segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

REINO MEU

Luigi Benedetti

Eu tenho um reino que ungido é bem meu
que sendo meu é teu e não tem espaço
do tempo não conhece o embaraço
é teu e meu de todos tem de seu

Ao reino de que falo neste abraço
da sombra não conhece nem o breu
é todo ele luz que adormeceu
no sono em que caído me desfaço

À curva não a tem nem ao meu traço
das margens que nos recortam se escondeu
é todo ele magno gineceu

Do nome que ele tem por não ser baço
não o pronuncio em vão nem por cansaço
daquilo que ele a todos prometeu

em memória das vítimas de Christchurch que mais vale lembrá-las tarde do que nunca e daquelas que mais do que de catástrofes naturais morrem às mãos dos seus iguais


Kronos Quartet


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Fevereiro de 2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

RONDA

Vincent van Gogh, A Ronda dos Prisioneiros

Depois de feita uma ronda que se arrasta há um mês e desde Não Cairei, testando da direita à esquerda, de uma ponta à outra do espectro, as potencialidades do meu discurso e tendo por pano de fundo o turbilhão que sacode o Norte de África e o Oriente Próximo, recentro-me e enfoco-me, de novo, como se o tivesse perdido (!), no meu fio condutor na vigília que, em permanência, o testa como põe à prova.
No permanente repúdio por quaisquer derivas a que a volatilidade dos tempos, em mim como em qualquer um de nós, nos possa induzir!
Estabilidade e convulsão não são, não podem ser fins em si mesmos!
Prisioneiro de mim mesmo, nesta ronda, constato:
Se alguma coisa comprova a imparável convulsão que varre a margem sul do Mediterrâneo, essa coisa é, tão só, quão universal é o valor da Liberdade.
O mundo árabe dá-nos, no que se desenrola diante dos nossos olhos, uma monumental lição!
A Liberdade é um fim em si mesmo.
Tal como a Democracia é o seu próprio garante.
E é à luz delas que convulsão e estabilidade se entrecruzam, chocam, se justificam como não.
Claro que na ausência do pão como da paz, Democracia como a própria Liberdade não passam de miragens, de sonhos distantes por realizar.
Democracia pressupõe a prevalência da vontade popular e esta, apenas se pode aferir pelo sistema do sufrágio secreto e universal que lhe garanta a representatividade necessária sem a qual a estabilidade não faz sentido nenhum.
Pressupõe, ainda, a divisão de poderes.
Mas este sistema é para ser levado a sério e não apenas em função dele convir ou não aos nossos próprios interesses particulares ...!
A convulsão justifica-se em momentos de mudança na incerteza da realização da própria Liberdade.
Liberdade de culto, liberdade de opinião política como de outras, liberdade das minorias, respeito destas na prossecução das decisões maioritárias e vice-versa, uma ordem livremente consentida, a liberdade, responsabilidade maior de ser-se livre!
O não fazer-se tábua rasa da História ...!
A liberdade que a todos nos leva do exílio à terra prometida, esta, a nossa, a única Terra possível e onde todos teremos de aprender, uns com os outros e em Paz, a conviver.
Outra coisa não faria sentido nenhum ...
Ela é pequena, a nossa Terra, única e nela tem de haver lugar para todos!


Mozart, Rondó


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 27 de Fevereiro de 2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

HIPERSENSIBILIDADE

autor desconhecido

Há por aí uma hipersensibilidade cega e sem espinha dorsal que se pauta pelo medo, capaz de investir na estabilidade em si mesma e seja a que preço for mas incapaz de investir no futuro, na cidadania e na Liberdade, decididamente, na Democracia!
Qual banco de apostas de roleta russa manchada de sangue, essa hipersensibilidade joga, confrontada pela incerteza, na desgraça alheia qual variável perversa acarinhando, de facto, cleptocracias e o banditismo institucional!
Farejando a incerteza, o sangue e a morte, nelas encontra, sem hesitar, as razões da sua própria subsistência e engorda ...
Essa hipersensibilidade que não olha a meios para atingir os seus fins, deixada à solta e pela demissão da Política, lança povos, países, anseios e a própria instabilidade resultante da queda de ditaduras sanguinárias no jogo da roleta em que se tornou especialista viciosa, cobarde batoteira, não hesitando à custa de quem faz os seus protentosos lucros.
Não lhe chamo mais do que isto, hipersensibilidade invertebrada!
Medo sem quaisquer escrúpulos!!
A inverdade dos mercados!!!
Em que sentido apontam os sinais da economia?
No sentido da estabilidade a qualquer custo e sem olhar a quem ou naquele outro que à Política tenha por garante e à democratização por destino!?
É, a economia, um fim em si mesmo ou deverá ela antes servir os interesses das populações em geral e do indivíduo, por elas pautado, em particular!?
Mercados que se se querem livres não podem andar selvaticamente à solta!
Quem disse que o dinheiro não tem cor ...!?
Depois ... queixem-se!

diante da especulação criminosa que, desenfreada, confrontada pela insegurança, joga na política de terra queimada


terra sem sombras


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 25 de Fevereiro de 2011

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

OS NOVOS VELHOS - III -

Os novos velhos saem de escolas bafientas e paradas no tempo em que estudaram e olham apreensivos, receosos de terem perdido o pé e o bacio em cujas cálidas águas se banharam em férias escolares e sem tão pouco se interrogarem sobre as vantagens da Democracia ...
Aquilo era tão giro, espantam-se ...!
Tão calmo e paradisíaco, quem diria!?
Um bocado sodas, os indígenas, é certo, sempre a assediarem-nos por tudo e por nada mas, como é que poderíamos adivinhar ...!?
Sol e camelos ... havia, por ventura, outra paisagem!?
Quem diria, para lá de imensas ruínas, talvez metáfora do que por lá vai acontecendo, que nelas poderia haver mais do que isso!?
Gente com aspirações ...!
Sim, quem diria!?
E o fundamentalismo!?
Ai se aquilo descamba!
Cruzes, é melhor nem pensar ...!
Agora, quem pensa sou eu:
Eu que já não devo ser assim tão novo cogito, mas afinal, onde estariam esses novos velhos se, ao tempo, tivessem experimentado o sabor incerto da euforia que foi o 25 de Abril de 1974!?
Sim, onde estariam eles, de que lado da barricada!?


em memória de todas as vítimas de cleptocracias que foram demasiadamente toleradas

e de mim mesmo que, tendo comido o pão que o diabo amassou, sabendo-as, por isso, inevitáveis em levantamentos pela Liberdade mas que por ela não hesitando, desde sempre, em lutar, depressa aprendi a não embarcar em derivas totalitárias e mesmo se estas não passavam da ilusão da própria Liberdade


Olá gente que aqui estamos


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Fevereiro de 2011

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

POVO PARA QUÊ - II -

O povo é uma chatice ...!
A gente bem o tenta estratificar, dividir em grupos, etnias, tribos, culturas e religiões, sexos, uns mais baratos do que os outros e classes mas nada, o povo não se conforma!
A gente bem o industria, força a novas tecnologias, dispensa-o, cria exércitos de desempregados que o tornem mais em conta e domável, disponível e rentável, mas não, o povo não perde a capacidade de se indignar!
Ao povo bem o tentamos virar contra si próprio mas, de que é que serve ...!?
O povo não devia existir ...!
Perdão, o povo só devia existir quando nos fizesse jeito!
Para que serve o povo se ele só nos cria engulhos!?
O povo é assim como se um polvo de imensos tentáculos que nos armadilha os pés, que se enreda e exige, que está por aí e quer sempre mais, que quer ter voz e direitos, imagine-se (!), que não nos larga nem conhece fronteiras, cada vez menos (!), que se imiscui em tudo e não nos deixa os movimentos livres, que se levanta em massa e nos atazana o juízo, o povo é uma chatice, repito!
Nós a julgar que tínhamos criado, ali, a Sul, um cordão sanitário que estancasse a mob mas, qual quê!?
O povo transborda ...
O povo ...!
Educámos o povo para quê!?
O povo é ingrato, é mal agradecido, mune-se de ferramentas tecnológicas e zás, vira-as, nós que lhas demos (!), contra nós próprios, já julga que manda e rebela-se sem atender a quem, é insaciável e suga-nos até ao tutano, atrapalha a vida àqueles que, por ele, sempre fizeram o melhor ...!
O povo, essa imensa e descaracterizada amálgama, esse incógnito tumulto ...!
O povo é uma chatice e pronto ...
... povo, povo para quê!?


à Liberdade dos povos e aos que por ela sofrem


triste vida


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Fevereiro de 2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

EU OU O CAOS - I -

Eu ou o caos é o que todos os potenciais plutocratas e ditadores dizem quando vêm seriamente abalados ou ameaçados os seus potentados e influência fazendo, deste modo, aterradora chantagem sobre os seus e os demais.
Quando é que a riqueza material deixará de provocar as derivas que provoca no exercício da Democracia?
Quando é que a riqueza material deixará de às democracias as condicionar como se um homem rico valesse mais do que um Zé ninguém?
Como se uma pessoa rica valesse mais do que uma rica pessoa?
Quando é que a riqueza material deixará de influir ou condicionar, irremediavelmente, o exercício democrático?
Tanto interna como externamente na vida dos povos e das nações?
Quando é que cada um valerá pela sua riqueza interior, imaterial e o dinheiro deixará de ter o peso que tem, nas decisões que se tomem?
E que às democracias as subvertem, logo, como se vê, pela sua política de alianças agora, diante da crise no mundo árabe, em falência amplamente anunciada?
Quando é que, globalmente, se imporá a geoestratégia dos direitos fundamentais?
Quando é que os ditadores deixarão de impor a sua lei, jogando, pela chantagem, com as debilidades das próprias democracias?
Quando é que os tacticismos darão lugar ao exercício da Política?
Quando é que se deixará de confundir tacticismo com diplomacia?
Quando é que a força da razão se imporá ao poder da força?
Quando será que às perguntas que aqui formulo as deixam de tomar por simples clichés?
Para lá de mim mesmo, não é o caos!
Só pensa que sim quem se julgue insubstituível, quem nos outros não confie, quem, no seu íntimo, seja intrinsecamente pobre, anti-democrático!
Quem da Democracia apenas conheça o nome mas não a exerça!
Quem dá toda a importância aos ditames macro-económicos mas esqueça, de facto, aqueles que ao nosso lado vivem na mais absoluta carência, logo a das liberdades ou que morram à fome!
Sem clichés, nem demagogia, nem populismo!

a todos os que lutando pela Liberdade só podem lutar, também, pelo pão


Rumor


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 22 de Fevereiro de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

RECEIO OU ANTECIPAÇÃO

No momento em que o mundo árabe e até ao Irão tremem, sacudidos por uma vaga imparável de contestação contagiante que às suas autocracias ou democracias musculadas as põem em causa, fazendo rever ou reequacionar estratégias tidas, até há muito pouco tempo, por adquiridas, ao mais leve indício de contaminação, viro-me para a China em aparente fuga em frente e incito-a à antecipação ou à iniciativa estratégica.
Para a China e para as democracias, o assim chamado mundo ocidental, expressão de que tão pouco gosto por pressupor uma centralidade geográfica que na globalização já não faz sentido nenhum mas do qual a primeira importou, adaptado, é certo ... o comunismo.
Receio ou antecipação?
Não há, para mim, que ter receio embora a apreensão seja legítima, há antes, pela iniciativa estratégica, que anteciparmo-nos, se queremos ter, naqueles países, por ora, em convulsão, seguros aliados no futuro já que o receio, eivado de paternalismo, do qual parece ainda não nos termos livrado qual tique colonial, por se confundir com desconfiança ou mera cumplicidade com as situações, até agora, prevalecentes, nos faz delas cúmplices, mais cúmplices ainda do que, eventualmente, o tenhamos, porventura, sido!
Aliás, em manifesta incongruência com aqueles ideais que apregoamos à boca cheia!
Agora, a China:
Imaginemos que a todas estas situações que se têm vindo a despoletar, umas atrás das outras, se vem a somar, a partir do interior do regime, a democratização não violenta, pacífica da China ...
Aquilo a que chamaria uma segunda vaga no seu processo de abertura e democratização ...!
Que impulso maior, à escala global, nesse sentido ela não daria!
Incluindo no mundo árabe!
E não estará na hora de esse grande país uno mas de dois sistemas, o público e o privado, lato senso assim o interpretaria eu, adoptar, consequente, o que daí se infere!?
O que, na impossibilidade de se voltar a fechar, o abra, resoluto e de par em par!?
A bem da sua própria unidade e da sua florescente pujança económica!?
A prudência, em tudo, é fundamental mas o receio, a prevalecer, é inimigo da Democracia que se verá levada a reboque e manca de toda a iniciativa!
Julgar-se-ão, os ditos ocidentais, munidos de anticorpos, de ideais dos quais os outros estivessem, porque carga de água (!?), desprovidos!?
Por quem se tomarão estes últimos!?

Pois se a bem se tomam, que ajam e incentivem em conformidade!

a todos os que lutam pela Liberdade

Renascença


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Fevereiro de 2011