segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

QUALQUER DIA

Chris Dixon, Sunrise

Qualquer dia, bastará que seja lançado um qualquer movimento numa rede social em interface com outras redes para que este venha, por uma qualquer oportunidade que lhe surja associada, a abalar os fundamentos de um estado, criado o caldo susceptível de a desencadear e por mais democrático que ele, esse estado, o seja.
A nova glasnost a que, no oriente próximo, com toda a legitimidade, assistimos, quase incrédulos e que faz desmoronar autocracias umas atrás das outras, coloca na agenda esta eventualidade em relação à qual não adianta fugir e tanto mais quanto se acentuem os sinais de crise, económica, social e de representação política em que esse estado, democrático ou não, eventualmente, se veja mergulhado.
Estes factos, por si mesmos, dever-nos-iam levar a todos e, em particular, às democracias, apetrechadas que estão do contraditório que as deveria fortalecer, a reflectir seriamente.
Ah, dir-me-ão, mas um movimento, para que seja bem sucedido, não basta que surja de geração espontânea, tem de ser organizado e nele, uma qualquer autoridade terá de emergir!
Ah, contrapor-me-ão outros, mas uma autocracia é uma autocracia, outra uma democracia e ambos os casos, em si mesmos e deste ponto de vista, não são comparáveis!
Não o serão, pergunto-me ...!?
Os acontecimentos em curso no próximo oriente, é iniludível, vêm demonstrar a crescente importância do indivíduo, pelas ferramentas de comunicação ao seu alcance, no curso da História e dos acontecimentos a ela associados e tal facto, penso, não será necessário comprová-lo, salta por demais à vista.
Uma democracia, concordo, não é uma autocracia mas se nesta última tal pode acontecer o que impedirá de numa democracia, o sistema de representação possa vir a ser questionado, abalado e seriamente comprometido!?
Estas questões remetem para uma outra, a saber, qual é a fonte da autoridade, autoridade democrática, nunca é demais salientá-lo (!), autoridade sem a qual, qualquer movimento, por mais que surgido de geração espontânea, está, em si mesmo e por melhores que sejam as suas intenções iniciais, condenado ao fracasso?
E, a este propósito, direi apenas:
Por um lado, a autoridade assenta no direito legalmente estabelecido de alguém se fazer obedecer e essa legalidade ou existe, ou não existe;
Numa autocracia ela não existe!
Por outro lado, a autoridade deriva do valor pessoal e logo da importância que essa pessoa adquire, importância que em última instância remete para o mérito, esse tal valor comprovado que ou se tem ou não e que tem de poder ser mensurado, escrutinado em sentido amplo,
não apenas e necessariamente pelo sufrágio universal mas pelo valor da Obra por essa pessoa realizada.
Ora o valor, o valor de uma obra não se comprova na instantaneidade das redes sociais qual labareda que deitasse fogo a uma pradaria.
É no tempo que ele se aquilata, é no tempo que ele se alicerça, é no tempo que ele se agiganta.
É no tempo que ele se constitui em autoridade ...
... ou não!
E o tempo, esse, não se compadece com imediatismos voluntaristas de qualquer ordem que, eventualmente, substituam o que está por algo de pior ainda!
Neste particular, apenas as democracias, pela iniciativa estratégica, estão aptas a encontrá-lo ...
Que se acautelem as autocracias mas ... as democracias também!
Não, não é uma ameaça que aqui deixo, antes tema urgente, candente de reflexão ...

look all around this blog and wonder


Alma Grande


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 31 de Janeiro de 2011

sábado, 29 de janeiro de 2011

GEOPOLÍTICA ESTRATÉGICA

Krzysztof Browko, Mist ...

A minha geopolítica estratégica é a defesa dos direitos fundamentais.
Entende-se por geopolítica o estudo das relações que existem entre os Estados e a sua política, e os dados naturais, estes últimos determinando aquela, como nos sugere o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa mas na definição desta têm preponderado as relações entre os Estados em prejuízo dos dados naturais, dos direitos fundamentais da cidadania sempre adiados em nome das primeiras e que a estes últimos, na prática, os escamoteiam, fazendo prevalecer os interesses que às relações pragmáticas entre os Estados as levam, invariavelmente, a sobrepor-se ...
Direitos fundamentais!
E logo como em casa roubada, trancas à porta, quantas vezes já se viu este filme (!?), se grita aqui d'el rei (!), como se não se soubera já ao que a geopolítica dos interesses, esse pragmatismo sem alma, conduz ...!
Ou que tem alma apenas para uns quantos!
Grito deste meu canto a denúncia dessa postura que tem prevalecido em prejuízo de quem, como eu, a outros valores faz por prevalecer na aparente indiferença institucional que nos interesses, no pragmatismo põe a tónica em conflito e em choque, estrategicamente, com os direitos naturais ...
E a História, paulatinamente, vai-se encarregando de dizer que não, que interesses que esquecem o Homem e os seus direitos fundamentais, naturais, não passam de uma patranha!
De uma completa incongruência que àqueles países que mais alto bradam esses direitos, os fazem por esquecer em nome de um realismo paternalista, interesseiro e quantas vezes cheio de sofreguidão!
Quando, para quando essa admissão que à minha autocrítica se associe no reconhecimento do inconfessável!?
Para quando!?
Para quando se tão à vontade estou na concessão do benefício da dúvida que aos Estados Democráticos, concedendo-lha durante anos e anos a fio, me fez chegar até aqui!?
Para quando a geoestratégica do indivíduo singular, na consagração da cidadania nos seus direitos naturais, fundamentais que tanto urge e que, à escala global, tanta falta faz como bitola mais do que reguladora, aferidora e que não dá mais para contornar!?
Para quando ...!?
Para quando a prevalência do indivíduo sobre os interesses particulares e de conjuntura!?

if I do for You so much as I do, what kan You at last do for me, for us?
Have I to write or to speak in english!?


What am I in Your strategy


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Janeiro de 2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

TURMOIL

Mark Townsend, Turmoil, 2002

Quem se poderá, em rigor, espantar do turmoil, da convulsão que sacode o Norte de África e a Península Arábica?
Quem!?
Quem, em nome da contenção de extremismos, de eventuais fundamentalismos, no pactuar com regimes fechados, autoritários e na suposta implementação de uma realpolitik que com estes de há muito contemporiza, se poderá surpreender do abalo telúrico que a uns atrás dos outros, de súbito, os assola em efeito de aparente bola de neve!?
Ao ponto de, confesso-o, até desses regimes nos esquecermos no suposto efeito tampão que teriam na contenção dos primeiros!?
E agora?
Com efeito, o que é que, do ponto de vista da salvaguarda dos direitos fundamentais de um cidadão destas regiões de um dia para o outro abaladas por este efeito avassalador, em profunda convulsão, diferencia os regimes autoritários em que têm vivido de quaisquer outros extremismos na contenção dos quais fosse legítimo contemporizar com um statos quo que de há muito se vem, insustentavelmente, perpetuando?
Como castelos de cartas, desmoronam-se as autocracias para dar lugar a quê, incógnita maior que este inesperado turmoil, eventualmente, suscita ...!?
Aqui, aqui já, do outro lado do mar, do outro lado da bacia mediterrânica ...!?
Nas barbas da Europa!?
A realpolitik, a política dos pragmáticos interesses, imediatos interesses egoístas, de vistas curtas, como uma vez mais se comprova, vai tendo os dias contados e, à sombra dela, como têm florescido autênticas bombas relógio no desenhar pacóvio de tão frágeis geopolíticas estratégicas!
Geopolíticas que, quantas vezes, assentam em tudo menos nos direitos fundamentais ...!
Como cidadão europeu, eu, pela minha parte, autocritico-me pela desatenção que aos cidadãos destes países invariavelmente lhes terei prestado pois que nem eram notícia ...!
Na crescente aceleração histórica, assim se demonstra que já não se pode ter a veleidade de que alguém e muito menos países possam ser tidos como peões de quem e do que quer que seja!

focando-me na Tunísia, no Egipto e no Yémen


Sede e Morte


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Janeiro de 2011

NÃO CAIREI

Carlos Costa Branco, n/a

Não cairei na tentação da facilidade;
Da demagogia;
Do populismo.
Não cederei à tentação mediática do diz que diz-se;
Das insinuações;
Da espuma dos dias.
Não me deixarei levar pela aparência das coisas;
Pela sua superfície;
Pela ilusão da vista.
Não me deixarei condicionar pelo que não é;
Por arrebatamentos;
Por primeiros impulsos.
Não decidirei sem me aconselhar;
Sem saber ouvir;
Nem por fingir que sei.
Não me deixarei mover por interesses particulares;
Por egocentrismos;
Ou por julgar sem saber.
Não cairei em tentação!
Prisioneiro da minha própria consciência, recobre-se esta da sombra de suas grades para lá das suas paredes, cercadura férrea projectada na claridade da cal.

diante da não inesperada convulsão que sacode o Norte de África e a Península Arábica


Porta Férrea


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Janeiro de 2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

NUDEZ POÉTICA

Angela Bacon-Kidwell


Não escrevo por interpostos olhares
são estes mares
lugares
de mim recobertos
expostos
sem mais roupagens
paisagens

Nuas palavras
imagens
prontas a serem viagens
está a poesia coberta
de si própria
sem voragens

Nua

minha palavra não mata
sua carga
doce é não amarga
é a palavra voltagem
energia sem ter margem

São as palavras miragens
no deserto das sondagens
que escondem meu eu
e o teu
o que por elas sofreu

Têm palavras de seu
despidas no que se deu
o que elas julgam saber
a nudez
em que me vês

palavras que matam são aquelas que veementemente repudio e que ao terror conduziram, oculto e traiçoeiro, ignóbil, dizimando, indiscriminadamente, desta feita num aeroporto de Moscovo


O vos omnes


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Janeiro de 2011

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

DO POVO E PARA O POVO

we're not dead we just have our eyes closed

Ninguém precisa de ser referendado ou sujeito a um escrutínio popular para que se possa considerar como pertencente ou como emanação de um povo.
Ninguém precisa de ser referendado ou sujeito a um escrutínio popular para que se possa considerar ou não ilibado de sejam quais forem as insinuações que a seu respeito se façam.
Qualquer um é de grandeza maior se, no momento em que seja referendado ou sujeito a escrutínio popular, saiba colocar-se acima da espuma dos dias, das insinuações que a seu respeito se façam, na identificação que, por essa via comungue, essa sim, com a grandeza de um povo.
Eu não me identifico com um povo pelo pior que dele se manifeste, seja por insinuações ou ressabiamentos que, num Estado de Direito, só podem ser ressarcidos pela via judicial e nunca em campanhas ou declarações políticas de vitória que são o que são, nunca escrutínios no sentido comprovativo, demonstrativo da palavra e ai de nós se a implementação da Justiça dependesse da aplicação do sufrágio universal.
Eu identifico-me com um povo no que de maior da sua Língua, Cultura se revela e ai de nós se estas dependessem, elas também, da aplicação do sufrágio universal!
Na Língua, Cultura de um povo, não é maior, antes menor qualquer manifestação de arrogância e tanto mais quanto em momentos de vitória eleitoral.
Maior e matricialmente coincidente com o que de melhor tem um povo é a humildade na assumpção da vitória, o perdão que se saiba declarar e, por essa via e colocando-nos acima da espuma dos dias, a aglutinação que se saiba logo reforçar e tanto mais quanto em momentos de crise quanto aqueles que se atravessam.
Um discurso de vitória eleitoral que não tenha em conta os vectores políticos, de atitude, estratégicos que aqui traço, não augura nada de bom ...
Razão tinha eu quando, ainda em Dezembro, alertava para declarações que, em si mesmas, estavam eivadas de arrogância nada propícias a enfrentar os tempos que se avizinham ...!
Política no mais nobre dos sentidos, susceptível de catalisar e aglutinar as melhores energias que com um Povo se possam identificar, Povo com maiúscula, é o que, infelizmente, parece não abundar por aí!

a propósito de um discurso de vitória


Tormento


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Janeiro de 2011

sábado, 22 de janeiro de 2011

RÉPLICA A KONSTANTINOS KAVÁFIS

Francesco Primaticcio


ÍTACA

Quando começares a tua viagem para Ítaca
Reza para que o caminho seja longo
Cheio de aventura e de conhecimento
Não temas monstros como os Ciclopes ou o zangado Poseidon

Nunca os encontrarás no teu caminho
Se o teu pensamento for elevado
Nunca encontrarás os Ciclopes ou outros monstros
A não ser que os tragas contigo dentro da alma

Pede que o caminho seja longo
Que sejam muitas as manhãs de Verão...
Entra em baías nunca vistas
Detém-te em portos de comércio fenícios
E compra formosas mercadorias

Visita muitas cidades do Egipto
E aprende avidamente com os seus sábios
Tem sempre Ítaca na tua mente.
Chegar lá é o teu destino.
Mas não apresses a viagem.

Melhor será que ela dure largos anos
Que sejas velho quando chegares à ilha
Com tudo o que ganhaste no caminho
Sem esperares que Ítaca te enriqueça

Ítaca presenteou-te com uma bela viagem
Sem ela não terias sequer partido...
Mas mais nada tem para te dar.

( Ítaca de Konstantinos Kaváfis, in Casa da Venância )


POR ÍTACA

Em ti nasceu minha odisseia
terra de muitos mares rodeada
por ti corri o Mundo cheio de veia
liberta a ilha desperta e assim cercada

Convicto cantei por esta estrada
meu sonho que desteci de densa teia
escrevi sempre a tropel desta enseada
o que despido de fel querendo se semeia

Aos deuses os intimidei no que intermedeia
pela escrita num universo que se dilata
desfeitos por ela os nós e que desata

De Ítaca o que lhe peço não é mais nada
nem nunca a confundiria com a feia
troca em persistir se alguém me leia

( Réplica a Ítaca de Konstantinos Kaváfis )


inspirado em
Casa da Venância


Ecos de uma ninfa


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 22 de Janeiro de 2011

Konstantinos Kaváfis