A excelência tanto está em quem cria como em quem interpreta e quem interpreta é tanto quem executa como o destinatário dessa execução.
Eu crio, tu tocas ou lês, transmites, interpretas o que eu criei e ele, como receptor, também interpreta o que lhe foi transmitido.
Se a algum dos elos deste triângulo, digamos, lhe faltar a qualidade da excelência, o processo fica por concluir.
A criação pode ser da máxima excelência mas se aos intérpretes, tanto o transmissor tal como o receptor, igual excelência lhes faltar, não é a criação que fica em causa mas antes a excelência dos seus intérpretes.
Os intérpretes podem ser da máxima excelência mas se à criação igual excelência lhe faltar, esta nunca ficará à sua altura, será de qualidade inferior.
Como se afere a excelência?
Antes de mais, pelos conteúdos da obra criada.
Quantos mais os tiver, quanto mais em aberto ela se demonstrar ser pelas leituras escondidas que em si mesma se encerrem, isto é, quanto menos definitiva e em aberto ela se der, tanto ao intérprete transmissor como ao intérprete receptor, mais a obra se afere, no tempo, conservando a sua qualidade, exigência perene, actualidade, mais nela se afere, escrevia, da sua excelência.
Quanto aos intérpretes, a excelência na interpretação de uma obra, essa afere-se pela capacidade, sejam eles o intérprete transmissor como o receptor, pela capacidade que tenham de a esses conteúdos os serem capazes de desvendar, de trazer à tona.
Neste sentido, a criatividade está tanto do lado do criador como dos intérpretes transmissor e receptor, eles mesmos não menos criadores, melhor dizendo, recriadores.
Pergunto-me:
Reconheceria, rever-se-ia Mozart na qualidade, exigência interpretativa posta aqui, por Mitsuko Uchida, de um seu Romanze...?
E tu, rever-te-ás nela, acrescentando-lhe valia!?
Se, em simultâneo, eu for capaz de ser eu, tu e ele, os três num só, recriador da recriação da criação, ela mesma, já de si, recriação, não subestimando nenhum destes três elos, estão criados os ingredientes capazes de à obra, dando-lhe plena dimensão, a transfigurarem em Obra que é o que a obra de Mozart, de facto, em si mesma o é.
Chama-se a esta capacidade o trinitário mistério revelado da criação artística!
Na interpretação de Mozart a que se tem acesso no link abaixo, de que lado está a excelência criativa ...
... do dele, do teu ou do meu!?
aqui adaptado, este texto foi publicado, em primeira mão, no mural do meu facebook
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Julho de 2011