caricatura de William Shakespeare

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

PECADO ORIGINAL

fotografia de f pedrosa
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O pecado original do comunismo consistiu em entender que não existia pecado ...
Pecado.
Pecado ou transgressão, transgressão ou infracção ...
Que apenas existia o colectivo e que o singular poderia ser transgredido por tal não constituir uma transgressão (!), violentado em nome dos superiores interesses do primeiro.
Que o sagrado, o inviolável em cada um de nós, poderia ficar à mercê da utopia.
A religião, ou seja, aquilo que em cada um de nós não dá para desligar, religado que está, não passaria de ópio do povo!
Hoje quase que se cai num discurso inverso, no negativo deste, isto é, no de se dizer que já não sobrará espaço para a utopia ...
Pecado original do capitalismo!?
Utopia versus religião ...
De quem, afinal, estes pecados na consciência que tenho do melindroso que o conceito, em si mesmo, transporta!?
Pecado original.
Não há, aliás, religião, no amplo sentido de religamento, sem utopia no igualmente amplo sentido de religado e sem ambas, o que sobrará em cada um de nós!?
Original seria que entre estes dois conceitos extremados, materialistas que por paradoxalmente o serem tanto se tocam e de resultados que a História já nos permitiria fazer o balanço, de um como do outro lado das perspectivas, encontrássemos finalmente o equilíbrio sustentado entre o bem comum, o colectivo e a integridade singular inviolável, na utopia que ao capital o aceitasse e vice-versa, religados que estão, para o bem como para o mal, nesse outro e insofismável ... pecado original ou inevitabilidade transgressiva que por natureza nos caracteriza.
Na transgressão, infracção, refracção que o saber é em si mesmo e transporta, está o pecado original em que se molda a diferença humana.
Tanto para o pior como para o melhor e daqui, desta minha rota intermédia, sustentada, não há como fugir-lhe!
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Rota
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Novembro de 2010

domingo, 7 de novembro de 2010

SOU COMO UM JUNCO - II -


fotografia de f pedrosa
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Repego pela mais positiva as Palavras da Manuela, da caixa de comentários da página anterior, e escrevê-las-ia começando assim:
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Sou como um junco
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que navega bem
em águas cristalinas
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( ... )
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E permaneço por aqui nada arrependido das palavras que, em ascese mayor, como o escreveu na mesma caixa Intemporal, dirigi ao Presidente Hu neste Seu segundo dia de visita a Portugal.
Para todos os efeitos, merecedor que entendo delas o ser, Hu Jintao é o Presidente do Povo Chinês que entre nós em visita se faz representar ...
E assim Lhe diria, olhos nos olhos, tudo o que aqui ou onde quer que seja, de meus lábios transporto no coração.
Diplomaticamente, polida e frontalmente, com transparência, como tudo pode ser dito e assim se o saiba fazer sem hipocrisias nem duplas faces, sem esconder pedras nas mãos prontas a arremessar pelas costas ou na primeira ocasião!
E no reconhecimento explícito da importância desta visita que se aos olhos dos comuns poderá não ter nada ou muito de especial, reflectir, apenas, um sinal de capitulação, mas onde pelo que se diz e como se diz mais não revela do que a salvaguarda de uma autonomia que se preserva, mais, de um desafio positivo que se lança (!), para lá da importância que a visita irremediavelmente traduz ...
Pois se a China estará interessada em investir neste país, sinal dos tempos, quem não o poderá, com este sinal, vir a estar!?
E que reflexos não o terá para este povo, o português e no contexto global!?
E que reflexos não o terá também para o povo chinês, na determinação resoluta que nesta postura, determinado me move!?
A Realpotitik, nos dias que correm, não reside num discurso de dupla face e esse, esse é que é gerador de desconfiança ...
... desconfiança essa, em que tanto se especializaram escolas de políticos, que já não engana ninguém, como se vê ...
nem muito menos os mercados!
Sinal dos tempos ...!
Corro um risco, pois corro, mas esse risco é sinal de coragem.
E a coragem é sempre apreciada por homens por muito frios que nos pareçam mas igualmente corajosos ...!
As águas do rio em que como junco eu navego são, faço por que sejam cristalinas!
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no segundo dia da visita do Presidente Hu a Portugal
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Novembro de 2010

fotografia de f pedrosa

sábado, 6 de novembro de 2010

CARTA AO PRESIDENTE HU - I -


fotografia de f pedrosa
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Presidente Hu Jintao
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Sou como as águas de um rio
um rio que corre límpido
transparente
cristalino para o mar
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De cujos lábios sai assim
por impulso
como um poema
o que deles do coração vem
nas saudades que guardo da
China
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Do Império do Meio
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E que de meus lábios saindo
te saúdam quando nos visitas
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Assim aprendi a fazê-lo
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De coração apertado
agrilhoado como estará o coração de
Liu
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Olho para ti
e vejo-te homem como eu
com vontade de ser rio
e ir ao encontro do mar
das águas com sal
lágrimas que nos unem a todos
continentes fora
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Neste mundo pequenino
e que nos transfiguram e fazem iguais
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Iguais
na comunhão
de um comunismo
finalmente maduro
despojado do seu pecado original
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Olho para Ti
e resoluto choro
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coincidindo com a visita do Presidente da República Popular da China a Portugal
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Novembro de 2010

fotografia de f pedrosa