sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

QUANDO ESCREVO - III -

Sempre que escrevo o que acaba por ficar escrito nunca é o que pensaria querer escrever.
Fica pior ou fica melhor?
A realidade das palavras, porque de realidade se trata, normalmente, surpreende-me!
A realidade das palavras escritas ...!
Ditas leva-as, amplificadas ou reduzidas, depauperadas o vento mas escritas ...
Como um desenho, nos seus recônditos recantos, ecoam incisivas e contundentes recortando o silêncio da sua maior ou menor obscura claridade ressonante.
Sopro de um canto primevo, rastejam no suporte, seu chão, como amaldiçoada serpente ávida de absolvição ...
A realidade das palavras escritas obstina-se em levantar a cabeça, ousada e pecaminosa, como fruto pronto a ser colhido e deglutido, mascado, mastigado de sabor a sabedoria.
O fruto dessa árvore proibitiva, costela recriada da nossa própria carne, é o fruto que nos permitiu dar o salto da simples realidade desvanecente tornando-a perene e fazer-nos soerguer no conjunto do real.
Sempre que escrevo, teimosamente, obstino-me em levantar a cabeça!
Levanto-a para lá de todas as maldições, a desafiar tronos e potestades ...
Sempre que escrevo ... quem me diria que, serpenteante, aqui me conduziria aquilo que acabo de escrever!?
Quando escrevo, no magnificente não dito os contornos do imaculado a circunscreverem, cercarem, seduzirem, na vontade obstinada de me erguer!

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ao sabor da pena, nas ramificações da sua frondosa árvore irradiante, metáfora da metáfora da Criação, remeto para Quando Escrevo I e Quando Escrevo II
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Magnificat a três vozes
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Dezembro de 2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

QUANDO ESCREVO - II -

Sempre que escrevo ... desejo ser explícito, tão explícito como a claridade matinal de um dia de Sol radioso que ilumina a árvore, irradiante, luxuriante de saber ...
Começo numa ponta:
Sempre que escrevo ...
E logo deparo com um enovelado intrincado de nós fortes a terem de ser desimpedidos.
Um aqui, outro ali!
E como a tecedeira, apronto-me a desfazê-los desimpedindo a teia e desembrulhando o fio para o tear.
Sempre que escrevo e desimpedidos os nós, um aqui e outro ali, que me tolhem na progressão da tecelagem, entro em velocidade de cruzeiro ...
E dado o pontapé de saída que logo se começou a desenhar ao princípio deste texto num desejo límpido e cristalino como uma manhã de Sol frio e radioso de Inverno que desponta por entre os ramos de uma árvore, entrando em velocidade de cruzeiro quase que apenas bastara deixar que os meus dedos continuassem a dedilhar saltitantes e ao acaso deixando que o acaso se instale, casuístico, contudo.
Sempre que escrevo e desimpedidos os nós, um aqui e outro ali, que me tolhem na progressão da tecelagem entro em velocidade de cruzeiro e finalmente sei, agora sei, que daqui resultará como um tapete, um espaço virtual como a escrita o é, intangível e imaculado, que qualquer um poderá pisar e sobre ele movimentar-se para lá de todas as fronteiras físicas conhecidas.
Sempre que escrevo
... e mesmo que aos soluços na construção de uma simples frase, dedo ante dedo, sei que ao mundo acrescento novos mundos e mesmo que estes sejam não mais, se tanto mais (!), do que um simples tapete voador.
Até porque o Mundo é muito mais do que aquilo que parece ou que simplesmente se toca ou vê!
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Ave Maria
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Dezembro de 2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

QUANDO ESCREVO - I -

Sempre que escrevo qualquer coisa e tantas, tantas foram já as que escrevi (!), penso nela como a única e derradeira, que outras mais já não justificariam ...
Como se naquele escrito, tudo o que houvesse para escrever estivesse lá!
Já não me sento como dantes, a ler e a reler em voz alta e dando-me conta, perplexo, de todos os harmónicos contidos no que acabara de escrever ...!
Harmónicos ou conteúdos, o subentendido do escrito, do unissonante que da tónica à dominante e à subdominante, por aí fora, as escondem e que estando lá não são, não têm de ser, necessariamente, tocadas para que como matriz se sintam, oiçam.
Como se do não escrito que é o escrito, ele apenas lá estivesse, aqui estivesse para fazer sobressair, subtilmente, o não dito ao qual apenas lhe seria necessário determinar, desenhar, que é o que a escrita é, os contornos, o imediatamente visível.
Por paradigma ou padrão, um exemplo:
Na religião que professo diz-se que ao Santo Nome se não deve invocar em vão.
E não deve mesmo!
Ao Nele se acreditar, Ele está implícito no que se evoca, no que se escreve também:
Implícito, latente, emergente!
E é do quadro que aqui desenho em mais um escrito, ou seja, um não escrito, que dele sobressai, eventualmente, o Seu perfil.
Quando a Ele explicitamente se invoca, esmagado, sufocado nas Suas poucas letras sempre possíveis de dilatar, é certo, o Seu perfil não se expande ao ponto de, plurissonante que O é, ser-nos impossível como O é, de facto, precisar a Sua imensa e indeterminável abrangência, perfil magnificente com rigor!
Perdemos, nós e cada um de nós também, a abrangência que, eventualmente, no santo nome, sacrossanto lugar que cada um de nós é (!), porque feitos à Sua imagem e semelhança, quando encarados à luz da fé e cidadã ou cidadão inviolável, se à luz da lei, abrangência que desejaríamos ter ...
Ser!
O mesmo se poderia dizer na inversa, quando e se Nele não se acredita.
E não há nisto nenhuma vergonha em O invocar e nem relativismo ético ou moral de qualquer espécie.
A melhor maneira de se escrever sobre um assunto, qualquer que ele seja, é dele se esboçarem, apenas, os seus contornos.
Claro que é preciso saber-se fazer um esboço, de tal maneira que nele, com abrangência e demais subtileza, o máximo nele se consiga abarcar, guardar ...!
O que se guarda, resguarda-se, abrangente, num coração sem fronteiras que a escrita ou consegue ou não consegue traduzir!
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Música da Grande Cúria
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Dezembro de 2010

domingo, 5 de dezembro de 2010

ADVENTO - II -

Carola Onkamo, Passing through Universe
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Advento
bradam os ventos
pois se se erguem aos céus
no que se esconde
entre véus
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Advento
de novos tempos
Menino não vejo nos teus
vontade que queira
aos seus
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Advento
são vãos os lamentos
baralham sinais e tormentos
que nos atingem de chofre
e que de nós fazem réus
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Advento
na aparência só inventos
a Ti te escondem na névoa
que nos cega
nesta treva
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Advento
azevinho penhorado
é Teu anúncio o brado
mais consistente
e amado
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Doce Memória Futura
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Dezembro de 2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

CULTURA DE GUERRA OU DA PAZ - III -

A guerra ou a Paz começam num gesto e um gesto, sendo palavra, é cultura.
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cultura de guerra
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A cultura de guerra assenta no segredo e na desconfiança, em não se querer ver no Outro um par e igual, nos juízos de intenções que ao Outro as atribuem antagónicas e em prejuízo das nossas, na força física e no princípio da violência, isto é, na intolerância.
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cultura da Paz
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A Cultura da Paz assenta na transparência e na confiança, em querer-se ao Outro como par e igual, em não se lhe atribuirem intenções antagónicas ou em prejuízo das nossas, na entrega e no princípio da não violência, isto é, mais do que na tolerância, na aceitação plena do Outro.
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Enverede-se por uma ou pela outra, a alguém tem de caber a iniciativa Política de ao ciclo de violência o quebrar instilando a Paz, nela persistindo com determinado e persistente afinco e essa iniciativa Política que aprofunde a Democracia ao cidadão singular apenas lhe pode caber já que o institucional, por mais democrático que o seja, vive contaminado pelo primado da violência e da guerra que, aliás e ainda que apenas psicológicas, historicamente o justificam.
Para que o institucional se descontamine do princípio da violência, em decisão institucionalmente histórica, transparente e global de consagração do singular, pergunta-se, então:
Guerra ou Paz?
Eu quero e faço há muito pela Paz!
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ironia das coisas, diante de nuvens de censura e de uma greve selvagem anunciadas e declaradas no espaço geográfico democrático
oxalá se saibam ler e agir, decidindo institucionalmente em coerência, ao encontro da Paz, perante os sinais dos nossos conturbados tempos
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Guerra e Paz
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 4 de Dezembro de 2010

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A FALÊNCIA DO SECRETISMO - II -

As estrondosas revelações a que o site Wikileaks tem tido acesso e que publicamente dá, numa torrente imparável, a conhecer, levanta a questão premente da transparência na informação e, sobretudo, nas sociedades que se querem livres, democráticas e abertas.
Até que ponto concorrem ou não, estas informações amplamente disponibilizadas, pela quebra do sigilo que desencadeiam, para o desarme dos Estados de Direito, da Comunidade Internacional, perante ameaças as mais diversas que às suas soberanias as possam atingir?
Vou pôr a questão de uma outra maneira:
Até que ponto é que na sociedade da informação, à informação será possível retê-la?
Haverá uma fronteira a partir da qual seja possível ou legítimo, à luz do Direito, impedir a circulação da informação?
E que fronteira poderá, então, ser essa?
Não será a própria desinformação, informação r
eparável, por suposto, à luz do Direito?
Postas as perguntas fica e dilemática das respostas ...
Eu, pela minha parte, se zelo pela minha privacidade não gosto de ter um discurso nas costas e outro na frente dos meus interlocutores.
O que lhes tenho para dizer, digo-lhes cara a cara!
E fico desarmado por isso!?
Ou nessa igualmente desarmante outra face da mesma moeda que me caracteriza e que me impede, em simultâneo, de ao meu interlocutor lhe fechar a porta na cara, na transparência que aos meus gestos os acompanha, quem ficará desarmado, será ele ou serei eu, pese embora a opacidade que ainda prevalece e da qual o meu interlocutor se fará, por ora e na fonte do esgotado poder que advém do sigilo, eventualmente, valer!?
Não vejo como, na confiança que importa instilar e à qual os próprios e tão mitificados mercados, nervosos, reagem e fazem crescente apelo para não falar já na urgência da distenção global, seja possível salvaguardar o segredo dúplice, o off do on sempre furados ou fazer prevalecer a omissão ou a censura, na falência que de ambas, em nova atitude, se faz anunciar em nome da transparência por todos cada vez mais persistentemente reclamada!
E que como um Madrigal se anuncia ...
Desarmante!?
Sê-lo-à ...!
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no primado da Cultura, da Paz
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Dezembro de 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O PRIMADO DA LÍNGUA - I -

Ilustração alusiva ao primeiro de Dezembro de 1640
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Neste dia primeiro de Dezembro em que se celebra a restauração da independência de Portugal e o fim da dominação filipina, impregnando a celebração de actualidade, volvidos que são trezentos e setenta anos sobre o ano de 1640 em que estes acontecimentos tiveram lugar, sugere-me a data, tão só, erguer o primado da nossa língua sobre todas as contingências que no passado, tendo tido lugar e expurgada a data de todos os chauvinismos patrioteiros, ajudaram a que esta se moldasse tal como nos chegou à actualidade e não de outra maneira, fosse ela qual fosse.
O primado da Língua ...!
Num tempo em que outras e talvez não tão claras contingências interpelam as nossas soberanias tanto singulares como colectivas, não é demais erguer a língua portuguesa a par do conjunto das línguas vivas e elas acima de tudo como os lugares pátrios onde, criando as nossas autonomias, às nossas soberanias também as consolidamos.
É no primado da Língua que números e tudo o mais assumem a sua identidade própria!
É no primado da Língua, das línguas, que se reforça a diversidade imprescindível na afirmação de uma identidade colectiva
que hoje só faz sentido se o for global também!
É no primado da Língua que se eu sei quem sou, sei também quem tu és, fales que língua falares, nas diferenças que se nos imunizam também nos complementam, num Mundo que se é uno só pode ser diverso e enriquecedor!
No primado da Língua, das línguas, o mesmo é dizer da Cultura, somos todos mais fortes e, seguramente, melhores!
Neste primeiro de Dezembro em que se evoca, também, o Dia Mundial da Sida, no primado das línguas e da Cultura, vias de comunicação de excelência e nossa Casa Comum, importa, sobremaneira, reiterá-las!
Tudo o resto são ... minudências!
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Going Home
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 1 de Dezembro de 2010