terça-feira, 3 de janeiro de 2012

SAUDADE DO FUTURO

saudade é uma ponte para o futuro


PRESIDENTE  DA  REPÚBLICA  POPULAR  DA  CHINA
Camarada Hu Jintao,
Terá o meu Amigo ouvido falar de Cesária Évora, recentemente falecida?
Cesária Évora que celebrizou, entre outros, o tema Sodade?
Sodade ou Saudade …?
Imagine o meu Amigo que me dá, aqui, o pretexto em dívida para, começando esta carta, homenagear Cesária Évora, senhora dos palcos do mundo, natural de Cabo Verde, pequeno arquipélago africano que, com sucesso, coisa ainda rara por essas paragens, se constituiu, pese embora a sua imensa escassez de recursos, num país democrático exemplar e de referência para todo esse imenso continente e para o mundo também.

Sodade …
Sabia que, em português como neste seu derivado linguístico, este termo tem uma carga muito especial?
Que ele não se reporta, apenas, ao que está para trás, ao que é passado mas também, como o escrevia Fernando Pessoa, ao que está para vir?
Saudade do Futuro ou do que ainda não se realizou …?
Saudade das aspirações que, vivendo em nós, se estão por consubstanciar?
Eu tenho saudades da visita que realizei, em tempos, à República Popular da China mas, mais ainda, seguramente que muito mais (!), daquela que ainda está por efetuar …!

Saudade!
Num tempo em que a República Popular da China assume uma centralidade nunca antes vista e que se afirma por si, esta minha carta adquire uma pertinência muito particular:
O Império do Meio com toda a pujança que lhe reconhecemos, vive diante de um dilema que importaria, de vez, resolver e que poderá como não vir a estrangulá-lo.
Bem sei que, provavelmente, não Vos temos dado a devida atenção no mérito que não poderá deixar de Vos ser reconhecido, temos, aliás, pago um elevado preço por isso (!) mas, o certo é que esse dilema Vos coloca desafios inadiáveis.
Encontra-se a República Popular da China numa encruzilhada entre a abertura política plena e o fechamento para-religioso e paranoico do seu vizinho peninsular do extremo oriental e da resolução deste dilema depende, não tenhamos dúvidas, a sua plena afirmação no concerto das nações!
É que não basta a liquidez que hoje Vos caracteriza …!
Como sabeis, nem tudo se resume a dinheiro, à sua liquidez ou não foram os dois sistemas que dizeis querer preservar …
Só que eles não terão sustentação sem a plena democratização a que as elites por Vós mesmos fomentadas, acarinhadas aspiram e sem as quais também não há crescimento e muito menos desenvolvimento.
Falta-Vos outro tipo de liquidez sem a qual a económico-financeira, que a tendes, esvair-se-á …
não tenhais disso quaisquer dúvidas!
Ainda hoje chegou ao meu conhecimento que Vos indignais contra a ocidentalização da Vossa cultura mas, não é o comunismo, ele próprio proto-cristão, um produto dessa mesma ocidentalização e por mais aplicado que o esteja!?
Não tenhais medo da abertura …!
O Meu Amigo já imaginou o que seria do Seu grande país se este viesse a ser varrido por convulsões semelhantes às que sacodem, de momento, o norte de África, perdendo toda a iniciativa que ainda podereis ter e que, no passado, já foram pré-anunciadas!?

Sodade …
Tenho, eu também, saudade do futuro!
De um futuro líquido, límpido e transparente sem o qual os povos não se conformam, como estes o demonstram por todo o lado e que, num tempo de tanta resignação quando não de iniquidade, importa sublinhar …!
Eu não Vos devo nada!
Na minha relação Convosco, se alguma dívida existe essa é aquela que o dinheiro não cobre e que apenas as liberdades podem resgatar!
Saudade.
Sodade é um sentimento íntimo que não pode ser quartado …
Saudade é uma ponte para o futuro que daqui, uma vez mais, interpelando, Vos lanço!
Vosso



seguir os links que, sucessivamente, das páginas ou posts Pecado Original e Sou Como Um Junco se vão abrindo






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Janeiro de 2011

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

TERCEIRO ANIVERSÁRIO

Manuela Baptista, Luzeiro



Completa-se hoje o terceiro aniversário deste meu blogue.
Quem me diria que ao fim de três anos já levaria oitocentas e trinta e nove páginas ou posts originais escritos assim e de pronto …!?
Obedecendo a um fio condutor que a todos lhes subjaz e do qual, com flexibilidade bastante, penso, não me terei desviado?
Ao sabor da atualidade como, amiúde, referem os meus leitores e sem que a esse fio lhe tenha perdido o rasto?
Fazendo jus, julgo, à oferta com que então, corria o dia 2 de Janeiro de 2009, Filomena Claro me surpreendeu dando-me com ele e com o seu título, A Música das Palavras, o leitmotiv que, ainda hoje, como impulso, me leva e obriga a justifica-lo?

A Música das Palavras
Toda a palavra tem música …!
Toda a palavra encerra em si mesma musicalidade que conjugada com todas as outras as estrutura, harmónicas ou na vertical, na melodia que, na horizontal, transcorre com profundidade pluridimensional como se de música escrita numa pauta musical se tratasse …

A Música das Palavras.
A Música das Palavras, hoje como desde o primeiro dia em que, por aqui, se começou a desenrolar e que pode, por quem seja, ser seguida de fio a pavio como um livro autobiográfico em movimento, diário do que escrevo, a minha agenda para a paz e que me obstino por, na minha práxis, fazer corresponder, é um livro sem princípio nem fim, ele vem de trás quando ainda escrevia noutros suportes e prossegue até à exaustão numa sinfonia heroica como deveria ser considerada a própria vida, dom único e irrepetível, por cada um de nós.
Uma vez mais, obrigado Filomena …!






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Janeiro de 2012

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

QUE FUTURO




Que futuro?
Que futuro teremos, interrogar-nos-emos a nós próprios?
Que esperança para o futuro!?

Responderei assim:
Fechemos em nós, em cada um de nós e seja qual for o contexto em que nos movamos, a fresta de esperança por mais exígua que ela seja e não poderemos exigir ou assacar a terceiros a responsabilidade que apenas está nas nossas mãos e que a faça abrir-se.
Quem não regar a rosa que floresce no seu íntimo, não se poderá espantar se ela murchar.
Escrevo do que sei e que desde há muito, página após página, cultivo.
Escrevo-o ponderando cada uma das palavras que utilizo e com o coração nas mãos!



um bom ano de 2012






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Dezembro de 2011

sábado, 17 de dezembro de 2011

NATAL DE UM OUTRO ÂNGULO

manuela baptista, triangulação



O nascituro e a triangulação primordial


Ele
a voz do ventre feito luz
e o sombreado daquelas vindas do exterior

ele na sua interioridade
a vibração matricial e o eco profundo e longínquo

em si mesmo habitando os três qual gineceu de um mundo indeterminado
batismal por de água feito

condutor do som na plástica de si próprio

intangível

ressonância de um anjo anunciador vindo de fora

intrínseca musicalidade



Naquele dia a voz da mãe chorou e afastando-se dela o menino nasceu

nasceu e na comunhão das vozes
num grito aspirado delas se desprendeu

cresceu perdida a virgindade que o concebera










Jaime Latino Ferreira
Estoril, 17 de Dezembro de 2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A DERIVA DO ECONOMÊS

Matisse em Le bonheur de vivre




A deriva do economês é um linguarejar esquisito que tomou de assalto a praça pública e que, a muitos contaminando, está na ordem do dia.
Do PIB, ao défice e às dívidas soberanas, à voracidade dos mercados e às receitas milagrosas para o crescimento económico, o economês apossou-se do discurso público mesmo entre aqueles que lamentam o assim considerado destronar da política.
Insistindo na importância da decisão política, prontamente o  discurso se enche do economês conspurcando o domínio público, não há quem não o domine (!) e logo nos próprios termos tão abusivamente utilizados, dando de barato a política que, pesarosamente, no próprio discurso se enterra:
Um engenheiro fala com todo o à vontade em economês;
Um jurista, porque não, está mais do que habilitado ao domínio do economês;
Um arquiteto, se ainda tiver crédito, constrói mesmo casas debitando economês;
Um cidadão comum e com grau incerto de habilitações, sem papas na língua, desemborra economês da boca para fora;
E os economistas, senhores da ciência económica tão em paradoxal descrédito, atemorizam-se rendidos ao economês.
Quando se diz que a política foi destronada o que, em bom rigor, se está a dizer é que o economês que toda a gente domina, porque não (!?), passou a condicionar o léxico comum.
Pois eu, pela minha parte, não falo nem escrevo em economês:
Perguntem-me o que é o PIB e eu calar-me-ei;
Auscultem-me sobre receitas para contrariar o défice ou fazer face às dívidas soberanas e ouvirão, da minha parte, um sepulcral silêncio;
Apontem-me a voracidade dos mercados e, qual boomerang, redirecioná-la-ei sobre vós próprios;
Sondem-me sobre o crescimento económico e, aí, decidido, remeter-vos-ei para as alterações climáticas!
Pois então, não estão estas associadas ao crescimento económico exponencial a que, de há séculos a esta parte temos assistido e que, saudosamente, se persiste, sem dele medir as consequências, em invocar?
Sim ou não!?
E como é que se pode falar, sobranceira e inocuamente, de economia para um lado, de ecologia para o outro ou da ausência da política ainda para outro lado sem ser numa visão integrada e transdisciplinar que a todas estas disciplinas as coloque em prospectiva salvaguardando a coerência integrada sem a qual, corporativamente, não apenas não se aborda coisa nenhuma como se cavam crescentes assimetrias!?
Para mim é claro:
O economês é linguagem da moda em que eu não embarco e concedendo soberania à política que, apenas ela, poderá fornecer sustentada racionalidade a todas estas disciplinas e não só, em abordagem multidisciplinar a quem as domina concito na criação, dinâmica, de prospectiva que seja verdadeira e mobilizadora porta de saída.
Estratégia Global de Desenvolvimento!
Política é isto, meus Caros, e o resto é conversa fiada nas malhas de uma roda estonteante que não sai do mesmo sítio!



gira que gira sobre ti próprio e de tontura em tontura espalhar-te-ás ao comprido






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Dezembro de 2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

DE UM AO OUTRO POLO DO ESPECTRO





No tempo de vida que leva este meu blogue, confrontei-me já por duas vezes com duas perguntas de pólos contrários por parte dos meus leitores, a saber:
Da primeira vez, sondando-me se eu não pertenceria à Opus Dei e da segunda vez, há poucos dias atrás, se eu não faria parte da Maçonaria!
De ambas as vezes as perguntas foram-me feitas em privado pelo que faço questão de salvaguardar as identidades de quem me as fez …
Não, eu não pertenço nem à Maçonaria ou a qualquer das suas lojas nem, tão pouco, à Opus Dei!
Eu não pertenço, aliás, a nenhuma organização desta natureza ou de outra qualquer e aquilo que vou escrevendo traduz, tão só, o meu pensamento prospectivamente desenvolvido como tal.
Professo, é certo, as minhas convicções mais íntimas e sobre elas, ao longo dos tempos, não tenho deixado de me pronunciar, contudo, mesmo a esse nível, faço questão de salvaguardar a minha independência, autonomia e juízo crítico.
Todavia se o que escrevo pode, eventualmente, levar os meus leitores a fazerem-me perguntas tão diversas como estas o que deverei delas concluir?
Que dou, oportunisticamente, uma no cravo e outra na ferradura!?
Que não sou peixe nem carne e que o que aqui, de mim se projecta, acriticamente, visa apenas agradar a gregos e a troianos!?
Não me parece …!
Parece-me, isso sim, que o meu pensamento tem um tal espectro que, sem abdicar de princípios, muito antes pelo contrário (!), insuflando-lhes plena actualidade para não dizer antes modernidade, leva a que me tenham sido já feitas perguntas tão díspares como as aqui referidas dando, ao fim e ao cabo, plausibilidade à equidistância que amiúde afirmo manter!
Muitos são os que tendem a funcionar por antinomia como se nela residisse a razão de ser dos seus próprios pontos de vista, na imperiosa necessidade que têm em se situar:
Se sou maçom, sou contra a Opus Dei ou o inverso;
Se sou de esquerda, sou contra a direita ou o oposto;
Se pertenço a um país, a sua identidade teria de ser construída por antinomia aos restantes;
Se me quero afirmar, a minha afirmação tem de ser feita pela negação do meu oponente e, na imperiosa necessidade de marcação do território, não se sai disto.
Admitam pois, por uma vez, que se pode sair disto …
Que esse mesmo facciosismo até pode estar na origem e ajudar a explicar o ponto a que se chegou!
Que a holística das coisas vai muito para lá das lateralidades ou parcialidades em que legitimamente tendemos a refugiarmo-nos!!
Essa é a particularidade do meu pensamento que apenas a mim próprio me obriga, sem exclusão de ninguém e na salvaguarda aprofundada da Democracia como também não paro de afirmar, mas no qual reside a valia de desfazer nós górdios que a todos nos estrangulam e que suscita perguntas como as aqui referidas, situadas de um ao outro pólo do espectro e que, graças a elas, me sugeriram esta minha reflexão.
Nada disso, eu não pertenço a nenhuma das organizações referidas!
A quem a estas perguntas, privadamente, me as fez, o meu muito obrigado pela oportunidade ora sugerida na certeza de que, refutando quaisquer messianismos, nos tempos que correm e sem anular divergências, é muito mais importante aquilo que nos une do que aquilo que nos divide!



aos que têm a ousadia de perguntar






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 12 de Dezembro de 2011

sábado, 10 de dezembro de 2011

NADA DISSO

malmequer ou bem-me-quer


Eu podia olhar à minha volta
e só ver o mal à solta
mas não
eu não vejo nada disso

Eu podia olhar à minha volta
e fazer de mim revolta
mas não
eu não faço nada disso

Eu podia olhar à minha volta
e achar-me nu sem escolta
mas não
eu não acho nada disso 

Eu podia olhar à minha volta
e apontar em ti a falta
mas não
não te aponto nada disso

Se ao olhar não te cobiço
e em ti vejo mais do que isso
porque seria o que vejo
antónimo do que desejo


desejo maior do olhar é saber-lhe dar a volta




 
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Dezembro de 2011