segunda-feira, 29 de novembro de 2010

LÁGRIMAS

Fotografia de Jaime Latino Ferreira, lago dos jardins do Estoril Sol Residence, Cascais, Novembro de 2010
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Cai minha lágrima ao lago
mergulha em suas águas
que seria do que trago
de mim escondidas as mágoas
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Recortadas como tábuas
secas fontes são amargo
sabor de águas paradas
despidas deste meu fardo
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Suavizados os cardos
as lágrimas são enseadas
alegrias confiscadas
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Longamente esquadrinhadas
são o fervor em que ardo
geometrias que eu afago
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Novembro de 2010

domingo, 28 de novembro de 2010

MUDAR DE VIDA - III -

Sempre achei como continuo a achar que falar-se de classe política é um disparate equivalente a dizer-se que a política é um exclusivo dos políticos eleitos ou dos cidadãos, destes últimos apenas quando exercem o seu direito de voto.
Tal equivaleria a dizer que apenas a uns, aos eleitos, assistiria o direito de a exercer numa ditadura digamos que sufragada e pluralista e que aos outros, aos eleitores, dela alienados e excluídos no interregno entre sufrágios, lhes estaria vedado o acesso.
A Política é uma dimensão das coisas da vida que a ninguém pode ser vedada e de que ninguém se pode excluir quer o queira, quer não.
Todos os nossos actos ou simples opiniões enfermam dessa dimensão e mesmo se afirmamos que não.
Mais, o facto de nos excluirmos da Política corresponde, em si mesmo, à tomada de uma posição política:
Aquela de, lavando daí as mãos, dela nos julgarmos poder excluir em acto de irresponsabilidade que apenas aos outros, aos eleitos, poderia ser assacado!
Em cada uma das minhas páginas vulgo posts, essa dimensão está presente e isto independentemente do número daqueles que as pudessem, por hipótese, sufragar!
E essa dimensão, sempre presente, vale por si, no desejável contraditório que se estabeleça aprofundando a Democracia para lá do seu estrito formalismo e independentemente de por quem ela possa vir a ser sufragada.
Não é, aliás, o sufrágio universal que garante, por si mesmo, a maior ou menor justeza das políticas que se sufragam ...!

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Sufrágio:
1. Voto.
2. Adesão, aprovação.
3. Relig. catól. Oração; comemoração de um óbito.
4. Polít. Direito de eleitor.
( in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa )
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Adesão, aprovação:
Um teste, um simples exame é sujeito a sufrágio.
A ele se adere, aprova ou reprova e tal não tem nem deve ser sujeito a sufrágio universal.
Havia de ser bonito ...!
Uma hipótese científica é sujeita a sufrágio.
O sufrágio da experimentação susceptível de a transformar em lei e ai de nós se esta consagração resultasse da simples aplicação do sufrágio universal ...!
Uma Obra de Arte é sufragada pelo tempo e não pelas audiências imediatas que a ela aderem ...
Deus também não se sufraga ...
E serão todas estas dimensões da vida menos importantes do que as que advêm da, no entanto, incontornável ferramenta do sufrágio universal?
E excluir-se-ão umas às outras!?
Como a religião ou o seu não professamento, a Política a todos nos envolve e dela, a nenhum de nós assiste o direito de dela nos alienarmos.
Todos somos corresponsáveis, uns mais e outros menos, é certo, na situação a que se chegou e há é que, no envolvimento que a todos nos interpela e com visão mais ampla do que a da satisfação dos nossos interesses imediatos, mudar de vida!
Aliás, aos eleitos, quem os pôs lá fomos nós, nós todos por opção ou omissão, todos portanto (!), classe política por excelência que o somos e mesmo se o fingimos não saber!
Mudar de vida ...
Acabou o tempo de, em dança carnavalesca do enxota, fingirmos que não vemos e não sabemos!
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no cerco o Alemão resiste estoicamente e as ratazanas põem-se em debandada
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Novembro de 2010

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

MUDAR DE VIDA - II -

Não bastam as qualificações técnicas, académicas e os desempenhos profissionais, strictus sensus, para se avaliar da qualidade de quadros e dirigentes, trabalhadores ou profissionais que nas mais variadas áreas desempenham as suas mais ou menos estratégicas funções.
Não, não bastam!

É indispensável a generosidade que falta, o sentido do serviço à comunidade e que quantas vezes, hoje mais do que nunca (!), implica o sacrifício sem o qual todas as aptidões referidas acima, indispensáveis que são, se tornam insuficientes e tanto mais quanto nos tempos que atravessamos e que de todos nos exigem mais, muito mais!
Hábitos instalados, rotinas e compadrios, coisa pouca mas tanta (!), atrever-me-ia a dizer, emperram as máquinas dos Estados na engorda que os vai, pelos seus crescentes défices, caracterizando e que ajuda, de que maneira, a explicar o ponto a que se chegou no cada vez mais omnipresente lugar que sobre todos nós, por via deles, se faz pesadamente sentir.
Na prevalência da reverência acrítica atrever-me-ia, ainda, a esmolar:
Eu preciso de um lugarzinho e desse lugar, sem fazer ondas, garanto ir a corrente sem ver o Lugar que é o Mundo ...
Corporativamente me instalo ao serviço da Corporação!
Sem olhar crítico que às minhas habilitações lhes confira dimensão ...!
Sem me tornar incómodo na graça do pãozinho que ao Pão o vai fazendo escassear!
E a escassez dessa dimensão, da dimensão Política das coisas, da Coisa Pública, ameaça arrastar-nos a todos, quais ratazanas aprisionadas em barco e sem saída, para o fundo.
Num buraco sem saída nem fundo à vista onde já não bastara a colossal dimensão ... do próprio Buraco!
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Novembro de 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

MUDAR DE VIDA - I -


After Monet's Impression Sunrise
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A greve geral que hoje se realizou em Portugal como um pouco por toda a Europa e pelo Mundo vão tendo lugar, com todo o seu impacto na vida quotidiana, comprova a indignação geral perante as reiteradas promessas feitas anos a fio que se esfumam no tempo e que agora se frustram no desabar da demagogia eleitoralista para já não falar dos direitos que, dados por adquiridos, perante a esmagadora crise instalada, aos cidadãos se vêm retirados no engrossar impressionante da precariedade laboral e do exército de desempregados.
Dizia, outro dia, um conceituado comentador que, embora legítima, a greve nada iria acrescentar ou conseguir por se encontrar desfasada de uma iniludível e incontornável realidade que qualquer governante se veria, independentemente da cor política, na contingência de implementar.
Desse comentador me permito discordar:
A manifestação maciça de indignação que a greve geral traduz é, ela também e em si mesma, uma força que se poderá vir a revelar como dificilmente ultrapassável e tanto mais quanto maior a percepção da falta de proporcionalidade na distribuição dos sacrifícios que agora ao Povo se voltam, com toda a premência crua, a exigir.
Como eu o escrevia, há muitos anos já, na
Carta a Um Economista e que aqui, neste meu blogue, em Maio passado, decidi de novo editar, se essa exigência não começar pelo exemplo, a partir dos topos institucionais e de forma inequívoca, que autoridade, de facto, terão estes mesmos para tais e acrescidos sacrifícios virem exigir à generalidade dos cidadãos!?
Aqueles que sobram sempre e sobre os quais, esses mesmos sacrifícios, invariavelmente, recaem ...!
Ao contrário das vãs, irresponsáveis promessas eleitoralistas, o que aqui escrevo não se trata de demagogia e assume, nos dias de hoje, uma pertinência muito particular que interpela a Democracia e cada vez de forma mais gritante!
Comece-se inequivocamente pelo topo, no simbolismo, sinal político que tal encerra e a adesão aos sacrifícios, percepcionada pelo Povo muito antes de pelos seus dirigentes o ter sido encarada, desde que assente em perspectivas de futuro que não se podem subtrair e que nessa minha extensa carta também não alieno, fará, então sim, toda a diferença na coesão indispensável sem a qual tudo se tenderá, mais e mais e a começar pela confiança tão em défice, a estiolar de vez!
E nuvens continuam a pairar que lançam a suspeita sobre o exercício efectivo da equidade ...
Pergunto-me:
De facto, pesem as suas eventuais qualificações técnicas e académicas, que qualidade terão os quadros dirigentes que desprovidos do sentido de Serviço e logo, do sacrifício, prontos a desertar quais mercenários, atendem apenas ou antes de mais às suas regalias e privilégios que não queiram minimamente ver beliscados!?
Que falta farão eles à realização do bem comum!?
Como até aqui, aliás, e pelo que se vê, tão pouca ou nenhuma a fizeram ...!?
O exemplo tem que vir de cima e esse é um atributo que, dificilmente percepcionável, opaco que permanece, na sua carga simbólica, política é inexcedível!
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quando se fazem, de novo, ouvir gritos de guerra, agora na Península da Coreia

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Scherzo Heróico
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Novembro de 2010
Claude Monet, Soleil Levant

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O QUE AQUI SE PASSA

O que aqui, neste meu blogue, se passa vai das caixas de comentários para as primeiras páginas, vulgo posts, vice-versa, num encadeado para o qual faço, persistentemente, com todos os que comigo interagem, por acontecer.
Não raro, os conteúdos das minhas caixas de comentários saltam para as primeiras páginas e vice-versa, num fio condutor que umas às outras as entrelaça em enredo e tal vem-me dando acrescida e enorme satisfação.
Nesta minha bem-aventurada ignorância informática, foi o que acabou por acontecer na
caixa de comentários de há duas páginas atrás, quando Intemporal involuntariamente ou não, me forneceu as pistas que agora me permitem, finalmente, escrever aqui e por extenso, o título genérico da minha Obra, ensaística que percorre todos os géneros literários, que há mais de vinte e um anos, muito antes de criado este meu blogue, não paro de desenvolver, a saber:
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Ensaio Sobre a Relatividade em Linguagem Comum
E = mc2
{ Energia = [ massa ( cérebro x cérebro ) ] }
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Eis, completo, o título do que aqui, sistémico, se desenvolve e que tem uma relação íntima com a música, essa linguagem que sublima e que à palavra a relativiza, universaliza, sem consentir, contudo, que de tudo seja feita e a começar pela própria palavra, pura e simplesmente, tábua rasa.
Eu bem sei que c, na equação de Einstein, se reporta à velocidade da luz mas o que se passa no cérebro a ela própria a ultrapassa ...!
Casuisticamente, Intemporal conduziu-me ao que ainda não tinha conseguido, aqui, concretizar:
O título, na interacção primeira que desde sempre faço por valorizar quando não por estimular e que apela a que comigo, expressamente, os meus leitores interajam ( cérebro x cérebro ), operação que, na matemática, os parêntesis curvos indicam que se faça em primeiro lugar e pela qual se reforçam as identidades, a massa que multiplicada por c2, operacionalidade segunda que os parêntesis rectos sugerem que, a seguir, se concretize, resulta em Energia acrescida.
Posto o acento, a ênfase na interacção individual e por esta via exponenciada a massa que com ela se multiplica, o resultado só pode ser acrescentado e traduzido em valia energética que aqui, finalmente, me proporcionou escrever por extenso o título que, embora já aflorado, me faltava, porém, tornar completamente explícito!
No sistema, é o que se designa pelo que se encontra entre chavetas { }, que me liga a cada um de Vós, tal é o que ambiciono que por aqui, mais e mais, possa, continuadamente, vir a acontecer em valia energética que se exponencie.
Aqui e agora, a Intemporal o meu bem haja!
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Sequências
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 22 de Novembro de 2010

domingo, 21 de novembro de 2010

REDONDO É O MAR

Fotografia de Jaime Latino Ferreira, Metáfora
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Redondo é o mar
carregado de jangada
plúmbeo a leva a navegar
vai altiva e assoberbada
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O que carrega é enxada
revolve a terra a sangrar
embora pareça ser nada
condenada a soçobrar
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Para onde ela vai sem parar
te direi com minha espada
pulso a pulso calibrada
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Naquilo que escrevo topada
do que entendo por lutar
tirando da terra para dar
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

ASAS

omid sariri
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É fundamentalmente naquilo que escrevo que reside aquilo que fotografo, o que, a partir da minha angular ou objectiva, vou registando:
A música daquilo que vejo;
A escrita daquilo que oiço;
O que oiço para lá daquilo que, escrevendo, mostro.
Aquilo que contido no que se vê, meros contornos, está para lá desses contornos.
Contornos ou grafia.
Grafia ...
Grafia, ortografia ou desenho que moldam, circunscrevem o não desenhado, não escrito, grafia ou negativo do não dito.
O que é que mostra um desenho?
O que nele se explicita ou a partir do explícito, o que lhe está implícito!?
O que é que mostra uma fotografia, uma obra de arte ...?
O que é que mostra, por fim, o que se escreve, o que se vê ...!?
Mostram, todos, aquilo que não se vê !
O que se ouve, a música, o que dos seus próprios contornos está por desvendar, o que apenas se entrevê ou pressente ...!
E é na escrita, nesta minha singular forma de escrever, que encontro a chapa, a visualização, a ilustração mais nítida que nenhuma outra angular ou objectiva seria capaz de me proporcionar:
Nela capto todo o possível e indistinto movimento que fica por revelar ...
... ou que se revela para lá do revelado!
Asas da minha passada, do movimento que capto para lá daquele que capturo.
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dedicado à criação artística, ao escondido que dela se revela sob pena de o não ser e à importância das palavras naquilo que, como sombras, escondidamente formatam
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 20 de Novembro de 2010