domingo, 9 de janeiro de 2011

700

da parede da Casa do Grupo de Teatro Te-ato de Leiria, fotografias de Walter

Esta é a página setecentos deste meu blogue, todas elas feitas de originais ou, aqui e ali, em réplica a autores consagrados como neste caso, optei, de novo, por o fazer, uma vez mais inspirado pelo que se publica no blogue céus de um pássaro-folha, blogue de Walter, um meu amigo.
A Política escrita assim, com maiúscula, como recorrentemente o escrevo, é a vida num palco onde pouco importam as suas dimensões ou projecção físicas mas onde sobrelevam, de que maneira (!), aquelas da integridade, da ética e da profundidade que a esse mesmo palco o preenchem ou não.
Insubstituível Condição Maior que tem de prevalecer ao rasteiro da politiquice e ao imperativo da instantaneidade mediática!

Poema Acto III

O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma, e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.
Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com a sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas -
o actor com a sua emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.
Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça.

( Herberto Hélder,
in Ofício Cantante - Poesia Completa )



ACTO

O actor
é o acto que encena
que incendeia
de chamas
que tu apupas ou aclamas

O actor
é muito mais
do que a teia
em que se enreda
é veia

O actor
parecendo fingir
de fugir
não sabe ver
sem sentir

O actor
no personagem que encarna
é ele e o outro
é sarna
que o alimenta e descarna

O actor
no deus e no outro
mais é
do que ele próprio
de pé

O actor
é arte e parte e maré
que enche o palco
de fé
montanha desde o sopé

Não consigo deixar de olhar para um poema como se este me interpelasse directa e pessoalmente e me obrigasse a reagir em toda a sua densidade e, por maioria de razão, com toda a carga sensível à flor da pele.
Acho, aliás, que é essa uma das funções magnas, Política da intermediação poética ...
E se assim é, Política o é e não adianta circunscrevê-la a uma realidade restrita!
A Política um palco e o Político um actor, autor, imprescindível agente de intermediação!


neste acto de despojamento o exercício, no palco do mundo, de uma superior e ainda que informal, essa sim e até ver (!?), magistratura de influência


Gould, Byrd and The Amazing Trills


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Janeiro de 2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ESTE É O MEU JARDIM

Este é o meu jardim
verde aroma de alecrim
o lugar de meu proveito
onde proclamo meu preito

Roda livre do que feito
aqui exponho e que aceito
sem ter princípio nem fim
mais se compara ao que vim

Jardim suspenso assim
onde à árvore de meu peito
rego e cuido neste leito

Meu coração vai a eito
pulsa em golpe de rim
para lá do que é ruim


para lá de todo o insaciável ruído que se ouve


Fantasia de Orlando Gibbons


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Janeiro de 2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

INVESTIMENTO

Ronen Goldman, The Magician

Tudo ponho na palavra como mago que lança cartas de jogar.
Cartas, apontamentos feitos de palavras ...!
Nela, na palavra me deposito!
Imagens e música, no que escrevo servem de adorno que à palavra têm por fito valorizar.
Reconheço que, por vezes, a partir do trecho musical ou da imagem seleccionadas, estes funcionam como impulsos que ao próprio texto o desatam em contínuo, dia a dia, mês a mês, ano após ano, mas tudo se centra na palavra, força motriz que me sacode!
Ilustração maior ...!
O sublime motivo que para as setecentas páginas me encaminha já em contagem decrescente ...
Tudo se centra na palavra e nela me compromete.
Impulsionado, aqui, pelo trecho musical da página anterior, logo a palavra se jorra embalada na música que oiço e reoiço sem parar.
Senhora soberana como soberana é
quem me aquece as noites, a palavra é semente lançada à terra como cartas de jogar e que desabrocha em tradução resiliente de minha alma:
Que a aquece na noite fria, que me anima a dela sair e a na palavra prosseguir sem desfalecimentos!
Na palavra, desenho musical, centro todo o meu esforço e o frio que me perpassa, por vezes, não passa da dúvida que me assalta, porque ela assalta-me também em contínuo (!), de saber até que ponto este é ou não é um esforço inglório ...
E logo a música me anima na palavra que dela se instila, tu que és parte integrante da minha vida!

Tu que és parte integrante da minha vida


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Janeiro de 2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ESTÁ FRIO

Martin Stranka, Frozen

Está frio na noite
e no frio
de um arrepio
há sempre alguém que se afoite
a golpear-me
de açoite

Há sempre alguém que se acoite
pela calada da noite
no frio que me invadiu
e que em escárnio
se riu
deste frio que me atingiu

Está frio na noite
mas no frio que me tingiu
oiço um pálido assobio
um chilrear
ou um pio
o clamor quente de um rio
ornado de fio a pavio


A quem me aquece as noites


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 4 de Janeiro de 2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

FUTURO PASSADO PRESENTE

Borinamistica, The Sky is Draining

O que escrevo é reflexo do que penso.
Reflexo, espelho, imagem.
O que de uma imagem vejo é o que penso que dela vejo e a escrita é um turbilhão de imagens.
O que penso é dinâmico e não estático, não está parado no tempo.
Tal como coisa alguma está parada no tempo.
A estática é a escrita, o que se escreve desse imparável, ininterrupto movimento.
E que parado, movimenta-se.
O que escrevo vai do Passado para o Futuro, vice-versa e destes situa-se no Presente.
O que escrevo, no momento em que escrevo, já passou.
Tendo passado, todavia, permanece.
O que leio do que escrevo, situa-se, dinâmico, no Presente, em cada momento feito Presente, entre o Passado e o Futuro.
No Futuro podem-me ler como se fosse Presente.
Sendo Passado, o que escrevo permanece no Futuro.
Passado, Presente e Futuro são dislexias do tempo refractadas em espacialidade tridimensional.
Pluridimensional ...!
Dislexias temporais.
Disléxico, no que escrevo refracto-me pelo silêncio nos contornos espaciais do tempo.
A escrita é reflexo dessa dislexia espaço/temporal refractada.
Virtualidade, realidade sempre para lá daquilo que é.
O virtuoso da escrita consiste em reunir numa só as dimensões do tempo com as do espaço:
Futuro, Passado e Presente numa espacialidade única, superfície lisa, geométrica, polígono de intemporalidade.
A Eternidade possível aqui, materializável, ao nosso alcance.
Escrever é uma autêntica viagem espaço/temporal de luz e sombra, de som e de silêncio, que se dilata no tempo!
Como um ralo por onde se sorve ... o céu.

a
inda na tomada de posse de Dilma Rousseff, primeira Presidenta eleita do Brasil e no repúdio por toda a intolerância religiosa

Lux Aeterna

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Janeiro de 2011

domingo, 2 de janeiro de 2011

OBRIGADO

A Música das Palavras completa hoje os dois anos de vida


a todos os que me visitam

a todos os que me seguem

a todos os que, de algum modo, comigo interagem

a todos os que me lêem, comentam e desafiam

a todas as amizades que, neste contexto, se selaram

à Filomena Claro que, então, me ofereceu este blogue


a Todos, o meu muito obrigado



Obrigado


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Janeiro de 2011

sábado, 1 de janeiro de 2011

CIDADANIA ACTIVA

Excepcionalmente e contrafeito, intervim, nas páginas anteriores, na campanha para as eleições presidenciais em Portugal, apenas com vista a limar aquilo que considero como intoleráveis tiques de arrogância, não assim tão dispiciendos (!), o que me ocupou na semana entre a véspera de Natal e até aqui, até às vésperas do Ano Novo.
Quem mais se ocupou, dizei-me, aturadamente do episódio que a mim tanto me incomodou e que, afinal, incidiu sobre o conteúdo de uma observação feita nessa campanha se, por objectivo, por objecto entendermos as próprias palavras utilizadas e que entretanto, emendando a mão, foram subtilmente corrigidas pelo próprio candidato, assim se tivesse a ela dado a devida atenção o que não aconteceu (!), no pleno conteúdo que, em si mesmas, as palavras transportam e projectam!?
Nada de mais objectivo e aplicado do que o conteúdo das palavras na ausência ou na musicalidade que encerram ...!
No Ano Europeu do Voluntariado com vista a promover uma cidadania mais activa, persisto como de há mais de vinte e um anos o faço, voluntariamente, em promovê-la numa Obra que cresce e assim me disponho, incansável, a mais fazer crescer ...
De há mais de vinte e um para vinte e dois anos a esta parte e em vésperas deste blogue completar os dois anos de existência ...!
O voluntariado das palavras no compromisso que elas encerram não é qualquer coisa de somenos ou de menor acto de vontade, de voluntariado, de exercício solidário da Liberdade ...
E palavras como Voluntariado assim como Cidadania Activa não podem, à luz dos detentores de poder, permanecer como simples verbos de adorno ou de encher e muito menos nos tempos que correm!
Obstinado, persisto em demonstrá-lo, sendo certo que de mim como de todos os que exercem voluntariado, apenas, não depende essa demonstração ...
Depende também das contra-partes a quem, no meu caso, eu me dirijo, naquilo que de reciprocidade a Palavra tem de mais comprometedor e de mais nobre!
Sob pena de persistirmos todos numa desconversa sem consequências catársicas, verdadeiramente mobilisadoras!!
Para mim, as palavras comprometem como desde há mais de vinte e um anos, por elas e voluntariamente, me deixei comprometer, neste exercício de Cidadania activa que dia a dia, ano após ano, resiliente se renova!!!
Cidadania ...
A cidadania começa no uso criterioso da palavra!

no ano europeu do voluntariado com vista a promover uma cidadania mais activa



Adeste Fideles


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 1 de Janeiro de 2011