quarta-feira, 14 de setembro de 2011

HÁ PEQUENOS GESTOS

Atenas Moderna


Há pequenos gestos que valem por mil!
Ontem à noite, à volta do mural do meu facebook e depois de nele ter deixado um pensamento, não satisfeito e pesquisando aleatoriamente no Youtube, dei-me com um recital realizado no Conservatório de Atenas, sóbrio recital do Duo Vivo de qualidade inquestionável e, sem mais, perante o alarde e nervosismo globais face à situação das dívidas e da grega em particular, decidi-me a editá-lo com a modesta legenda boa noite, Atenas!
Foi um daqueles meus repentes de que não me arrependo de todo …
E fiquei a imaginar aquela cidade fervilhante, com toda a vida  própria que este simples recital, austeramente, retrata às mãos do nervosismo geral!
Onde todos, daquele brilhante país, se tentam demarcar, como se o pudessem fazer assim tão simplesmente não fosse a sorte de um dos seus ser indiferente ou passar ao largo da de todos os outros.
Um simples recital que poderia, tão só, ser uma modesta  cena da vida doméstica perante todas aquelas vozes especulativas e tonitroantes que se levantam diante das incógnitas do amanhã.
O recital teve lugar já este ano, o ano de 2011.
Perante ele mais não se me oferece dizer do que, palavras para quê (!?), há mais vida para além do deve e haver e como os números escamoteiam tanta coisa
… ou, se quiserdes, a vida continua!
Assim, desta maneira, num austero recital onde as notas que se tocam pairam acima de todas as angústias na afirmação da cultura europeia que tem nela, na Grécia, o seu berço e um dos expoentes …!
O berço da Democracia, é bom não esquecer!
E perante a simplicidade dos dois intérpretes de quem nunca tinha ouvido falar, perdoem-me a ignorância (!), nada mais me  ocorreu do que transpor, uma vez mais, o que escrevera para aqui, volvidas que são quase vinte e quatro horas, agora que a noite cai em Atenas, enfatizando:
Boa noite, Atenas!
καληνύχτα Αθήνα









Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Setembro de 2011

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

800

António Correia, retrato de mim mesmo enquanto jovem


Oitocentas páginas …!
Sim, ao fim de dois anos e oito meses, completo-as hoje neste meu blogue.
São elas o espólio, a herança que aqui carrego e que, nem de propósito, me permitem cantar sem ligeireza mas com toda a fluência o poema que a seguir se segue e que foi publicado, em primeira mão, hoje de manhã no mural do meu facebook …
Para que nestes dois suportes em que invisto e sem  quaisquer equívocos ou ambiguidades, possa constar:



DESPERTAR




Num mundo
que é só um
um
Júlio César comum
de mãos limpas
que diante
da República
sem nenhum
outro exército
que não
o das palavras
que escreva
dirá tudo
o que se espera
que desespera
e que é mudo

S
erá ele
festa
Entrudo

desmoronar
do que é turvo

M
aior vitória
de fundo
o despertar
do profundo


tácito, para bom entendedor meia palavra basta





Jaime Latino Ferreira
Estoril, 12 de Setembro de 2011

sábado, 10 de setembro de 2011

DEZ ANOS DEPOIS


nine eleven memorial


Há dez anos atrás, escrevia eu uma tese extra-curricular quando, subitamente, fui surpreendido, tal como todos nós, com uma Manhattan engolida por nuvens de fumo que a dilaceravam.
Tendo os Estados Unidos da América sido atingidos no seu coração também eu ao meu o senti, subitamente, a sangrar.
A Tese que então escrevia, logo ela se passou, na hora, a centrar no que, aos nossos olhos, nos atingia  avassaladoramente como se todos, em simultâneo,  estivéssemos a ser atingidos, que o fomos!
E foi a fragilidade em que assentam os nossos alicerces, os fundamentos da própria Democracia que, de súbito, se escancararam à vista de todos!
A insegurança era, até então e a esta escala, uma ideia longínqua que a não ser por quaisquer catástrofes naturais, parecia estar longe de todos nós ou pelo menos das nações democráticas mas com o sucedido e a sua cobertura global e  em directo, estampou-se à vista do cidadão comum.
Acabei, assim, a minha Tese a escrever sobre a guerra e a paz e a elas lhes dediquei todo um capítulo, uma elegia poética que, ainda hoje …!
Ainda hoje, as réplicas do 11 de Setembro se fazem sentir!
Da minha Tese, embora extra-curricular, repito, da parte de quem a orientou ou o devesse ter feito … não tive senão sumidos ecos …!
Mas subterrâneos, tal como subterrâneo é o terror (!), ecos os houve, estou certo e tantos quanto essa minha Tese, juntamente com o extenso espólio que a precedeu como daquele que se lhe sucedeu, se encontram hoje depositados em importantes arquivos, entre os quais se conta o da Biblioteca do Centro Nacional de Cultura.
O terror que assenta no inominável subterrâneo, afinal, passou a interpelar o que, não menos subterrâneo, de melhor há em nós, em cada um de nós, melhor esse que confrontado pelas eventuais barreiras de silêncio e das mais variadas incompreensões, fundamentalismos também, hoje como então, nos desafiam a persistirmos na racionalidade humanista que por essas barreiras se não deixe quebrar ou ceder ao que de pior, pela tentação de confundir meios com fins, nos possa, eventualmente, assediar.
Tal como já então na minha Tese, não sou ingénuo ao ponto de achar ser tudo igual no exercício da violência, ele depende, entre outras coisas, da forma como é exercida e pesem embora as vítimas inocentes e as sequelas  que ela  sempre consigo arrasta:
Um exército regular é uma coisa, se de um estado democrático, outra ainda e se agindo a coberto do direito internacional, na violência que utilize, ainda outra e esta última, nunca por nunca se pode confundir com aquela, traiçoeira e cega, subterrânea, exercida pelo terror!
Desarmados perante o terror é que também não podemos ficar e, afinal, os fins, sejam quais eles forem (!), se não justificam os meios é nestes e da forma que se utilizem, que  estão os fins que propalamos!
Por este meu meio prossigo, indefectível, na minha senda, sem ceder ao medo nem ao terror e no exercício pleno da Liberdade que me assiste e que não se deixa, tão pouco, ontem como hoje condicionar …
Refiro-me àquele da escrita que por sua via, resiliente e também em memória de todas as vítimas inocentes do terror, pelo aprofundamento da Democracia, me traz, como até aqui, incansável e congruente até Vós!



de quem ao longo de todos estes anos ao terror sempre o neutralizou politicamente, extirpando-o de todas as roupagens com as quais se tenta sempre camuflar






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 11 de Setembro de 2011  

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O ENCOSTA





Conforme vem assinalado na coluna das efemérides do jornal W e no meio de todas as celebridades que hoje nasceram ou morreram, faz hoje anos a pessoa X de quem nunca tinha ouvido falar mas que por ser casada com a pessoa Y, tornada pública e conhecida por pertencer à organização Z, merece a honra deste destaque por encosto de matrimónio …
Que feitos se lhe conhecem?
Para além do dito matrimónio e não que os não possa ter … nenhuns …!
O que é que, então, neste aparentemente irrelevante episódio mas não assim tão fora do comum, merece ser destacado?
Aqui temos um bom exemplo, seguramente que não o único, do que para aí vai de encosta, encosta:
Mérito …
Como distinguir o mérito, aquele que numa efeméride mereça ser registado?
Tendo, para tal, o reconhecido mérito!
E como reconhecê-lo se pelo mérito se não for reconhecido?
Pertence, o emérito jornalista da coluna referida, aos quadros do jornal W, sabe-se lá se por mérito de pertencer a esses mesmos quadros ou se por ter sido contratado na base do encosta de quem conhece A, B ou C ou por ter sido apadrinhado desde sempre, oh que mérito maior (!), e rever-se, pois, em quem por encostado estar, desse mesmo encosto seja credor!?
Não que ache que um desconhecido X não seja igualmente merecedor de honras de efeméride …
O meu aniversário, afinal, vale tanto como outro qualquer, de celebridade, seu cônjuge ou não, seja ou não eu um comum e anónimo cidadão.
Mas o encosta …!
Essa pecha maior que ao mérito o encobre e no qual sempre se revêem os medíocres ao ponto de o espelharem num creditado órgão de comunicação social!
Essa nuvem de espesso nevoeiro que entre qualquer um de nós e a celebridade, pelo encosta, sempre se interpõe!!
A exigir padrinhos, intermediários, encostos e, em suma, perfilhamentos!!!
Como quebrar essa densa neblina sem que ninguém, escusadamente, caia com ela!?
E a estampar-se numa coluna, numa simples coluna de opinião interventiva que de tanto encosto, a escassez de mérito o não sabe nem consegue, como o poderia (!?), distinguir!?
Ah …
Se por casada com Y, uma qualquer pessoa se torna merecedora de celebridade efemérica, o mérito, esse, deve estar conspurcado na valeta!
Para quê tanta teoria pois se assim não espanta que tenhamos chegado ao que chegámos …!?
Sim, porque à custa de quanto encosta, encosta, a gordura do que é público ou os favores de quantos pretensos jornalistas para terem um lugar encostadinho ao sol!?
O encosta:
Robusta mesquinhez dos pequeninos!



se quiseres ser célebre encosta-te






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Setembro de 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

SINAIS CONTRADITÓRIOS





Sinais contraditórios apontam num como noutro sentido …
Tão depressa parece caminharmos para a desagregação europeia, quiçá da própria moeda única como, nas entrelinhas desses mesmos sinais, razões há para ver, ao fundo, réstias de esperança.
Nos choques que, afinal, sempre estiveram presentes, eles não são de hoje embora assumam particular relevância em situação de crise profunda, a tensão entre o nacional e a integração plena, fazem-se sentir com particular acutilância e, contraditória, desperta sentimentos nacionalistas, xenófobos mesmo, de toda a ordem!
Afinal, integração pressupõe perca de soberania com tudo o que ela acarreta …
Perca de soberania económica, financeira, política mesmo …!
E, entre uma e a outra coisa, entre fragmentação ou reforço da união política, qualquer meio termo no processo de globalização como da própria integração europeia que uma vez posto em marcha foi aceite por todos, não há como retroceder.
Afinal, como soberano, no que aos povos da Europa verdadeiramente interessa, o que é que importa, verdadeiramente, salvaguardar?
Uma política económica ou uma política externa de Estados Nacionais encarados de per si!?
A política financeira ou … ou o quê!?
E que fazer prevalecer, a força centrípeta ou a centrífuga que à Europa, enquanto entidade política, a consolide ou fragmente de vez …!?
Os políticos nacionais habituaram-se a jogar em seu proveito e das suas clientelas, em desproveito, quantas vezes, da integração, conforme as suas apetências eleitorais de momento e, agora, encontram-se confrontados, todos eles (!), com a hora da verdade que é para isso que uma crise também serve!
Volto a perguntar:
De nacional, na Europa, o que é que importa, dos Estados Nação, verdadeiramente,  salvaguardar?
Respondo sem hesitar:
O bem estar dos seus povos e as suas identidades culturais!
Quanto ao resto …
… quanto ao resto, os políticos europeus e sejam quais eles forem, terão de deixar de persistir nas suas oportunísticas e danosas políticas que os fazem jogar, ambiguamente, nos dois tabuleiros em que teimosamente insistem conforme as suas conveniências de momento e que tanto têm emperrado, no que dissimulam e por muito europeus que se afirmem, a construção europeia.
No dia em que aos povos da Europa lhes for explicado, preto no branco, que a sua efectiva união política, apenas concorrerá no seu acrescido bem estar e na salvaguarda, simultânea, das suas identidades culturais, logo a começar pelas linguísticas, tudo passará a fazer outro sentido …
Fácil de escrever isto?
Pois é!
Mas sem claridade de objectivos e ainda que perspectivando a mais ou menos longo prazo, também nada poderá justificar os sacrifícios com que somos, global e irreversivelmente, confrontados!
E na construção do Edifício Europeu, não bastaram já as agora tão propagadas gorduras dos Estados Nacionais, quanto não há por assumir desde já e, na perspectiva da União, racionalizar de vez!?
Não por um mas por todos os Estados que a integram!



sem uma Europa unida, democrática e forte, também não há globalização democrática, quanto mais efectiva resolução da crise







Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Setembro de 2011

domingo, 4 de setembro de 2011

QUANDO NÃO SE SABE CALAR


BenHeine, Bla Bla



Há pessoas que se justificam ou são pagas para falar e que, por isso mesmo, falam.
Quantas vezes em excesso ...!
De tal maneira que, em vez de encontrarem pontes de entendimento as deitam, pura e simplesmente, a perder.
Assim é vê-las, a essas pessoas, a esgrimirem argumentos, as armas que têm à mão, puxando como podem dos seus galões e atiçando factos políticos perfeitamente escusados, picarescos mesmo, criando tempestades em copos de água e adensando de complexidade política a, já de si, cada vez mais complicada situação que se vive.
Há quem esteja em condições de ser equidistante de facto e há quem, pela sua própria posição e natureza, o não esteja de todo!
Se alguém, a mim me acusasse de parcialidade ou de, no meu discurso, não conseguir salvaguardar os interesses inter-classistas ou inter-geracionais, os interesses gerais, de fazer o jogo deste ou daquele ou tão só de funcionar como uma válvula de escape, não embarcaria, inflamado, na criação do escusado:  
Distanciar-me-ia e apenas em caso limite e caso disse houvesse necessidade, interviria tentando, nos bastidores, resolver os pendentes.
Em última instância, pronunciar-me-ia pelo silêncio escrevendo como o faço e nunca mais do que isso, e tudo sem atiçar uns contra os outros, arrebatar plateias ou incendiar multidões.
Os púlpitos estão-me, por minha própria opção, vedados!
Há momentos em que todos não somos demais para fazer face aos desafios mas para a realização desse papel potencialmente galvanizador, nem todos estão, pelo seu próprio percurso de vida, vocacionados.
Sejam eles jornalistas, comentadores, figuras públicas ou políticos oriundos de um partido qual seja …
Todos trazem e por muito que tentem salvaguardar a objectividade, cada vez mais, o seu sentir à flor da pele quando não o ruidoso diz que diz-se …!
E essa câmara de ressonância de que escrevo e para a qual me sinto, com provas dadas, vocacionado, vai-se tornando, cada vez mais e à escala global, indispensável!



quando se fala demais obtêm-se, quiçá, os resultados inversamente proporcionais aos pretendidos





Jaime Latino Ferreira
Estoril, 4 de Setembro de 2011

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

ARIDEZ DOS NÚMEROS



+

Durante anos a fio tudo se baseou em como ter mais:
Mais de tudo, dinheiro, bens de consumo, regalias, privilégios, benefícios, mais e mais e mais de tudo.
Tudo se baseou na gestão do mais e em como ter mais mesmo se não tendo capacidade para o ter.
Uns emprestavam para ter mais e os outros, na ânsia de mais ter, endividavam-se!


-
 

Subitamente ou assim não tão súbito como isso, ao mais sucedeu-lhe o menos na incapacidade de ter mais ou esgotado, ao limite, esse desiderato.
Então, como passar a ter menos com o mínimo custo possível!?
Com o mais possível …?
E não se ouve falar de outra coisa senão do menos.
Na busca da gestão ainda mais árida do menos logo por não ter mais, esgotam-se argumentos até à exaustão e tudo se passou a reduzir a mais que menos.


        


E porque não diferente?
Quem és tu mais do que eu!?
Serei eu menos que tu!?
Vivas onde quer que seja, como quer que vivas e tenhas-me como não emprestado dinheiro!?
O que quer que tenhamos feito, não terá sido em benefício mútuo!?
E se somos iguais nas diferenças que nos caracterizam e nos enriquecem, não será esse diferente mais, mais importante do que o menos que nos separa!?
A aridez dos números faz esquecer que não somos um deserto ou uma página em branco sobre os quais estes se possam aplicar linearmente, quer para mais como para menos.
A aridez dos números desertifica tudo à sua volta e o resultado … salta à vista!
Mesmo quando para ter mais, muitos tinham que ter cada vez menos …
E a Democracia, não tem ela um preço e tanto maior quanto o seu ensejo cresce por todo o lado?
Não é esse ensejo solidário mais mais do que menos e cada vez mais do que menos?
E quanto, não menos diferente mais, valerão as minhas palavras profusamente escritas …!?






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 1 de Setembro de 2011