quinta-feira, 15 de março de 2012

CEGO, SURDO E MUDO - I -




Escrevo este soneto surdo e mudo
cego ao que me chega e não é tudo
preso ao que a cantar num dedilhar
vos trago para lá de um triste olhar

Se vê aquilo que canto é um radar
que vê mais do que vejo por pensar
nas ondas deste mar encapelado
que a todos nos atingem lado a lado

Se ouve o que não ouve quero e mudo
aqui neste lugar sem ter lugar
as coordenadas rígidas deste fado

Se canta não se ouve mas ao teu fardo
mais leve o quer tornar quer sejas surdo
ou mudo ou cego inspira-me o meu estar


 

aos que da ausência destes sentidos padecem
e numa paralisia anestésica


 
escrito ontem de madrugada sem outra música que não esta


 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Março de 2012

terça-feira, 13 de março de 2012

QUANDO COMEÇO A ESCREVER




Muitas vezes, tal como agora, quando começo a escrever não sei como o texto evoluirá e, muito menos, como se concluirá.
Inicio, assim, uma viagem com destino incerto.
Interrogo-me, então, se valerá a pena prossegui-la.
É, no entanto, sempre mais forte o impulso afirmativo que me sussurra que sim, que basta, então, seguir o murmúrio que me acompanha e ir deixando-o, paulatinamente, aqui registado até que este se extinga num texto que acabará por fazer todo o sentido.
Fá-lo-á apenas para mim?
O sussurro vai e vem …
Por vezes, o sussurrante murmúrio deixa de se fazer ouvir e, nessas alturas, não há como não força-lo.
Interrompo, assim, a minha escrita e passo a outra coisa qualquer, sempre na esperança de que o seu fluxo retome o seu curso o que, amiúde, acaba por acontecer.
Outras vezes, volto atrás e releio tudo o que até então escrevi e, tomado desse balanço, o que parecia ter-se extinguido, brota de novo em retemperado impulso.
Se passo a outra coisa qualquer, não é menos verdade que ele se fará, mais cedo ou mais tarde, de novo ouvir.
Também pode acontecer que fique com a sensação de estar a chover no molhado.
Como agora, neste preciso momento …
Nessas alturas dá-me vontade de apagar tudo o que até aqui escrevi mas resisto sempre, quase sempre a essa tentação.
Contam-se, provavelmente, pelos dedos de uma só mão as vezes em que a vontade de apagar, ao longo dos anos, terá prevalecido!
Há sempre qualquer coisa que me diz que aquilo que escrevi, escrito está, faz parte do meu percurso e que não dá para apagá-lo.
Para eliminá-lo de mim mesmo …
Como se, se o fizesse, na folha que se desdobra, à minha sombra a estivesse, qual memória do que sou, a apagar também!
E continuo, invariavelmente, a escrever.
Como se a escrita fosse parte de mim mesmo, um irrecusável e complementar, silencioso e musical prolongamento para lá das dobras que me compõem.
Quando começo a escrever pressinto que chegarei a bom porto e quando, finalmente, o vislumbro dou graças de não ter arrepiado caminho.
Dou graças de não ter apagado de mim o que, por fim, se vislumbra e sem o que, a este texto, outros não se lhe seguiriam, pelo menos nesta sequência, ato após ato quais quadros da minha vida e ainda que, aparentemente, possa parecer que sobre nada Vos tenha escrito!
No momento que transcorre, que seria de mim sem esta fiel e colada sombra que sempre me acompanha?
Num ato de resistência forço e forço o traço uma e outra vez mais ainda …
Sempre!



sob o espectro das ruínas que nos cercam






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Março de 2012

domingo, 11 de março de 2012

DE COMO CHEGÁMOS ONDE CHEGÁMOS-III-




Se eu escrevesse em função das conveniências, das audiências tão só, aos assuntos não os aprofundaria nem da verdade poderia ter a presunção de me aproximar, repego do penúltimo texto que escrevi.
Mas haverá maior audiência do que mais de metade do céu …!?
Entre o fechamento no casulo e o voo livre da borboleta há assuntos que apenas à falta de clara assunção, num sempre latente impulso reversivo, se tornam fraturantes.
O que impede a igualdade de géneros?
Melhor ainda:
O que há no género que o impeça, na sua imensa diversidade, de ser universal?
Género humano ou géneros feminino e masculino?
Género …
O que nos une mais do que divide?
Escrevia-me uma amiga minha em reação ao meu texto anterior que o mais belo de ser mulher é ser mãe ( … ) sofrer por amor sem sentir dor.
E o que sinto eu quando crio!?
Anos e anos a fio, até hoje, sem me demover deste sofrimento que dá à luz!?
Que traz à luz …
Como chegámos onde chegámos …!?
Onde sempre e pese embora tudo, parecem prevalecer as questiúnculas que longe de nos unirem cavam divisões!?
Artificialismos sem os quais parecesse que não poderíamos sobreviver e, muito menos, afirmarmo-nos!?
Colocando na dianteira a defesa da nossa lisura pessoal contra a dos demais!?
E quanto mais sofro ainda quando, como agora, em prolongadas dores de parto, tardo em dar à luz como se, afogado no rame-rame sem tino em que chapinhamos, me obstinasse, contudo, em não perder a clarividência!?
Como chegámos até aqui!?
Como cheguei eu até aqui sem perder o fio condutor que me move e que me faz bradar aos céus este meu silêncio ensurdecedor numa imensa vontade de voar para lá do território conhecido sem que a chama se apague e se desdobre em três numa interpelação que não se extinga mais?



num sofrimento sem dor que da dor tem a dor do mundo






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 11 de Março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

HÁ, SE OS HÁ - II -

nebulosa borboleta


Há momentos na vida dos povos e das sociedades em que a Democracia não se compadece com eleitoralismos:
Com audiências;
Com o facilitismo discursivo;
Com o que seria mais conveniente, cómodo fazer-se ouvir.

Há momentos na vida dos povos e das sociedades em que a Democracia não se compadece com a pressão de grupos ou de maiorias qualificadas:
A pressão dos sindicatos;
A força dos lobbies;
As grandes tendências eleitorais que entre eles se desenham.

Há momentos na vida dos povos e das sociedades em que a Democracia não se compadece com quaisquer tipos de imediatismos:
Com soundbites;
Discursos de palmo e meio;
Tonitruâncias de ocasião.

Há momentos em que a Democracia não se compadece com:
Discursos parcelares;
Nacionalismos;
Com a espuma dos dias.

Há momentos em que é preciso muito mais que tudo isso:
Olhar ao âmago;
Sem rodeios e independentemente das consequências;
Independentemente das consequências que sobre nós próprios se possam abater.

Há momentos em que é preciso muito, muito mais que tudo isso:
Passar da crisálida ao voo da borboleta;
Deixá-la livremente respirar;
E ainda que por um só dia.

Há momentos …

Há momentos em que é preciso vencer o medo …
… e nesses momentos à vida toda se troca por um só voo liberto de todos os constrangimentos!

Há momentos em que de um só voo rasgado à Humanidade, no feminino que ela o é, se resgata por inteiro!



da crisálida ao voo da borboleta, no Dia Internacional da Mulher quando da sua opressão mais não resulta do que o aniquilamento da própria Humanidade






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

DE COMO CHEGÁMOS ONDE CHEGÁMOS - I -




Se eu escrevesse em função das conveniências, das audiências tão só, aos assuntos não os aprofundaria nem da verdade poderia ter a presunção de me aproximar.
Esta afirmação levanta, consigo, uma questão ética que se a mim próprio me interpela não deixa, porém, de interpelar todos aqueles a quem me dirijo.
O ato de criação não tem nada de facilidade:
Obriga, seguramente, o criador mas não menos obriga aquele a quem ele se dirige!
Se o destinatário apenas procura a facilidade o mesmo é dizer a comodidade então, o ato de criação fica incompleto porque dele fica omisso aquele a quem se dirigindo, o justifica.
O ato de criação não é apenas obra unívoca ou de um sentido só que apenas envolva aquele que, pretensamente, o desencadeie.
O ato de criação, se nele envolve o autor ou quem o transmite, envolve também o outro autor ou aquele a quem ele se destina, quem o recebe e um terceiro vértice sem o qual, de ambos distanciado, paradoxalmente a ambos os aproxima e põe em contacto:
Uma visão panorâmica, de ambos distanciada mas que, como ponte, entre ambos estabelece comunicação que não se extinga na espuma dos dias.
Quando escrevo não o faço, apenas, por deleite próprio e nem tão pouco para cativar audiências.
Faço-o sempre pensando em estabelecer faísca, circuito, curto-circuito com um hipotético e desconhecido destinatário e se eu permanecer fechado sem outros que não os horizontes do meu casulo, a comunicação, na sua verdadeira e pró-ativa aceção de interpelação, não se estabelece.
Interpelação ou desafio à resposta, a uma reação que essa mesma interpelação desencadeie, obrigando-me a mim bem como àquele a quem me dirijo a sairmos dos nossos casulos ou, como hoje se diz, das nossas zonas de conforto!
Quando dos políticos se diz, com alguma leviandade, que fazem o jogo das conveniências, nem nos damos conta de quanto essa afirmação sobre nós próprios recai, nós que tanto gostamos da nossa zona de conforto e que com eles estabelecemos assim como que um pacto silencioso de cumplicidade que a visa preservar à outrance.
Cumplicidade essa que, aliás, rebenta pelas costuras num tempo em que essa mesma zona de conforto não mais pode deixar de ser questionada …
Cumplicidade que, provavelmente, ajuda a explicar como chegámos até aqui!



de tanto olhar para as audiências o conforto vai-se tornando mais e mais desconfortável






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Março de 2012

domingo, 4 de março de 2012

O QUE SERÁ




Se eu não for mais longe o que será do pouco que tenho e que a maré se encarregará de fazer submergir?
Se eu não persistir contra o oblivion quem, por mim, se encarregará de fazê-lo?
Se não investir contra as muralhas do esquecimento, quem, no meu lugar, o fará por mim?
Faço-o de há muito, escrevendo!
Como escrevia uma amiga minha ‎palavras...leva-as o vento, mas a escrita ultrapassa as barreiras do tempo! Nunca se arrependa de escrever...é a única forma de ser relembrado no futuro e ao que ela me escrevia agarro-me, agora, com unhas e dentes neste momento menos bom!
O que está escrito, escrito fica e aqui, neste suporte, é o que importa reter:
Escrevo e ao escrever ergo a escadaria para lá da maré que permanentemente a desafia a deixar-se ir num irresistível afogamento!
Escrevo, escrevo e escrevo …
E quando escrevo sobrevivo, vivo para lá da circunstância cavalgando santos e demónios, apaziguando uns e aplacando os outros.
Escrevo, escrevo e escrevo …
… e ao fazê-lo cresço e mesmo se julgo minguar em astro obscurecido, baço e sem luz!
Escrevo.



na pessoa de Teresa Xavier, a todos os amigos que me apoiam






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 4 de Março de 2012

sábado, 3 de março de 2012

LAPSO

Giulia Follina, Lapsus


Lapso ou quebra momentânea da memória …
Eis como a gripe me deixou ao encontro, aliás, da ausência maior que, de assalto, a todos nos parece ir tomando!
De que me serviu tudo o que escrevi até aqui?
E que aqui me traz ensimesmado?
Subitamente ensimesmado ou obstinado a investir contra as muralhas do esquecimento?
De que me terá valido isto tudo pois se a memória, ato contínuo, esquece evaporando-se no ardor da febre e do tormento …!?
Como se nada mais importasse do que ter o que está no pouco que vai sobrando!?
Como se, antes pelo contrário, para manter o que está só importasse ir cada vez mais longe …!
Tens sorte, recuperas a saúde, que mais queres!?
Tens o que tens, dá-te por satisfeito, tomara a tantos …!
Conforma-te … não és mais do que ninguém!
Vozes que me assaltam desde sempre como se pondo à prova a minha têmpera …
Tenho sorte …!
Mas o que é isso senão uma construção que cada um molda à sua medida na medida do que constrói!?
Medida a minha que é este meu blogue …
Qual ato de contrição, sempre incompleta ladainha que por escrever impeço que se transforme em lapso maior!
Tenho sorte!?
Toma, então, tu o meu lugar!






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Março de 2012