quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

CÂNTICO

chat noir

Tenho do peixe a vontade de nadar
do urso polar
gana de sobreviver
do pássaro
o impulso de voar
do insecto
laborioso torcer
dos extintos
memorioso larvar
tenho do que não sei
a intuição de crescer

De meu irmão
a distância que aproxima

Tenho o pólen de uma flor
uma cidade com cor

De uma estátua
sou pedra
um sedimento que medra

Tenho o Mundo a sofrer
a gritar
por querer ser

Tenho a vontade de escrever
aqui
no que se pinta
ou fotografa sem ver

Eu sou um filme a correr

Tenho
na música
o instinto a ferver
de nada ter a perder

Minha emoção a cantar

Tenho
se tenho o lazer
que me faz ser peixe
urso
um pássaro
uma flor
pó de um afecto
insecto
ou um extinto dejecto
estrela polar
o que não sou ou serei
música que sempre darei
e quando escrevo bem sei que por escrever te encontrei

Meus lábios são lábios de sonho
neste cântico em que os ponho
se sou rico saberei
que é por saber que te os dei


dois dias passados sobre esta publicação, hoje, dia 11 de Fevereiro,
na demissão de Mubarak, dedico este poema à libertação de um povo e acrescento:
que eu não tenha, de hoje em diante, que esconder o meu rosto, a minha boca, aquilo que penso


Debussy, Reverie


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Fevereiro de 2011

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

REVERIE

Ivo Sisevic - Sisko, Silence


Da massa informe
polar
surgem disformes
lobos marinhos
focas
baleias
ou cachalotes
simbólico o urso
vagueia sem norte
tropeça na fome
procura um lugar
no meio do degelo
desfaz-se
seu porte
sem porto
hangar
abrigo
e seu mote
quem dera falar
escrever
ou suporte
onde sonhar
a sua sorte


há, todavia, quem os retrate, sonhe e escreva por eles
( clique em baixo )



Einaudi - Reverie


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Fevereiro de 2011

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O QUE É QUE

Dogan Kokdemir, Alice's World

O que é que nos faz assim como somos, humanos e tão diferentes?
Para o melhor como, admita-se, para o pior!?
A simples evolução genética que nos teria feito, em si mesma, chegarmos onde chegámos?
E como chegámos!?
Como autênticos transformers do próprio habitat que partilhamos!?
Dando-lhe um relevo particular que dantes não tinha ou que apenas tinha porque o vamos decifrando!?
E ao ponto de se poder vir a tornar na razão da sua própria e, sobretudo, da nossa própria destruição!?
Da nossa própria acrescida precariedade, pelo menos, se comparada com a qualidade de vida de que hoje ainda gozamos!?
O que é que nos faz assim tão diferentes ...?
A genética, a palavra, escrita para mais ou a combustão essencial entre ambas?
Antes de saber falar, tudo era uma imensa amálgama de diferenciação difícil de discernir.
Pelas palavras que aprendemos a dizer a amálgama deu origem a contornos que se foram diferenciando entre si.
Mas foi pela escrita que, saltando estes para o papel e mais tarde para a pantalha em que me lês, diferenciando-se nos seus pormenores mais subtis, os contornos, na sua intrínseca dialéctica ganharam vida e autonomizaram-se, interagindo, por sua vez, connosco e uns com os outros, agigantando-se subversivamente como imensas construções, de tal maneira que à própria realidade que nos rodeia e que nela também o somos a transformaram e continuam a transformar pelos anseios que, por esta via, partilhamos.
O que é que nos faz assim tão diferentes?
O que nos faz assim tão diferentes são os nossos anseios que logo porque, pela palavra, os escrevemos, realizamos também ...
... sob o impulso do que sonhado é, esse anseio maior a que chamaria Música!
Espelhos de um espelho, de outro e de outro ... e de outro mais ainda ...!


Jogo de Espelhos


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Fevereiro de 2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

ONDE NASCE A FANTASIA

Duy Huynh, The optimistic traveler

De um secreto lugar
silencioso bem estar
nasce imensa a fantasia
cheia do que ela sabia

É luar da utopia
salpicado de magia
cai como estrela a brilhar
cintilante sobre o mar

Conjuga o verbo amar
como só sabe cantar
com aroma a maresia

Brilha de noite e de dia
como quer e quando cria
leva-me na mão a remar

há uma menina que renasce, desponta e cria por
aqui e por ali


Lullaby


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Fevereiro de 2011

sábado, 5 de fevereiro de 2011

ENVOLVIMENTO X INTERFERÊNCIA

Ruhollah Kalantari, Mourning for Imam Hussain


Onde se lute contra a barbárie
não posso deixar de me envolver
Onde se lute pelos mais elementares direitos fundamentais
não posso deixar de me envolver
Onde se lute pela Liberdade
não posso deixar de me envolver
Onde haja injustiças
envolvo-me

Envolvo-me
deixo-me apanhar pela indignação que me assalta

Envolvo-me mas não interfiro
é aos povos que cabe a sua própria emancipação

Não se exportam convicções

Se não queres
quem sou eu para te o impor
Se não lutas
como poderei lutar por ti
Se não queres ser livre
como te poderei eu emancipar
Se tu próprio não te indignas
como te poderei reparar

Mas nada me impedirá de
por ti
sofrer
de me rebelar como a música que de todos os poros me sai em contínuo como torrente que as palavras apenas tentam imitar

Deusa maior no teu

no meu encalce


Fratres


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Fevereiro de 2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

QUE PALAVRAS

Hardibudi, Oh No!


Palhaço
que ri
é abraço
criança
no meu regaço
minha vontade
que traço
sem conhecer embaraço

Palhaço
que chora
é baço
tristeza sem fim
neste passo
percalço
naquilo que faço
arrepio sem nó nem laço

em memória de todos aqueles que dão a vida pela Liberdade, num veemente apelo à contenção das partes no Egipto


Se(7)m Palavras


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Fevereiro de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

SINAIS DOS TEMPOS

Milan Malovrh, Horses in gallop

As minhas três últimas páginas, processaram-se a um ritmo verdadeiramente alucinante, tão alucinante quanto, em pano de fundo se desenvolvem os acontecimentos que lhes subjazem, por ora, no oriente próximo.
Num primeiro momento, em
Turmoil, a perplexidade dos acontecimentos que lhes deram origem;
Num segundo momento, em
Geopolítica Estratégica e a partir deles, desses acontecimentos, a recentragem na geopolítica dos direitos naturais, fundamentais, a geopolítica do eu que esses mesmos acontecimentos expressam, remetendo de volta, em nota de rodapé e em inglês, não por acaso, o libelo de dois sentidos que remete de volta a pergunta, mas, afinal, e tu, que podes tu fazer por mim, por nós (!?);
E, finalmente, em
Qualquer Dia, a prospectiva pró-activa que olhando para o futuro, contém a chave que nos permite prevenir o momento, o tempo que transcorre à luz dos acontecimentos que, dominantes, vão fazendo História.
Não é para mais, verdadeiramente esgotado e como se não bastara já toda a intensa produção que até aqui e desde que este blogue surgiu se desenvolveu, protagonista de tantos Abris, confesso-Vos:
Por ora, apetece-me ficar por aqui mas não, não é agora que poderei desmobilizar ...!
De uma Ponta à Outra, interrogo-me:
Até que ponto é que não há quem esteja já a jogar por antecipação, por iniciatica, no apelo à democratização e ainda que feito no exterior, irresistível como esta se torna na era da informação e que não pode cair em qualquer vazio de poder!?
Perante os sinais dos tempos, só podem ser brilhantes aqueles que decorrem e ainda que o possam não parecer e contraproducente seria que, diante deles, paralisante, prevalecesse a apreensão!

acuso as agências de rating que, em nome da especulação, isto é, do lucro imediato, não hesitaram em baixar a nota à dívida do Egipto não se dando conta, para mais, do risco que existia anteriormente


Abertura


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Fevereiro de 2011