segunda-feira, 9 de abril de 2012

ARREDONDADAS PERGUNTAS - I -

flores cativas é o que não somos, fotografia de mb



Quando será que muitos dos políticos no ativo aprendem que se é para dar más notícias mais vale darem-nas todas frontais, equitativas e, se possível, de uma só vez?
Quando será que muitos dos políticos no ativo, a não agirem em conformidade dela persistindo, por meias palavras, em se servir, à Democracia deixarão de prestar um mau serviço?
Quando será que muitos dos políticos no ativo, deixando-se de tacticismos que tanto ajudam a explicar o ponto a que chegámos, no Serviço que deveriam prestar, o passarão a prestar com um S passando, eles também, a ser considerados com um P, ambos escritos com maiúsculas?
Quando será!?
Quando será que muitos dos políticos no ativo nos deixarão de tomar por aquilo que não somos ou pelo reflexo que apenas a eles próprios os determina?

  

ao longe vê quem vê de longe



  

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Abril de 2012

sábado, 7 de abril de 2012

DICOTÓMICOS CAMBIANTES DE UM RENASCER

fotografia de Armando C.F. Palhau




No dia em que sobrar um travo amargo
em meu paladar então o que trago
saberei se não renasce e o que morre
é tudo o que em mim cola e não me foge 

Se de minhas ruínas nada ocorre
em construção que me socorre
é porque o que delas sobra é peso e fardo
perfurante dor de um simples cardo

Pode renascer o astro ao largo
da noite para o dia lado a lado
que em mim se desmorona andaime e torre

Seca a nascente o que então sobra
é abalo que destrói a minha obra
no que nela a pulso ergo e é meu fado


o sol sempre renasce


Naquilo que construo em minha obra
por entre meus andaimes não soçobra
e deles raia o astro que é nascente
depois de sucumbido e ser poente 

Naquilo que construo o que invente
é muito mais que aquilo que me sobra
de mim apenas é o que se sente
do sol é tudo o mais a toda a hora

Tudo o que escondido fica de fora
de mim aquilo que tem não corrobora
tudo o mais que tenho em minha mente 

Já que aquilo que tenho em mim não mente
renasce sempre de novo e é crescente
vontade que de mim não vai embora


( escritos pela ordem inversa )


andaime ou entrelaçado de muitas cruzes




Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

TERRA QUEIMADA





Queimada a terra insiste em ser cantada
não esconde quanto aqui quer ser amada
ai terra minha nesta quadra
quanto mais por ti serei enxada

No que revolvo nela encontrarei
tudo o que previ e chorarei
o tempo que esquecido não gastei
naquilo que por fim em ti deixei 

Por muito que a preto e branco a vi chorada
de ti nascerá flor encarnada
livre na igualdade que sublinhei 

Em laivos de verde esperança a encimei
ai terra minha em pranto sei
que a cor não se sumiu como uma ladra


na luz, a cor
 

 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Abril de 2012

quarta-feira, 4 de abril de 2012

POSSO




Posso falar de tudo e nada
daquilo que rasteiro pela estrada
insinua quase nada especulante
e se quer tornar notícia num instante 

Posso querer dizer do meu levante
tudo o que ergo de rompante
quando o bota a baixo é uma maçada
uma sova que nos enche de estopada 

Posso num soneto e de enfiada
dizer muito mais na caminhada
que mais de mil notícias perfurante

Já que num soneto aquilo que cante
o canto bem sonante e ao infante
defino sem escrever o que o enfada
 

aquilo que posso
 

 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 4 de Abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

PLANISFÉRIO





Ide ao rodapé deste meu blogue
e vede a pontuação que não lhe foge
visitas que se avolumam e que me ocorre
dizer serem as marcas de um bom acorde 

Ide e contemplai como ele ecoa
no rasto que ele deixa e a mim me soa
como dos corações a luz que voa
vibrante qual emoção que em mim me doa

Vermelhos da cor do sangue de pontos chove
quando alguém o consulta numa ode
derrame de meus porquês que a mim me move 

Propagação no ar de minhas loas
prólogo de meu cantar são estas broas
quer rejeitem ou as incluam em suas coroas


ide e vede o vermelho que aqui brilha
 



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Abril de 2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

CANTO BREVE

fotografia de mb




Encho de palavras o meu mar fecundo
estéril que não é desta minha verve
é este meu mar um lugar sem fundo
cristalinas águas de monção que ferve

Tempo favorável a navegar se atreve
a ir de um ponto ao outro a escalar o mundo
do meu ao teu lugar canto de almocreve
que ecoa sem parar e deste choro inundo

Sendo este meu mar o que vos deixo é tudo
assertivo ver de um olhar miúdo
escreve-se no ar virtual e breve
é como uma prece que a florir me leve

Leve como a pena que a voar te escreve
que mais vale jogar as páginas deste ludo


florais são os jogos que eu te canto
 



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Abril de 2012

sábado, 31 de março de 2012

FORMA E CONTEÚDO - II -





Usei, precisamente, um soneto para esgrimir argumentos sobre a relação entre forma e conteúdo.
Haverá forma literária e paradigmática mais rígida do que aquela que preside à construção de um soneto …?
Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, soneto ou composição poética formada de dois quartetos e de dois tercetos.
Ou ainda, na sua estrutura e segundo a Wikipédia:
O soneto pode ser apresentado em três formas de distribuição dos versos:
Soneto italiano ou petrarquiano: apresenta duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos);
Soneto inglês ou shakespeariano: três quartetos e um dístico;
Soneto monostrófico: apresenta uma única estrofe de 14 versos.
Depois, ele há as variáveis da rima, do ritmo e da métrica, em si mesmas musicalidade e matemática, conteúdos que lhe estão implicitamente escondidos …
Forma tão antiga de composição poética quanto remonta ao século XIII e que chamei, aqui, à colação!
Aqui, num simples soneto onde, obedecendo a uma rígida estrutura formal a instilo de conteúdo e, exatamente, para falar da relação entre forma e conteúdo, tão velhas reflexão e polémica a preencherem páginas e páginas sem fim, forma e conteúdo que o são indissociáveis do soneto.
Ou melhor, onde, precisamente por, na sua construção, ter de obedecer a tão estritos cânones formais estes e talvez por isso mesmo se preenchem de conteúdo!
Forma e conteúdo.
Tenho, invariavelmente, a sensação de que é aí que reside a criatividade:
Aí, no cumprimento de estritas regras formais ou para dizê-lo de outra maneira, no cumprimento de rígidos constrangimentos ou suor que nos possam condicionar e, logo, desafiar ou fazer inspirar, respirar também.
Naquela pequena margem que pesem as estritas regras a que não podemos fugir, repito, sempre existe!
Aliás, que maior rigidez do que aquela que da palavra não nos deixa fugir?
Palavra, como ela se escreve na composição, na sua relação com todas as outras?
Simbologia sem a qual não criaríamos fosse num simples soneto ou de qualquer outra forma?
Palavra.
Logo na palavra a forma e o conteúdo!
Na palavra …



Na palavra e nos seus traços encontrava
o que crio para lá do que lá estava
nela vejo de sobejo o que não via
quando a escrevo e quando a penso porque a lia
Nos meus versos ou na prosa que ela cria
neles sinto o que lá cabe e a maresia
todo o mar nas marés que cavalgava
mais ainda o universo que cantava
Na palavra cabe a forma que a moldava
cabe tudo e o oceano que a banhava
sem o qual nem ao sal o soletrava
Sem o qual nem às partículas sentia
nem tão pouco à vontade a soerguia
que a preenche quer de noite e quer de dia



no traçado de uma palavra, o conteúdo






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 31 de Março de 2012