Sempre que escrevo o que acaba por ficar escrito nunca é o que pensaria querer escrever.Fica pior ou fica melhor?
A realidade das palavras, porque de realidade se trata, normalmente, surpreende-me!
A realidade das palavras escritas ...!
Ditas leva-as, amplificadas ou reduzidas, depauperadas o vento mas escritas ...
Como um desenho, nos seus recônditos recantos, ecoam incisivas e contundentes recortando o silêncio da sua maior ou menor obscura claridade ressonante.
Sopro de um canto primevo, rastejam no suporte, seu chão, como amaldiçoada serpente ávida de absolvição ...
A realidade das palavras escritas obstina-se em levantar a cabeça, ousada e pecaminosa, como fruto pronto a ser colhido e deglutido, mascado, mastigado de sabor a sabedoria.
O fruto dessa árvore proibitiva, costela recriada da nossa própria carne, é o fruto que nos permitiu dar o salto da simples realidade desvanecente tornando-a perene e fazer-nos soerguer no conjunto do real.
Sempre que escrevo, teimosamente, obstino-me em levantar a cabeça!
Levanto-a para lá de todas as maldições, a desafiar tronos e potestades ...
Sempre que escrevo ... quem me diria que, serpenteante, aqui me conduziria aquilo que acabo de escrever!?
Quando escrevo, no magnificente não dito os contornos do imaculado a circunscreverem, cercarem, seduzirem, na vontade obstinada de me erguer!
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ao sabor da pena, nas ramificações da sua frondosa árvore irradiante, metáfora da metáfora da Criação, remeto para Quando Escrevo I e Quando Escrevo II
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Magnificat a três vozes
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Dezembro de 2010
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Dezembro de 2010







