Jaime Latino Ferreira, Aparentemente Imutável
Esta é a vista de uma janela de minha casa, aquela em frente da qual, de manhã, ao pequeno almoço me sento e cuja vista dela abarco.
Sempre foi assim …
A sua vista permanece desde que tenho memória, apenas com a mudança de cor das casas e, talvez, das plantas e das árvores que floriram e cresceram ou foram, entretanto, substituídas.
Nestes últimos cinquenta e muitos anos e diante desta vista aparentemente imutável, assistimos à asfixia que a ditadura exercia, ao crescimento do país, à instauração e estabilização da Democracia, aos amanhãs que cantam, à integração do país nessa ideia generosa da Europa, ao seu alargamento pela queda de quantos muros, à engorda dessa mesma Democracia, à criação da moeda única e dos instrumentos de integração crescente num espaço único europeu e, agora, qual hora da verdade e aparentemente (!), ao emagrecimento drástico dessas mesmas e generosas ideias.
Diante desta vista aparentemente imutável, acordámos para um país, tal como uma Europa envelhecidos, tanto na quebra de natalidade como em matéria de pujança económica, para uma Europa minguante, à aparente inoperacionalidade desta última e dando-nos conta, subitamente, do crescimento e pujança dos outros que por ela, legitimamente, não teriam de esperar.
Assistimos à falta de autoridade e razoabilidade na gestão de fundos, reivindicações e não menos investimentos …
Diante desta vista que daqui abarco, habituamo-nos, aqui em casa, a viver daquilo que tínhamos, que temos e nunca mais deixámos de apertar o cinto exaltando a Democracia e sem pedir nada a ninguém!
Cultivámos sempre a esperança de a Democracia ser mais do que pedir sempre mais, antes a possibilidade da livre reflexão sem constrangimentos e no contraditório que esta sempre implica …!
E a ver nela, na liberdade de expressão e pensamento, essa diferença básica e fundamental que, afinal, a deveria distinguir, acima de tudo, de uma qualquer ditadura:
Ditadura política, ditadura de interesses, individuais e colectivos ou a ditadura dos números que vão asfixiando a verbe!
Somos uma sociedade velha e envelhecida, agarrada a clichés, papões e fantasmas …!
Diante desta vista que permanece, aparentemente, imutável interrogo-me sobre o que, entretanto, mudou e tal como a vista que daqui abarco, permaneço desenvolvendo sempre, mutante, a reflexão que, como um rio, corre da nascente à foz!
E interpelo-Vos, a Vós todos, também:
Esta possibilidade de pensamento livre que a falta de pão, é certo (!), vai limitando é ou não ela ideia alimento que importa, acima de tudo e pesem todos os constrangimentos, salvaguardar!?
E que estais, Vós todos, dispostos a fazer por isso!?
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Outubro de 2011



