domingo, 11 de março de 2012

DE COMO CHEGÁMOS ONDE CHEGÁMOS-III-




Se eu escrevesse em função das conveniências, das audiências tão só, aos assuntos não os aprofundaria nem da verdade poderia ter a presunção de me aproximar, repego do penúltimo texto que escrevi.
Mas haverá maior audiência do que mais de metade do céu …!?
Entre o fechamento no casulo e o voo livre da borboleta há assuntos que apenas à falta de clara assunção, num sempre latente impulso reversivo, se tornam fraturantes.
O que impede a igualdade de géneros?
Melhor ainda:
O que há no género que o impeça, na sua imensa diversidade, de ser universal?
Género humano ou géneros feminino e masculino?
Género …
O que nos une mais do que divide?
Escrevia-me uma amiga minha em reação ao meu texto anterior que o mais belo de ser mulher é ser mãe ( … ) sofrer por amor sem sentir dor.
E o que sinto eu quando crio!?
Anos e anos a fio, até hoje, sem me demover deste sofrimento que dá à luz!?
Que traz à luz …
Como chegámos onde chegámos …!?
Onde sempre e pese embora tudo, parecem prevalecer as questiúnculas que longe de nos unirem cavam divisões!?
Artificialismos sem os quais parecesse que não poderíamos sobreviver e, muito menos, afirmarmo-nos!?
Colocando na dianteira a defesa da nossa lisura pessoal contra a dos demais!?
E quanto mais sofro ainda quando, como agora, em prolongadas dores de parto, tardo em dar à luz como se, afogado no rame-rame sem tino em que chapinhamos, me obstinasse, contudo, em não perder a clarividência!?
Como chegámos até aqui!?
Como cheguei eu até aqui sem perder o fio condutor que me move e que me faz bradar aos céus este meu silêncio ensurdecedor numa imensa vontade de voar para lá do território conhecido sem que a chama se apague e se desdobre em três numa interpelação que não se extinga mais?



num sofrimento sem dor que da dor tem a dor do mundo






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 11 de Março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

HÁ, SE OS HÁ - II -

nebulosa borboleta


Há momentos na vida dos povos e das sociedades em que a Democracia não se compadece com eleitoralismos:
Com audiências;
Com o facilitismo discursivo;
Com o que seria mais conveniente, cómodo fazer-se ouvir.

Há momentos na vida dos povos e das sociedades em que a Democracia não se compadece com a pressão de grupos ou de maiorias qualificadas:
A pressão dos sindicatos;
A força dos lobbies;
As grandes tendências eleitorais que entre eles se desenham.

Há momentos na vida dos povos e das sociedades em que a Democracia não se compadece com quaisquer tipos de imediatismos:
Com soundbites;
Discursos de palmo e meio;
Tonitruâncias de ocasião.

Há momentos em que a Democracia não se compadece com:
Discursos parcelares;
Nacionalismos;
Com a espuma dos dias.

Há momentos em que é preciso muito mais que tudo isso:
Olhar ao âmago;
Sem rodeios e independentemente das consequências;
Independentemente das consequências que sobre nós próprios se possam abater.

Há momentos em que é preciso muito, muito mais que tudo isso:
Passar da crisálida ao voo da borboleta;
Deixá-la livremente respirar;
E ainda que por um só dia.

Há momentos …

Há momentos em que é preciso vencer o medo …
… e nesses momentos à vida toda se troca por um só voo liberto de todos os constrangimentos!

Há momentos em que de um só voo rasgado à Humanidade, no feminino que ela o é, se resgata por inteiro!



da crisálida ao voo da borboleta, no Dia Internacional da Mulher quando da sua opressão mais não resulta do que o aniquilamento da própria Humanidade






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

DE COMO CHEGÁMOS ONDE CHEGÁMOS - I -




Se eu escrevesse em função das conveniências, das audiências tão só, aos assuntos não os aprofundaria nem da verdade poderia ter a presunção de me aproximar.
Esta afirmação levanta, consigo, uma questão ética que se a mim próprio me interpela não deixa, porém, de interpelar todos aqueles a quem me dirijo.
O ato de criação não tem nada de facilidade:
Obriga, seguramente, o criador mas não menos obriga aquele a quem ele se dirige!
Se o destinatário apenas procura a facilidade o mesmo é dizer a comodidade então, o ato de criação fica incompleto porque dele fica omisso aquele a quem se dirigindo, o justifica.
O ato de criação não é apenas obra unívoca ou de um sentido só que apenas envolva aquele que, pretensamente, o desencadeie.
O ato de criação, se nele envolve o autor ou quem o transmite, envolve também o outro autor ou aquele a quem ele se destina, quem o recebe e um terceiro vértice sem o qual, de ambos distanciado, paradoxalmente a ambos os aproxima e põe em contacto:
Uma visão panorâmica, de ambos distanciada mas que, como ponte, entre ambos estabelece comunicação que não se extinga na espuma dos dias.
Quando escrevo não o faço, apenas, por deleite próprio e nem tão pouco para cativar audiências.
Faço-o sempre pensando em estabelecer faísca, circuito, curto-circuito com um hipotético e desconhecido destinatário e se eu permanecer fechado sem outros que não os horizontes do meu casulo, a comunicação, na sua verdadeira e pró-ativa aceção de interpelação, não se estabelece.
Interpelação ou desafio à resposta, a uma reação que essa mesma interpelação desencadeie, obrigando-me a mim bem como àquele a quem me dirijo a sairmos dos nossos casulos ou, como hoje se diz, das nossas zonas de conforto!
Quando dos políticos se diz, com alguma leviandade, que fazem o jogo das conveniências, nem nos damos conta de quanto essa afirmação sobre nós próprios recai, nós que tanto gostamos da nossa zona de conforto e que com eles estabelecemos assim como que um pacto silencioso de cumplicidade que a visa preservar à outrance.
Cumplicidade essa que, aliás, rebenta pelas costuras num tempo em que essa mesma zona de conforto não mais pode deixar de ser questionada …
Cumplicidade que, provavelmente, ajuda a explicar como chegámos até aqui!



de tanto olhar para as audiências o conforto vai-se tornando mais e mais desconfortável






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Março de 2012

domingo, 4 de março de 2012

O QUE SERÁ




Se eu não for mais longe o que será do pouco que tenho e que a maré se encarregará de fazer submergir?
Se eu não persistir contra o oblivion quem, por mim, se encarregará de fazê-lo?
Se não investir contra as muralhas do esquecimento, quem, no meu lugar, o fará por mim?
Faço-o de há muito, escrevendo!
Como escrevia uma amiga minha ‎palavras...leva-as o vento, mas a escrita ultrapassa as barreiras do tempo! Nunca se arrependa de escrever...é a única forma de ser relembrado no futuro e ao que ela me escrevia agarro-me, agora, com unhas e dentes neste momento menos bom!
O que está escrito, escrito fica e aqui, neste suporte, é o que importa reter:
Escrevo e ao escrever ergo a escadaria para lá da maré que permanentemente a desafia a deixar-se ir num irresistível afogamento!
Escrevo, escrevo e escrevo …
E quando escrevo sobrevivo, vivo para lá da circunstância cavalgando santos e demónios, apaziguando uns e aplacando os outros.
Escrevo, escrevo e escrevo …
… e ao fazê-lo cresço e mesmo se julgo minguar em astro obscurecido, baço e sem luz!
Escrevo.



na pessoa de Teresa Xavier, a todos os amigos que me apoiam






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 4 de Março de 2012

sábado, 3 de março de 2012

LAPSO

Giulia Follina, Lapsus


Lapso ou quebra momentânea da memória …
Eis como a gripe me deixou ao encontro, aliás, da ausência maior que, de assalto, a todos nos parece ir tomando!
De que me serviu tudo o que escrevi até aqui?
E que aqui me traz ensimesmado?
Subitamente ensimesmado ou obstinado a investir contra as muralhas do esquecimento?
De que me terá valido isto tudo pois se a memória, ato contínuo, esquece evaporando-se no ardor da febre e do tormento …!?
Como se nada mais importasse do que ter o que está no pouco que vai sobrando!?
Como se, antes pelo contrário, para manter o que está só importasse ir cada vez mais longe …!
Tens sorte, recuperas a saúde, que mais queres!?
Tens o que tens, dá-te por satisfeito, tomara a tantos …!
Conforma-te … não és mais do que ninguém!
Vozes que me assaltam desde sempre como se pondo à prova a minha têmpera …
Tenho sorte …!
Mas o que é isso senão uma construção que cada um molda à sua medida na medida do que constrói!?
Medida a minha que é este meu blogue …
Qual ato de contrição, sempre incompleta ladainha que por escrever impeço que se transforme em lapso maior!
Tenho sorte!?
Toma, então, tu o meu lugar!






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Março de 2012

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

FEBRIL




Há muitos anos, julgo mesmo que desde a minha infância, que não sabia o que era uma gripe.
Pois caiu-me, com todas as letras, uma em cima:
Prostração geral, horas e horas a dormir, noites agitadas, quasi delirantes em ataques de pânico a coincidir com picos de quarenta graus de febre e, agora, já na sua ressaca, a sensação de quem levou um enxerto de pancada com dores no corpo e fraqueza geral a pedirem não mais do que repouso absoluto.

Gripe.
Por este ano estou, naturalmente, vacinado contra ela, assim  me dizia uma colega de trabalho a quem pedi dispensa de, hoje, preventivamente, ir trabalhar.
Que corriqueira mas, simultaneamente, tão incapacitante doença.
Gripe:
A fronteira entre a saúde e a doença?

Durante três dias não peguei numa cigarrilha …
Ardiam-me as entranhas mal as levava à boca!
Retomo, no entanto e aos poucos os meus hábitos, dir-me-ão que maus hábitos, dou-o de barato, nas progressivas melhoras que se vão assinalando.
Retomo, também, o hábito, julgo que o bom hábito de escrever, para da minha gripe deixar aqui o seu registo.

Reabilitado do meu knockout, retomo também os meus canais informativos e, de repente, parece-me, febril, voltar a um mundo profundamente doente:
Fala-se contra a receita da austeridade que não poderia senão conduzir a mais austeridade e, simultaneamente e da mesma boca, alega-se que os ordenados, esses, não poderão senão cair;
Lançam-se palpites sobre a permanência ou não de A ou B no Euro e fazem-se cálculos percentuais sobre as hipóteses de tal poder vir ou não a acontecer;
Transformam-se laureados em bruxos ou videntes e soma-se especulação à especulação!

O mundo está em estado febril!
Numa ânsia de protagonismo nunca antes vista todos se sentem com direito a ele e independentemente das reações em cadeia que possam vir a desencadear que desencadeiam mesmo!
Dar-se-ão, os próprios, conta disso!?
E ainda que apenas para perpetuarem os seus momentos de fama e de glória!?

Febril …
Como em rastilho seco e inflamável, os fogos propagam-se agora em pleno Inverno!

Febril.
Estarei ainda com febre?
O melhor é ir, de pronto, medir de novo a temperatura!












Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Fevereiro de 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

POR QUEM ME TOMO

Wladimir Kush


Sou um cidadão do mundo e, em especial, do mundo democrático, que se exprime em português e convencido que estou que não prevaricando nos meios utilizados posso ir tão longe quanto aquilo que esse mesmo mundo democrático me faculta.
que não prevaricando nos meios … que quero eu com isto dizer?
Que não utilizando meios que à Democracia lhe são adversos, como sejam:
Pouco transparentes, opacos ou dúplices que o mesmo é dizer que exprimam nas costas o que frente a frente não se ousa dizer, dizer ou escrever;
Que não ferindo suscetibilidades, partindo de primícias subjectivas ou levantando falsos testemunhos, valorizando o interlocutor ainda que com ele se possa ser criticamente implacável, elevando, pois, o nível da conversa ou salvaguardando a boa educação não se coíbe, portanto, de ser frontal e, caso disso se trate, inflexível nos princípios;
Que não confunde fins com meios nem acha ser possível que os primeiros justifiquem os segundos independentemente da humanidade que aos segundos dos primeiros os preenchem e realizam.
Assim tenho e faço tensões de continuar, como de há muito, a permanecer!

Por quem me tomo?
Não prevaricando como atrás o sublinhei, posso-me, como a prova do tempo o vai assinalando, tomar-me por nada, quase nada, pouco ou muito …

Nada.
Um zé-ninguém …
Uma agulha num palheiro!
Irrelevante e dispensável contributo para o aprofundamento da Democracia.

Quase nada.
Um entre muitos que dos muitos não se distingue!

Pouco.
Pouco no muito pouco em que me pudesse destacar …

Muito.
Tudo o que me aprouver e que não fira a própria Democracia …
Que A aprofunde como a prova do tempo na Obra realizada o vai, paulatinamente, demonstrando!
Teimosamente insistindo em não prevaricar na equidistância pela qual, sistemática e globalmente, zelo e pese embora a muralha de silêncio que à minha volta faz questão em se manter.

E porque não tomar-me por muito!?
Haverá algo que a isso, legitimamente, me o possa impedir!?
Não poderei fazer por manter tão panorâmicos quanto desde há muito, os horizontes que vislumbrei!?
No imperioso reconhecimento do um, do singular, do cidadão comum, sem o qual e sem beliscar o próprio sistema democrático, é este mesmo que se desenraíza e fica a descoberto!?
Na salvaguarda das próprias garantias que ao longo do tempo tenho feito questão em sublinhar e deixar expressas!?
Aqui, como sempre e por escrito!?

Por quem me tomo …
Tomo-me por quem sou e que a minha escrita traduz!
Tomo-me por singular que no universal se revê e identifica.
Tomo-me pelo um sem o qual o zero, o institucional absorvente, se vê permanentemente tentado a anular-nos.
Um sem o qual a Democracia tende, perigosamente, a esvaziar-se!
Tomo-me por aquele que escudado no seu próprio lastro que este blogue é como registo e testemunho, se sente já com à-vontade suficiente para, escrevendo, publicamente o admitir!



se as democracias se revelam incapazes de ir mais longe do que a pressão dos lobbies permanecendo sem rosto, o que poderemos nós, efetivamente e a prazo, delas esperar









Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Fevereiro de 2012