quinta-feira, 16 de junho de 2011

RÉPLICA A MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES

De igual para igual ( porque não!? ) interpelo Camões, essa matriz inconfundível, e canto-lhe como tudo, de então para cá, mudou!


MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
 
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

( Luís de Camões )
 

RÉPLICA

CRESCE MINHA VONTADE

Passa o tempo ficam as saudades
transformo-me e encho-me de esperança
tudo muda cresce a confiança
não ficando iguais as qualidades

Olho para o teu tempo e vejo as novidades
que das tuas diferem na lembrança
magoada de um tempo o teu desesperança
isolamento perdido das vontades

De expectativa verde é o meu canto
diferente do teu em que seria
um grão perdido neste imenso manto

Tudo já muda e cresce como soía
quanto mais se mude o forte espanto
neste meu transfigurado canto em cada dia



( publicado, em primeira mão, no mural do meu facebook, hoje mesmo )




Jaime Latino Ferreira
Estoril, 16 de Junho de 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

ACADEMISMO, DOENÇA INFANTIL DA MODERNIDADE

Van Gogh

O discurso academista é um discurso desprovido do eu e, exactamente por dele ser desprovido, faz tábua rasa do   singular, do cidadão comum individualmente considerado.
Tudo nele, na sua multifacetagem, bate certo menos essa omissão, a omissão do singular, do eu e do que a ele lhe escapa o que é a mesma coisa, a omissão insusceptível de lhe conferir humanidade e, logo, adesão à realidade.
Três dimensões deste discurso:
A dimensão política, a científica e a artística.
Dimensão política:
A política sem o destinatário concreto a quem ela se dirige, resumida às ideologias ou às doutrinas que a sustentam, despida, também, de quem as encarne, transforma-se em retórica sem emissor nem destinatário, fogo-fátuo sem ter princípio nem fim, princípios ou finalidade;
Dimensão científica:
O conhecimento científico, na sua metodologia, sem ter objecto nem finalidade, é um amontoado de hipóteses, tantas quantas as que se queiram formular desprovidas de seriação hierárquica, desprovida também, essa dimensão, da excepcionalidade que todos somos, hipóteses dispostas a confirmar como a desfirmar a regra que se tinha como segura e tanto mais quanto de ambos esse conhecimento estiver desenquadrado, do objecto como da finalidade;
Dimensão artística:
A arte, sem o seu autor e aquele a quem ela se destina, o outro autor, como nas dimensões política ou científica, podendo ser tudo, pode descambar em nada e ainda que, como fogo-fátuo, se transforme, circunstancialmente, em top de vendas ou de sucesso instantâneo.
O discurso academista, colado de citações postas entre aspas, biombo de quem o emite nele se escondendo e escudando, omitindo o eu, por muito certo que o esteja quando originalmente emitido na primeira pessoa, torna-se em vacuidade sem sentido descolado que fica da realidade.
Essa é a doença que aflige e constrange os nossos tempos à falta de quem, como eu, saiba conjugar na primeira pessoa …
… um eu que também és tu ou ele, nós, vós e eles!





Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Junho de 2011

domingo, 12 de junho de 2011

TRÊS NUM SÓ


Pedro Paulo de Jesus, Três em Um


Neste poema
há três
num só


Nele estou eu
na panorâmica de mim
que se reflecte
no que aqui escrevo


Nele estás Tu
cujos contornos
não me canso de esboçar


 Nele está o que aqui fica
o objectivo inerte
que não cessa de percorrer
Musical
de mim ao outro meu eu alienígena

  



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 12 de Junho de 2011

sexta-feira, 10 de junho de 2011

NESTE MOMENTO

para lá das estrelas

No momento em que uma situação de opróbrio como aquela que resulta do resgate que constrange o meu país e que se apresta, na sua dureza e ignomínia a abater sobre cada um dos seus cidadãos constituintes entre os quais, para o bem como para o mal, eu próprio me incluo, importa sublinhar em alta voz:
Sou um cidadão do mundo, europeu por maioria circunstanciada de razão e como tal merecedor de toda a consideração tal como os meus pares, deles igual em deveres como em direitos e tanto mais em direitos quanto por dever, há longos anos pugno, incansável, pelo cada vez mais inadiável aprofundamento da Democracia!
Democracia que passa, incontornável, pela Democracia Representativa, pela divisão de poderes e pelo Estado de Direito mas que tem de ir mais longe ainda!
Em prol da Democracia e do seu aprofundamento tenho, de há décadas, abdicado de muito, de quase tudo, num incansável Serviço a estender-se no tempo e a erguer-se numa Obra que aqui, neste meu blogue, apenas se aflora qual parte emersa de um iceberg cuja profundidade imersa mas tornada pública e transparente se vai perdendo no tempo!
Pese embora o reconhecimento que instituições gradas da Cultura Portuguesa como o Centro Nacional de Cultura me prestou, oficializou, um bloqueio ensurdecedor parece permanecer à minha volta como se me testando na minha resiliência quando não pior, ignorando-me na recusa em que persisto, sem desmobilizar, de a outros que não os meios que resultam da força intrínseca da palavra expressa em português e que faço, sistematicamente, por utilizar.
Força que aqui, uma vez mais utilizo!
Isso não faz de mim menor mas maior e tanto mais quanto na falta do contraditório que tarda em se manifestar e pesem embora todas as oportunidades que sempre lhe proporciono e a que me não furto!
Sou um cidadão do mundo igual, em deveres como em direitos, a todos os demais!
E tanto mais merecedor de direitos quanto por dever, ao longo dos anos, sem esmorecer nem dar azo a qualquer quebra de dignidade, minha ou de terceiros, persisto!
Valho tanto como qualquer outro cidadão seja ele de que  parte do mundo o for!
Valho mais porque persisto, inamovível, no dever que faço por cumprir!
Valho o que valho e, por isso, aguardo e tanto mais quanto há limites para tudo e ainda mais quanto por viver em Democracia  pela qual também eu zelo e sempre pugnei!

no dia de Portugal, de Camões e das Comunidades


Carlos Seixas, Concerto para cravo em lá maior
 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Junho de 2011

terça-feira, 7 de junho de 2011

IMAGEM, ESPELHO E REFLEXO



Eu, o espelho e o meu reflexo …
Eu, matéria do visível, antimatéria do intangível;
Reflexo, antimatéria do visível, matéria do intangível;
Espelho … microtelescópio, estação espacial, detector de partículas avant la lettre!
Espelho ou simulacro de matéria escura entre o cá e o lá, barreira que o simulacro confunde e as julga, à matéria e à antimatéria, fisicamente estanques.
Os três, eu, o espelho e o meu reflexo, negativa, simétrica simulação da relação entre matéria, matéria escura e antimatéria.
Quando me vejo ao espelho é o não eu de mim próprio que em mim se reflecte e no que vejo, reflexo, é o não eu de mim próprio que em mim se conjuga e reflectindo me complementa.
Ao simétrico, de pólo a pólo vou buscar a ilusão tornada real que me equilibra:
O que revejo e me reforça a minha identidade;
O que não oiço e ecoa no que pensando oiço e, logo, vejo.
Só que um espelho é um espelho, um simulacro e a matéria escura é matéria escura, sistema comunicante de vasos entre a matéria e a antimatéria.
Entre um e o outro pólo há um corredor comunicante e que de uma à outra, da matéria à antimatéria, através do espelho ao outro lado nos conduz.



sou o que sou
porque não sou o que sou





Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Junho de 2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

VALIDAÇÃO DE UMA HIPÓTESE

Desintegração do Observado, fotografia por mim abusivamente titulada e trabalhada


A não ser pelos factos, terá uma hipótese científica, para que seja validada, que ser sufragada pelo voto?
Do tipo:
Quem está ou não de acordo com ela que ponha o dedo no ar!
Ou …
Quem está ou não de acordo com ela que deposite o seu voto em urna!
A não ser pelos factos …
A não ser pelos factos e, logo, pela experimentação, não há maiorias ou minorias susceptíveis de sufragarem, de validarem ou não uma hipótese científica e muito menos se ela implica um feixe múltiplo de muitas outras hipóteses!
Havia de ser bonito …!
Havia de ser bonito que a validação de uma hipótese científica resultasse de eleições …
E em caso de dúvida ou de impossibilidade de comprovação, valerá mais tê-la ou não, à hipótese, na sua plausibilidade, em linha de conta?
Valerá mais prevenir, equacionando-a ou pura e simplesmente ignorá-la?
A termos atravessado um Buraco Negro, hipótese sistémica porque sobre tudo, literalmente sobre tudo e todos incide obrigando a rever todo um olhar na holística que obrigaria a reequacionar como aqui, neste meu blogue, sistematicamente o faço, o certo é que não a tendo em consideração, não poderíamos nós, pergunto-me, estar a olhar para a parte enviesadamente descolando da realidade, exactamente por não estarmos a equacionar essa paradigmática hipótese!?
E que implicações negativas não teria, em cadeia, esse olhar enviesado, supondo que a Travessia se tinha ou estaria a efectuar com sucesso, no todo e em fossem quais fossem os campos de abordagem?
Há uns tempos atrás perguntei a um especialista da área e de chofre, como tanto gosto, provocatoriamente, de o fazer, o que pensaria ele se tivéssemos, de facto, atravessado um Buraco Negro ao que esse especialista, surpreendido, me respondeu:
O mais certo seria termo-nos desintegrado …!
Ah, o mais certo, respondi-lhe eu, concordarei consigo como diz, o mais certo, o que não quer dizer que tal tivesse acontecido …!
Hoje, porém, acrescentar-lhe-ia:
O que não quer dizer que tal tivesse acontecido, pelo menos assim, de um momento para o outro como se uma tal travessia se não dilatasse no tempo à medida, não do nosso tempo cronológico ou do instante mas do macrocósmico de uma tal entidade e do fenómeno astrofísico, da travessia que tivéssemos feito ou a que estivéssemos a ser sujeitos …!
Agora, teimando em ignorar esta hipótese persistindo em olhares dela enviesados, obcecadamente, aí sim e no dilatado do tempo que uma tal travessia sempre implicaria, a prazo e na impossibilidade de ao Buraco o ver e comprovar a não ser pelas reacções em cadeia já aqui, nas páginas anteriores elencadas e que estariam a ser desencadeadas, não as conseguindo, por isso, a essas reacções interpretar devidamente por à hipótese a não equacionarmos, provavelmente, a desintegração, aí sim, a prazo seria, poderá vir a ser o nosso fatal destino.
Pelo menos o nosso … o da Humanidade já que a Terra, essa, de nós não precisa para continuar, de uma maneira ou de outra, a sobreviver!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Junho de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

LUMINOSA E IMPLÍCITA TRILOGIA


A força do que não se vê é maior, suplanta aquela do que se vê.
Mas ela tem de estar, residir implícita naquilo que se vê.
Naquilo que se escreve.
Escrever sabendo remeter para o que não se escreve, eis o que pode caracterizar uma luminosa trilogia!
Um escrito cheio de oculta complexidade, de luz …!
Escura luminosidade …
Escuridão que irremediavelmente atrai!
Absorve …
Tal como um Buraco Negro e do qual, dessa outra coisa maior (!), afinal, também se torna, a escrita, num seu reflexo.
Buraco que, uma vez por ele apanhados pelo seu raio de atracção, nos tornamos no objecto da sua acção e não em meros observadores a ele imunes e dele distanciados.
Na nossa sistemática cegueira que, numa persistente teimosia, insiste em fundar-se, basear-se apenas no que se vê e, nem mesmo quando o próprio conhecimento científico admite não estarmos em condições de desenvolvimento tecnológico suficiente que a tudo permita ver, nem aí o  estamos dispostos a admitir …!
Sabe-se que um Buraco Negro apenas se detecta, não porque se veja, ele não se consegue ver no estado de desenvolvimento tecnológico em que nos encontramos, mas pelas reacções que à sua volta desencadeia e que a ele, implicitamente, escondido o sugerem.
Assim, apenas pelo reflexo do reflexo e do reflexo, estando nós no centro da sua acção que por maioria de razão não conseguimos ver, pelas  manifestações por ele desencadeadas, seus reflexos, poderemos estar em condições de a ele, na sua travessia, o admitir:
Reflexo que as alterações ambientais, somadas à predação do Homem, em si mesmas o são já;
Reflexo que a aceleração histórica o sugere;
Reflexo que a economia, no afundamento e na desintegração em que patina, apenas o é;
Reflexo que a política, ela própria o traduz, não apenas pela fragilização crescente das plutocracias mas pela própria fragilização do sistema democrático de representação política;
Reflexo que, por exemplo, a osteoporose enquanto manifestação patológica da fragilização da massa óssea o induz!
Reflexo de reflexo de outro e outro mais reflexo num encadeado factual a manifestar-se sem fim …
Fenómenos que nos obstinamos em observar isoladamente caindo num crescente mio-estrabismo crónico!
E se se sabe que a massa absorvida por um Buraco Negro permanece do outro lado ao qual se deixa de ter acesso a não ser sendo dele o objecto da sua acção e que nela apenas se altera, ligeiramente, a sua organização, quem nos garante não estarmos a olhar para o conjunto dos reflexos aqui elencados mas aos quais muitos outros lhes poderiam ser somados, de uma forma anti-sistémica completamente errada exactamente por nos recusarmos a admitir essa hipótese o que nos incapacitaria de os atacar, no seu todo, devidamente!?
E com que irreparáveis consequências a prazo …?



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 1 de Junho de 2011