quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

NARRATIVA

Gerard Sexton, Shaft

Culmina o ano com lance
de partida de xadrez
com cheque feito a um
rei
magistrado que se fez

Oscila em balanço ao que vou
vinde ler o que Vos dei
não faço mate a ninguém
nem em
Um ou Dois ou Três

O tempo passa crescei
vou direito ao que bem sei
no que escrevo e que tu lês

Termina o ano que vês
no que conto em português
que de minha saga narrei

( assim está bem, aceito que a Tua honestidade não possa ser beliscada )


A todos, um Bom Ano Novo de 2011


Acordai

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Dezembro de 2010

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

AS DIMENSÕES DA PALAVRA - III -

Basta observar um dicionário comum de uma língua ao acaso para constatarmos ter uma qualquer palavra que seja complexidade pluri-semântica que a preenche de densidade que logo resulta das dimensões que, em si mesma, se encerram.
Peguemos na palavra honestidade:

1. Qualidade daquele que é honesto.
2. Decoro, modéstia; pudor; castidade.
3. Honradez, probidade.

Honesto ou:
1. Casto; púdico.
2. Virtuoso; recatado.
3. Probo, honrado.
4. Conveniente; próprio.
5. Razoável, justo.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

E, agora, dissequemos:
Casto, púdico, virtuoso, recatado, probo, honrado, conveniente, próprio, razoável, justo ...
Que falta de propriedade em se reeinvindicar para si, todas essas qualidades e em simultâneo dizer-se a quem quer que seja, que para se lhe equiparar se tem de nascer duas vezes, isto é, que não se lhe pode equiparar, que se é imbatível ...!
Modéstia:
Que completa ausência de modéstia, de probidade ...!
Que falta de conveniência, de decoro, de razoabilidade ...!
Que falta de Justiça!
E logo a Justiça entronca, na necessária divisão de poderes e que a quem da honestidade se apropria não lhe compete aplicar e muito menos a si mesmo, com o Estado de Direito ... com a Política no seu mais nobre sentido!
Castidade:
E logo esta ... com a moral e a religião se entrosa que com a Política se não deve imiscuir!
Que falta de recato ...!
E agora imaginemos que para cada uma das palavras explicativas de honestidade e de honesto, que a elas as investigaríamos, uma a uma, no dicionário ...
Onde iríamos parar!?
Em que incontornável e imbatível paradigma se transformaria quem, no contexto do
Poema Proscrito e de Arrogância e Crise, à frase citada a proferiu!?
E sem apelo de nesta vida a quem assim se apresenta podermos ter a veleidade de nos equipararmos!?
Reflecti bem e dizei-me que completa falta de decoro, que arrogância, que atrevimento em o insinuar ...!
Insinuar, não, explicitar sem rodeios.
Não, não são as sondagens nem os votos que permitem a quem quer que seja um tal e tão descarado auto-aferimento!
Reflecti bem e retorqui-me ...

O seu a seu dono

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 27 de Dezembro de 2010

domingo, 26 de dezembro de 2010

ARROGÂNCIA E CRISE - II -

Goya

A arrogância é distanciamento no pior dos sentidos e essa tem uma relação directa com a crise.
Distanciamento em relação ao Povo;
Povo que se consubstancia no cidadão comum.
É certo que são necessárias abordagens específicas, técnicas que nos ajudem a sair da crise, sobre isso não tenho dúvidas e essas abordagens, a mais das vezes, enfermam de hermetismo distante da compreensão comum.
Mas de que servem essas abordagens e sejam elas de que natureza o forem, sem terem por meta e por enfoque a realização singular!?
O cidadão comum que se debate na luta pela sobrevivência!?
Que se debate na gestão, quanto possível racional, das dimensões que o preenchem e das quais, legitimamente, não se quer ver manietado!?
Quando, com recorrência, se ouvem da boca de alguns políticos, afirmações como a mim ninguém me dá lições, as provas dadas são por si mesmas bastantes ou para seres tão honesto como eu, tens de nascer duas vezes como com esta última glosei, pela sua inesperada oportunidade, em
Poema Proscrito, enfermam ambas de um tal distanciamento e arrogância que embora ditas assim, irreflectidamente, admito-o, bem medem a distância a que estes se colocam na arrogância gritante que ao ouvido comum o dilaceram.
E replicam-se em tiques de autoritarismo sem fim e em cadeia numa realidade a abater-se aflitivamente sobre o cidadão, no seu dia a dia.
E que em si mesmas são, elas também, justificativas, explicativas da crise que nos angustia!
Pois se a mim ninguém me dá lições que terei eu a aprender com aqueles que deveria servir mas não sirvo!?
Sim, porque serviço implica humildade e saber-se aprender com quem quer que ao serviço se esteja!
Como no
poema anterior eu glosava:
Se para ser tão honesto quanto tu, terei de nascer duas vezes e tenha esta afirmação sido produzida em que contexto e por quem o tenha sido, sabendo-se que para esta vida só uma vez o nascemos, então, para quê persistir em sê-lo!?
E é do implícito da afirmação que se exponencia o laisser faire, laisser passer de quem se rende à impotência de à desonestidade, numa só vida, não bastante (!), a contrariar que, como sabemos, anda de mãos dadas com a crise e que dela própria beneficia!
Este tipo de atitudes, eminente e negativamente políticas, têm mais importância do que se pensa na explicação do ponto a que se chegou e quando se fala em austeridade ela deveria começar logo pela contenção e humildade, ausência de asneirices (!), despojamento naquilo que, pesem para mais as responsabilidades, publicamente se diz.


Renascer


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Dezembro de 2010

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

POEMA PROSCRITO - I -

Se para serdes mais honestos do que eu
tereis de nascer duas vezes
então mais vale não o ser
que penar do que professe

Por quem te tomas rei
nu
na arrogância em que te teces
se mais valera morrer
sem louvar e cantar preces

Nasceu e morreu o
Proscrito
e prometeu no que dito
nos Libertaria do mal

N
ão nos disse esse Menino
que um
rei
viria sem tino
a julgar-se mais que o Tal


do que se diz



Doce Júbilo


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Dezembro de 2010

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

PROXIMIDADE

pormenor de pintura a óleo de Manuela Baptista


Tal como neste blogue se espelha desde a sua criação
o que falta é a consagração de um discurso
escrito de proximidade

em toda a sua extensiva profundidade

Na dogmática
nos números
na doutrina
nas coisas do dia a dia

Um discurso escrito na primeira pessoa
na assumpção do Eu coerente e comum e ao encontro da realização possível
sem excluir quem quer que seja e susceptível de
persistentemente
natalício
ser catalisador
mobilizador da esperança
e de todas as energias defraudadas

Para esse Serviço
nas provas bastantes que já as dei e que
em continuidade do que vem de trás
aqui se expressam
contem comigo



Boas Festas
num Santo Natal e num Ano Novo que se venha a revelar mais auspicioso



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Dezembro de 2010

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

CONVERSA COM NATAL(IA)

fotografia de Walter

FALAVAM-ME DE AMOR

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

D
epois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia
in O Dilúvio e a Pomba, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1979


FALO-TE DE AMOR

Quando em canto doce me cantavas
espalhando-o aos sete ventos então via
invernosa claridade que espelhavas
da cor do mel que a mim me preenchia

Menino assim sorria e palpitavas
porque aqui cabias e crescia
para sempre como fogo alimentavas
este alado voo de cotovia

Depois de secas as folhas eu insistia
passados anos a fio nesta porfia
que a minha sombra de sol iluminavas

E que ao fel que de nós bebes o libertavas
deste nosso reduto em que entravas
permanecendo teimoso dia a dia

criado em primeira mão, sem revisão e por inspiração, em
céus de um pássaro - folha

Ó Meu Menino

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 20 de Dezembro de 2010

Caricatura de Natália Correia

domingo, 19 de dezembro de 2010

POLIFONIA

Paula Rego, Virgem grávida, Capela do Palácio de Belém

Tenho frio
disse eu
e tu não tens

Tenho um calafrio que me percorre
que de alto abaixo vibra
e que não morre

É teu calafrio
sinal sem nome
cor de um arrepio
sem ter pronome

Ai meu calafrio
que ideia a tua
é mais frio que o frio
que vem da rua

Não queiras estar ao frio
ar de chorar
sem ter um agasalho
nem ter um lar

Razão terás
no frio que estás
mas este calafrio

nunca se viu

Será como tu dizes
mas deixa entrar
a luz que a ti te aquece
deste lugar

Frio de um arrepio
de um calafrio
quem poderá dizer
qual mais sombrio

no reconhecimento, entre outros (!), do papel social da Igreja

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 19 de Dezembro de 2010