sábado, 15 de outubro de 2011

APARENTEMENTE

Jaime Latino Ferreira, Aparentemente Imutável



Esta é a vista de uma janela de minha casa, aquela em frente da qual, de manhã, ao pequeno almoço me sento e cuja vista dela abarco.
Sempre foi assim …
A sua vista permanece desde que tenho memória, apenas com a mudança de cor das casas e, talvez, das plantas e das árvores que floriram e cresceram ou foram, entretanto, substituídas.
Nestes últimos cinquenta e muitos anos e diante desta vista aparentemente imutável, assistimos à asfixia que a ditadura exercia, ao crescimento do país, à instauração e estabilização da Democracia, aos amanhãs que cantam, à integração do país nessa ideia generosa da Europa, ao seu alargamento pela queda de quantos muros, à engorda dessa mesma Democracia, à criação da moeda única e dos instrumentos de integração crescente num espaço único europeu e, agora, qual hora da verdade e aparentemente (!), ao emagrecimento drástico dessas mesmas e generosas ideias.
Diante desta vista aparentemente imutável, acordámos para um país, tal como uma Europa envelhecidos, tanto na quebra de natalidade como em matéria de pujança económica, para uma Europa minguante, à aparente inoperacionalidade desta última e dando-nos conta, subitamente, do crescimento e pujança dos outros que por ela, legitimamente, não teriam de esperar.
Assistimos à falta de autoridade e razoabilidade na gestão de fundos, reivindicações e não menos investimentos …
Diante desta vista que daqui abarco, habituamo-nos, aqui em casa, a viver daquilo que tínhamos, que temos e nunca mais deixámos de apertar o cinto exaltando a Democracia e sem pedir nada a ninguém!
Cultivámos sempre a esperança de a Democracia ser mais do que pedir sempre mais, antes a possibilidade da livre reflexão sem constrangimentos e no contraditório que esta sempre implica …!
E a ver nela, na liberdade de expressão e pensamento, essa diferença básica e fundamental que, afinal, a deveria distinguir, acima de tudo, de uma qualquer ditadura:
Ditadura política, ditadura de interesses, individuais e  colectivos ou a ditadura dos números que vão asfixiando a verbe!
Somos uma sociedade velha e envelhecida, agarrada a clichés, papões e fantasmas …!
Diante desta vista que permanece, aparentemente, imutável interrogo-me sobre o que, entretanto, mudou e tal como a vista que daqui abarco, permaneço desenvolvendo sempre, mutante, a reflexão que, como um rio, corre da nascente à foz!
E interpelo-Vos, a Vós todos, também:
Esta possibilidade de pensamento livre que a falta de pão, é certo (!), vai limitando é ou não ela ideia alimento que importa, acima de tudo e pesem todos os constrangimentos, salvaguardar!?
E que estais, Vós todos, dispostos a fazer por isso!?








Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Outubro de 2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

OUSADIA




Ousadia extravagante esta a minha
de achar poder-vos dar o que continha
na escrita o que sou como semente
a germinar igual à minha mente

Como se nela coubesse de repente
inteiro e a desaguar em tanta gente
como se não mudasse aquilo que tinha
por garantido e imóvel na escrivaninha

Pura extravagância que sozinha
pudesse aprisionar escrito o que tente
sem mais vazão a dar ao que se invente

Já que toda a água do rio sente
que uma vez passada adivinha
não poder voltar como antes vinha








Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Outubro de 2011

terça-feira, 11 de outubro de 2011

UM EPISÓDIO REVELADOR

flor da paz



Hoje de manhã, deu-se comigo um episódio revelador que não gostaria de deixar passar em branco, pese embora aqui fazer questão de salvaguardar as identidades das pessoas ou organizações intervenientes.
Circulava eu no mural do meu facebook quando alguém, privadamente, me veio perguntar se estaria disposto em lhe conceder o meu voto a um seu poema apresentado a um  concurso …
Ainda antes de seguir o site que juntamente me enviava, logo prontamente lhe respondi entender não ser um poema susceptível de um qualquer sufrágio como se a sua qualidade, através deste, pudesse ser aferida, pelo que, logo lhe disse não me encontrar, para esse efeito, disponível.
Só depois, seguindo o site, percebi, então, tratar-se de um poema em inglês, cabendo a iniciativa do concurso a uma prestigiada organização internacional …
E mais lhe disse então:
Disse-lhe que pesasse embora o mérito da iniciativa, sendo ela pela Paz, não percebia como é que os candidatos se tivessem de predispor à condição de escreverem em inglês já que a Paz, sendo ela um anseio universal, pressupõe o respeito, diria mais, a salvaguarda, a defesa mesmo, das diversidades e, neste caso e em particular, das diversidades linguísticas.
O que então lhe disse, disse-o com a minha prontidão, mais, com a minha espontaneidade habitual e sem qualquer chauvinismo que é coisa que não só a mim me é estranha como  liminarmente repudio, como com o à vontade de quem, aqui e ali, também já poemou em inglês.
Sei que essa pessoa, prontamente se desfez daquele vínculo que se tem por amigo e que àqueles que circulam pelo facebook, supostamente, os liga.
Fiquei incomodado e por uma dupla ordem de razões:
A primeira resultante das relações meramente de interesse, tu dás-me e eu te darei que, quantas vezes, à comunidade internáutica a caracteriza e isto tanto no facebook como na blogosfera!
As coisas não valem por si, como se não bastasse tudo o que em ambos os suportes dou e vou dando sempre e mais (!), antes pela troca directa que, eventualmente, possam, oportunisticamente proporcionar …
A segunda e não menos relevante, prende-se com a obrigatoriedade de, para concorrer a uma iniciativa pela Paz, se ter de escrever numa língua padrão.
Eu bem sei do carácter pedagógico de um concurso como este.
Como imagino dos problemas logísticos acrescidos que, a não ser adoptada uma língua padrão, tal acarretaria.
Mas também sei que imposta a condição de uma língua padrão, todos aqueles que não comunguem dessa como sua língua materna ou em que se exprimam com fluência, à partida, ficam em desvantagem concorrencial absoluta.
Como sei, repito, da importância da diversidade na efectivação plena da Paz:
A Paz não se faz pela uniformização antes implica, repito, valorização da diversidade!
Sei, finalmente, que se os concursos desempenham um papel no estímulo literário e, neste caso, na implementação de um espírito de Paz, uma obra de arte que é aquilo que um poema é, de facto, não se sufraga.
Está nela, num poema que o seja e apenas o tempo lhe confere qualidade digna desse nome!
Sei ainda:
Afinal, que grande generosidade esta, a desta minha amiga e que espírito tão pacificador ela não acabou, ao interromper a conversa e os supostos laços que tínhamos abruptamente, por revelar!






 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 11 de Outubro de 2011

domingo, 9 de outubro de 2011

ESPIGADOTES

Eduardo Batarda, Reserva, 1988


Qualquer dia, não faltará muito, sucumbirão as crianças ao empedernido que as não escuta!
Empedernido que, por medo do que nelas se contém e que, verdadeiramente, nunca encarou, foge sempre a ouvi-las …
Que insiste em formatar homenzinhos, homenzinhos e mulherzinhas, num molde que se esvai …
… esvai de tão gasto estar!
Esvai de nada mais ter para dar.
Esse empedernido de tanto se querer espigadote à força e com o qual já ninguém se identifica …!
Espigadote naquele molde definitivo dos que julgando-se grandes, supostamente, já não crescem mais!
Espigadotes compostinhos, assim, de corda ao pescoço, hirtos de não saberem onde pôr as mãos, as mãos ou o resto, muito institucionais e que trazem sempre consigo um batalhão de yes men feitos à sua própria imagem, a assentirem com as suas cabecinhas ocas ao mais despropositado bitate que os espigadotes, de propósito ou a despropósito, balbuciem.
Espigadotes de faz de conta que se esqueceram de ser crianças …
… esqueceram é pouco … nem se querem lembrar disso!
Por isso, por isso mesmo se tornaram tão crescidinhos …
Voz descolocada, calinadas à tripa forra na gramática e de vervezinha sempre prontita a saltitar.
Espigadotes daqueles que quando vêm uma criança logo estão prontos a dizer que engraçadinha!
Com um sorriso besta e uma tal desconformidade diante dela que ela própria se interrogará de onde veio um tal ET!?
Espigadotes …
Tão espigadotes e atinadinhos que metem medo ao susto!
Qualquer dia, de tão espigadotes e distantes, esses mesmos espigadotes sugarão a infância, reserva de esperança e de futuro, no turbilhão do tem de ser que eles próprios obstinada e persistentemente criaram …
… e de tão espigadotes que o são, esquecer-se-ão que mataram a criança!







Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Outubro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

REINVENÇÃO E CULTURA

fotografia de mb


Para variar, analistas, comentadores e políticos, destacaram do discurso do Presidente da República do dia 5 de Outubro, de ontem portanto, tudo o que lhes convinha e deixaram de parte dois que reputo como significativos períodos que, pela minha parte e em meu benefício, destaco, a saber …
O primeiro:
( … ) É justamente por isso ( pelos tempos difíceis do passado ) que, nos nossos dias, se torna tão premente reinventar o republicanismo, fundar um espírito republicano ajustado às exigências cívicas do novo século. ( … )
E o segundo:
( … ) Em tempos de escassez económica, há também que redescobrir o valor da cultura e dar prevalência à dimensão espiritual sobre a dimensão material da vida humana. ( … )
Reinvenção e Cultura …
O que é ela, a Cultura, mais do que tudo, senão a capacidade aplicada do espírito, pelo apuro, perfeição e cuidado, que lhe permita reinventar?
E o que será reinventar o republicanismo, nos nossos dias, ajustados, portanto, às exigências cívicas do nosso século, senão estendê-lo, a ele como à coisa pública, nos meandros da cultura, num soneto que seja e que, nem por acaso ao discurso do Presidente o precedeu, por via das plataformas que ao espaço público, graças às novas ferramentas que temos ao dispor, ao cidadão lhe permitem, resiliente, amplificar-se com toda a dignidade e intervir sem esmorecer?
Num simples soneto, repito, essa forma literária, cultural que nos está no genes?
E que expresso numa das línguas universais, teria de ser em inglês (!?), à coisa pública a dignificam e isto já para não falar em tudo, tudo o que ao soneto, no tempo, o precede num contexto material de dificuldades que ao autor  lhe são familiares e que não são de hoje mas que de há muito o afligem mas não demovem …
Não me demovem, como sempre!
Demonstrando à saciedade, na pessoa do seu autor, como a dimensão espiritual à material a sobreleva …!
Demonstrando, por fim, a capacidade Política de antevisão do seu autor, de ao discurso do Presidente, publicamente, o anteceder, o soneto foi publicado às zero horas do dia 5 de Outubro (!), capacidade essa em défice profundo e que, hoje mais do que nunca, se impõe reconhecer!








Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Outubro de 2011

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

PÚBLICA

fotografia de mb
 

Pública é a coisa que vos trago
sentimentos meus que lanço ao largo
neles não iludo a minha história
uma vez sacada da memória

Nela vos confronto com a vitória
do amor no seu esplendor e em sua glória
transpiração e meu encargo
que desagua aqui e não apago

Não o faço por menos na ilusória
percepção que de sabor amargo
em toda a confusão reina irrisória

Pois público e mais forte é este estrado
sem ceder à depressão ou à euforia
que a mim se tentem grudar de lado a lado



na comemoração do aniversário da República






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Outubro de 2011

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

AGARRA QUE É LADRÃO

fotografia de mb



Quando oiço alguém a gritar agarra que é ladrão, pergunto-me:
- Mas onde está ele, o ladrão!?
Diz a sabedoria popular ou, pelo menos, a minha própria sabedoria que, quanto mais gritas mais o encobres e eu sou tentado a dar-lhe/me razão!
Ladrão para aqui e ladrão para ali, quanto mais gritas mais ele se esquiva e enquanto a gritaria vai ao rubro tanto melhor para ele, afinal, entidade mítica de muitos e não nomeados co-responsáveis …
O grito ensurdece e, por seu efeito, tolda o discernimento.
Sitiados pela vozearia, os decisores, como se apanhados em atordoante teia, vêm, permanentemente, a sua autoridade beliscada e os eleitores, não menos atordoados, ficam, eles também, quantas vezes sem saberem por onde optar.
Perdendo o rasgo e o golpe de asa, a capacidade de decisão no único que, pese embora a escassez de perspectivas, a situação tem na oportunidade ímpar de reforço da União e que vai dando mais ou menos discreta e timidamente os seus passos.
Todos os que gritam querer mais ou não admitirem a austeridade com que se encontram confrontados assim como aqueles que no exercício da autoridade democrática não conseguem resistir ao poder reivindicativo numa situação limite como esta é, afinal, são parte ainda que involuntária do ladrão que grita e esperneia, enxotando de si mesmos as responsabilidades pelo ponto a que se chegou …
Agarra que é ladrão!
E o ladrão esgueira-se por entre a teia na sobrevivência que, desesperadamente, procura encontrar!



reflexões proporcionadas por uma entrevista dada por Luís Amado na sic notícias a 1 de Outubro e que não consegui encontrar disponível


 



 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Outubro de 2011