o que aqui escrevo em tese parte do pressuposto de um espaço democrático assente na divisão de poderes e no Estado de Direito, onde as instituições funcionem regularmente
Há coisas que são inomináveis e que cabe, tão só, aos tribunais apurar mas se eu fosse, em tese, muito poderoso ou se guardasse expectativas de poder ainda maiores, se essas coisas me seriam, como são, logo em consciência e enquanto cidadão comum interditas não quereria, melhor, não poderia, tão pouco, dar-me ao luxo de ser incauto.
Incauto de falta de cautela ou de imprudência, atributos prejudiciais, contrários ao exercício do poder.
Como tal, factura que se paga, sem dúvida, mas que se assume ou não, desejaria estar permanentemente protegido em nome da minha própria integridade e em nome do exercício estável do poder que me viesse a ser ou estivesse confiado.
Integridade …
Quando falamos de integridade, falamos de integridade física tout court mas também de integridade em sentido amplo, da integridade indispensável ao exercício dos cargos que nos sejam delegados.
Deste modo a protecção permanente que me fosse garantida se impede a agressão à minha integridade física dissuade que contra ela se armadilhem situações que à minha integridade, enquanto pessoa, a pudessem vir a questionar.
Não me poderia, pois, comportar como um cidadão comum ou pretender andar por aí à vontade, de dia ou de noite.
Não poderia, tão pouco, ter assomos de liberdade que as opções por mim feitas, elas próprias livremente por mim feitas, denegariam.
Assim exigiria, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas por dia, ser tratado como um prisioneiro, de excepção, sem dúvida, mas cujos passos fossem permanentemente vigiados assim como, não menos importante e implicitamente, testemunhados!
Deste modo e neste sentido, dissuadido seria de fazer o que não devo, o que não posso, o que liminarmente condeno e por incauto é que não poderia ser tomado.
Eis um dos preços que se pagam, hélàs, pelo exercício do poder, preço tanto maior quanto o poder o possa vir a exigir.
Não se pode ser, em simultâneo, poderoso e gozar da liberdade de um cidadão comum.
Provavelmente … hoje mais do que nunca!
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Maio de 2011




