sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

DE UMA PONTA À OUTRA

Jorge Feteira, Submerged

Vou de uma ponta à outra do espectro:
Da compatibilidade com os mercados à indignação com os mesmos que dos países e dos cidadãos fazem objecto da especulação e do lucro num quadro que, muitas vezes e com fundamento, é descrito como de economia de casino;
Da insustentabilidade de se continuar a viver acima das possibilidades ao insustentável de, em permanência, se frustrarem as expectativas criadas cavando a desconfiança e o fosso que à política a distancia e afasta, cada vez mais, do cidadão comum pondo em cheque a própria Democracia;
Da salvaguarda do sonho e do primado da Política aos incontornáveis ditames da economia, aos constrangimentos que não podem ser mais escamoteados e que não se compadecem com visões a curto prazo, nem com agendas imediatas;
Da relação da Política com a Arte, desta com a Literatura, a arte de bem escrever e destas com a matemática, ao imperativo dos números que no espaço e no tempo, na sua relatividade, se expandem como a música intrinsecamente o sugere, comprova e demonstra;
Da comunhão da palavra com esta última e, logo também, com a poética;
Da religião à filosofia e de ambas à vida concreta sem a qual tudo se esfuma em generalidades, em banalidades sem eco e de imprevisíveis consequências;
Do rame-rame na sistemática repulsa de por ele me deixar paralisar ou sufocar à expectativa que, como neste meu blogue se comprova, não paro de alimentar;
Da compatibilisação das dimensões que a vida tem, na recusa de por elas me deixar espartilhar;
De como, tudo isto, é impossível de resumir a soundbites ou a agendas de circunstância sempre superficiais e redutoras;
De uma ponta à outra da meada e de como dela revelo, fotográfico, instantâneo, o Buraco que, afinal, não é assim tão negro como o pintam, não o pode ser (!), ou de como se recusam a encará-lo;
E, finalmente, de como, determinado, persisto nesta minha rota que tracei!

de acordo com agências noticiosas, ao ser publicamente admitido pelo Presidente Hu Jintao na Sua visita oficial aos Estados Unidos da América, que a República Popular da China, em matéria de direitos humanos, tem ainda um longo caminho a percorrer


De mim mesmo nos outros toco


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Janeiro de 2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A DINHEIRO NÃO

Paul Cézanne

Um jogo é como a vida
carreira sem volta só ida
quando jogo é a feijões
evito mais confusões

Num jogo as suas funções
regras sem insinuações
só especula quem decida
comprometer a partida

A feijões é a corrida
brincadeira consentida
não depende de ilusões

A dinheiro tropeções
arrastados de cifrões
desilusão sem saída


no 172º aniversário do nascimento de Paul Cézanne, entre o casino e o jogo da vida


Jogos


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 19 de Janeiro de 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ARRASTÃO

Paolo Pagnini, Astratto sui fossi

Se o incumprimento se generalizasse, o que aconteceria aos credores?
Eu estou à vontade para falar já que não tenho dívidas e faço por cumprir as minhas obrigações, nomeadamente as fiscais.
No entanto, de que consolo me servirá tal facto se, como os demais, vou sentindo os efeitos da crise que, paulatinamente e por arrastão, sobre todos se vão, cega e implacavelmente, abatendo ...!?
Depois das persistentes investidas sobre a periferia, chegou agora a vez do coração da Europa sentir a pressão dessa entidade mítica a que se convencionou chamar mercados.
A Bélgica ...!
E quem, a ela, se seguirá!?
Se o incumprimento se generalizar, repito, o que acontecerá aos credores!?
Tenho para mim que a economia é uma realidade, ela também, virtual que, nos sinais que projecta, nem sempre traduz ou dificulta mesmo a compreensão, a tradução daquilo que se passa e se, assim temos conseguido viver ao correr dos anos, o que acontecerá no dia em que todos, devedores como credores, já que uns não passam sem os outros, em que todos, escrevia, caírem em incumprimento!?
Incumprimento no pagamento das dívidas, incumprimento na cobrança destas e dos juros ...!
Isto é, em que todos forem confrontados com a impossibilidade de continuarem a viver acima das suas possibilidades!?
Sim, porque aquele que empresta, não vendo realizados os seus créditos, não estará, ele também e pese, para mais, a exorbitância dos juros que cobra, a viver acima das suas reais capacidades!?
Pela terceira vez, repito:
Se o incumprimento se generalizar, por arrastão e contágio, o que acontecerá aos credores já que eu, se não tenho dívidas, também não sou prestamista e, logo, deveria ficar ao abrigo da tempestade que a uns como aos outros os assola!?
Ou terei de ser eu como os demais em idênticas condições às minhas, a arcarmos com o incumprimento e com o risco a que, quer uns quer outros, credores como devedores, mantendo-nos à beira do afogamento, à tona de água, no limiar do sufoco, persistem em sujeitar-nos!?
Há aqui uma injustiça fundamental que se torna, pelas derivas sinuosas e desregradas que teimam em impôr-se, essa sim, completamente insustentável!
Insustentável, repito.

remeto, uma vez mais, para a minha carta a um economista


Concerto de Brandenburg


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Janeiro de 2011

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

SER-SE OU NÃO EXPLÍCITO

Artur Magdziarz, 6AM

Gosto de me pronunciar sobre as coisas sem ter de ser assim tão explícito.
Nem é preciso sê-lo!
Nem é preciso sê-lo para que se chamem os bois pelos nomes ou para que, directo, se atinjam os objectivos que se pretendem.
Sou apologista da escola forjada antes da instauração da Democracia e que, por força das circunstâncias, se especializou em denunciar sem dar nas vistas, sem ser explícito embora sendo directo, trocando, deste modo, as voltas à censura prévia.
Sou especialista da escola dos subentendidos, do que se esconde no que se escreve, de como potenciar as entrelinhas, a composição harmónica de uma dada melodia sempre contida num texto.
De como uma linha, frase, período, se preenche de outros tantos, dos seus implícitos.
E da eficácia de assim se saber escrever que, ao contrário do que se pense, vai ao âmago das questões que se abordem.
De todas elas e que não se compadece com a voragem mediática!
E não me perguntem como isso se faz ...
Como se se tratando, a escrita, de uma janela entre-aberta a partir da qual se perscruta a vista que dela se vislumbre ao sabor de quem a abra de par em par e a quem cabe, a quem dela desfrute, livremente explorar.
Sendo que a vista é aquela e não outra ...!
O que se vê, nos seus contornos, não passa, aliás, da superfície das coisas!
O que se esconde, para lá das suas camadas, na copa das árvores ...!?
E mais do que delas se vê, o que, à sombra delas, se ouve!?
Há sempre uma aragem, uma brisa que, soprando, clareia, porém, a vista que se entrevê.
E eu preciso dela como de pão para a boca, preciso da música que preenche todos os recantos da palavra, amplificando-os, redimensionando-os, dando-lhes pleno sentido e ressonância.
Fiz uma pausa, silêncio sem o qual a música também não floresce e ao
texto anterior recusei-me a ilustrá-lo ou a lê-lo com fosse que suporte musical fosse.
Não havia, aliás, música que a ele se ajustasse ou que ajudasse a adensá-lo.
Apenas o silêncio ...!
Mas, por regra, o meu conselho, apenas um conselho, o meu, é este:
Abram o meu blogue em duas janelas e numa delas cliquem no endereço musical apenso no final do texto e na outra, leiam-no alto, ao texto, como tanto gosto de o fazer, dando relevo, vida ao que foi escrito.
Ao texto o pausando, entoando-o ao sabor da pontuação e da música como se de mais uma linha melódica, feixe de harmónicos se tratasse a juntar à partitura que se ouve e assim se reinterpreta.
Chega de pausa, fi-la o mais que bastante!

Cavatina


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 17 de Janeiro de 2011

domingo, 16 de janeiro de 2011

SANGUÍNEO

pintura rupestre da Caverna das Mãos, arte paleolítica da Patagónia

Forço o traço que aqui se continua a desenrolar de um novelo sem fim.
Sem nenhum registo especial a salientar na tristeza sórdida, modorra, apatia de um nevoeiro pardacento e pegajoso que teima em se colar aos ossos e a tapar o Sol, a claridade que tarda neste Inverno cinzento e baço, húmido e contagiante.
Chocam-se os autóctones com um qualquer registo menos cor de rosa, ironia das coisas, como se a vida o fosse ou se a cor sanguínea em que este se derrama devesse prevalecer sobre os rascunhos das suas próprias vidas e existências remetidas ao anonimato e ao silêncio.
Tomados de um toque de psicose geral, o registo baralha-os e confunde-os ainda mais não bastara o que baste no a preto e branco das suas vidas quase como se mais valera a tragédia humana que os ensombre em definitivo.
Ou como se esta alimentasse, na morbidez não dita que a sustenta, a ilusão da cor.
Estampada nos rostos, a previsibilidade do sucedido no dissimulado basbaque geral.
Como se se desejasse, a todo o custo, escamotear a perfídia de jogos de poder alicerçados em sucessos instantâneos e vazios a troco de chantagens e pérfidas diatribes, de nada, na tentativa cada vez mais inglória de os preservar para não dizer de os fomentar à outrance.
E pese como pesa tudo o que de liminarmente condenável não pode, evidentemente, ser escamoteado!

pausa
( da música que fui incapaz de seleccionar )


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 16 de Janeiro de 2011

sábado, 15 de janeiro de 2011

ESTUDO

Passados para lá de dois dias e tendo recorrido uma vez mais à caixa de comentários e como, amiúde, tem acontecido ao longo da vida deste meu blogue, nela fiz um esboço, estudo, rascunho de um texto que, finalmente, irá preencher nova página que à anterior se lhe seguirá.
Esta página!
Saco à viva força das palavras, oiço-as e aqui as digito mais ou menos ininterruptas, mais ou menos reticentes e vou formatando-as em períodos sem ideias pré-concebidas.
Paro aqui, paro acolá e, aos soluços, à matéria da escrita a vou deslaçando.
Por vezes, tenho a sensação de que o filão se esgota o que, invariavelmente me angustia mas hoje não, apenas prossigo neste exercício num tira-teimas como quem previne engulhos, ansiedades a evitar.
Volto atrás, corrijo esta e aquela palavra, esta e aquela expressão e prossigo já com outro ênfase.
Paro de novo, no exacto momento em que escrevo paro de novo.
Fico à espera ...
Abro outra janela e ponho o tema Beyondness, de John Barry a tocar em fundo, aquele que em
Espiral acabei por escolher quando desejaria antes ter colocado um outro, aquele outro de Out of Africa do mesmo compositor mas que aqui, ao concerto para clarinete de Mozart, me acabou por conduzir e convencer!
E sigo no encalço da música que as palavras têm ...


em memória das vítimas das terríveis intempéries no Estado do Rio de Janeiro, na Austrália e no Sri-Lanka e de outras, intempéries de outra ordem de grandeza não menos terrível, como as que fustigam a Tunísia e a Costa do Marfim ou aquela que nos Estados Unidos dizimou ou atingiu civis e uma reputada congressista


Concerto para Clarinete


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Janeiro de 2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

ESPIRAL

Diana, DNA

A realidade tem tantas faces e esquinas que, à medida que a vamos abordando, ela vai-se revelando muito mais como cilíndrica ou esférica, espiralística do que como um poliedro.
Reflexo da nossa própria matriz ...
As faces são tantas e tantas, desdobram-se de tal maneira, que a realidade se vai confundindo, na profusão de camadas em que se sedimenta, com a própria Terra.
Com o esférico do planeta Terra!
Com o movimento das esferas onde não há esquinas nem faces, apenas o rotativo e o transláctico, a galáctica vertigem universal.
A espiral do Universo ...
O curvilíneo transversal da escrita que me induz ...
Que ultrapassa o convencionalismo estabelecido.
Que grita que nada se resume ao que estratificado está e que tanto se tenta isolar em planos, alíneas, disciplinas, dimensões estabelecidas.
Que a realidade é muito mais vasta do que o convencionado e que sempre se tenta isolar do resto como se o resto não fizesse parte integrante do próprio convencional estabelecido.
Como se tudo não estivesse relacionado na interdisciplinaridade, na transdisciplinaridade que a abordagem do real, cada vez mais exige.
Como se, em décalage com as exigências da modernidade, alhos não tivessem a ver com bugalhos nos atalhos que os recompõem diante da complexidade geral.
Como se, quando falamos de Deus, na unidade indivisível do real, uns e os outros, nós todos não fôssemos, também, mais do que o somatório, a potência de todos os eus quais astros, elevada à infinita quantidade deles mesmos.
Como se o sonhado não fizesse parte do real e dele devesse ser alheado ou o conhecimento sensível, indutivo, devesse estar divorciado, à viva força, do dedutivo, divórcio contra o qual são as próprias ciências exactas a alertar ou de como a arte não pode ser apartada do conhecimento dito exacto que já se sabe que o não é!
Como se a escolástica devesse continuar a prevalecer numa obtusa obstinação a perder, aceleradamente, o sentido.
Como se ... mais cegos fôssemos do que a própria cegueira geral ...!
Não sendo uma amálgama indiferenciada, é claro e nunca é demais frisá-lo que, na realidade, há nela esferas próprias e hierárquicas de intervenção que importa, sobremaneira, preservar e salvaguardar, separar mesmo, mas umas e outras não deixam de, na sua indivisibilidade, interagir entre si e entre si com o todo.
Inevitável como a gota que na água se mistura com todas as outras!

a Malangatana, a profundidade pictórica de um continente e a Victor Alves, entre aqueles que verdadeiramente merecem uma referência póstuma e o respeito geral


Beyondness


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 12 de Janeiro de 2011

Malangatana