quarta-feira, 11 de julho de 2012

LINHAS DE FORÇA





E se, prova de que a realidade, acelerada, vai muito à frente dos nossos desejos ou da interpretação que dela fazemos, tudo e nomeadamente a crise que, em especial, assola a Europa, estivesse a ser abordada do seu anverso?
E se, na Europa, aqueles países que estão debaixo de ajuda externa, sujeitos a um resgate, portanto, pelos constrangimentos a que estão obrigados, afinal, mais preparados estivessem para a mudança de Paradigma que se torna irreversível?
Protetorados?
E se a Europa se quer afirmar como voz política única entre iguais na arena internacional, o que restará às nacionalidades europeias senão protegerem-se umas às outras?
O que lhes restará senão abdicarem das suas em nome de uma soberania maior em que se possam e devam rever?
Um grande e rico da Europa já não é nada no contexto da globalização pese embora poder viver ainda confundido nessa ilusão.
Um pobre e pequeno sabe, contudo, que sozinho não subsiste.
E depois, que austeridade ou que crescimento?
Uma coisa é certa, todos o sabemos, nem que mais não seja em nome de equilíbrios ecológicos que nos ultrapassam, que não podemos continuar a crescer como dantes.
Há, ainda, um défice democrático na construção europeia, talvez de todos o mais gritante dos défices, que importa resolver rapidamente e sem mais hesitações.


linhas de força para uma reflexão estratégica que se interligam mas que não podem perder de vista que no centro está, concreta, a pessoa humana


dali para aqui




Jaime Latino Ferreira
Estoril, 11 de Julho de 2012


segunda-feira, 9 de julho de 2012

RONDAS

Rembrandt, A Ronda da Noite





Sempre que clicar aqui verá a minha produção, permanentemente, atualizada.


Se me lês à superfície
imóvel estou por aqui
corre um fluxo subcutâneo
deste meu blogue subterrâneo 

Linha de água movediça
onde me assento e que atiça
as minhas águas profundas
ondas de minhas rondas

No aparente
imobilismo
um fluxo corre
e eu cismo
qual a superfície
se esta
ou a sua fresta 

Janelas
que se entrecruzam

rondó



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Julho de 2012


sexta-feira, 6 de julho de 2012

AQUI E ALI

Graça Morais




Quando não estou aqui
estou ali

Nas suas características próprias
ambos os suportes
complementam-se

Felizmente
não tenho o dom da ubiquidade


 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Julho de 2012


segunda-feira, 2 de julho de 2012

ILUSÃO E/OU DEONTOLOGIA

da transparência ou da falta dela




o que aqui Vos deixo é tanto mais pertinente quanto, para o bem como para o mal e quer o queiramos quer não, os média tradicionais são, quais filtros a seu belo prazer reduzidos a lentes côncavas ou convexas, interposições entre nós e a vida pública ou entre nós e a vida real, transparência adulterada do tempo que faz


Intencionalmente, deixei que terminasse o europeu de futebol para, agora sim e não fosse pensar-se nalgum mau perder da minha parte, me pronunciar a esse propósito já que aquilo de que escrevo corresponde, julgo eu, a um fenómeno universal e não apenas típico deste meu torrão de terra.
Aproximadamente, durante um mês e nas televisões, com particular incidência para aquelas de sinal aberto mas não só, não se ouviu falar de outra coisa senão do Euro.
Até aqueles programas de informação geral ou talk shows habituais foram, em seu nome, condicionados ou completamente suprimidos das grelhas, em qualquer dos casos preteridos em função desse acontecimento maior de tal maneira que, a própria e tão badalada, omnipresente crise se subsumiu.
Todos esses canais alimentaram a ilusão da vitória até ao limite do possível ou do intolerável, ao sabor nacional a que as várias seleções iam sendo, progressivamente, eliminadas e até que a vitória, por fim, a uma delas lhe sorriu envolvendo os seus adeptos no clímax da ilusão que, não menos rapidamente, ela própria se subsumirá caindo, por fim, todos em si.
É certo que não existe incompatibilidade entre deontologia e espetáculo ou ilusão antes se complementam mas quando o elo entre uma e os outros se quebra …

Ilusão e deontologia.
Nestas alturas vê-se bem onde fica, a este nível, a deontologia profissional dos jornalistas ou até que ponto ela não se rende, objetivamente, à cativação de audiências.
Confesso que estar um mês sem ouvir falar de crise ou, para ser mais exato, não menos do euro, até me soube muito bem.
Envolvi-me, como nunca, na observação do campeonato mas tenho, sempre tive e não perdi o discernimento bastante para achar que o exagero atingiu o seu paroxismo.
Uma vergonha descarada é o que diria.
Será que, nesta ótica, a crise transportará, uma vez que esta, rapidamente, voltará a ocupar todas as parangonas já que, tal como a vitória, a derrota cativa, ela também, toda a morbidez das audiências, assim o pressupõem, pelo menos, os gurus destas matérias, na omnipresença que a tem caracterizado e que arrastaria consigo, tal como a vitória e explorando a suposta incredulidade geral de que partem, igual carga de ilusão na autocomiseração gémea da euforia que a caracteriza?

O Euro cumpriu-se e, com ele, a vitória que apenas a uma das seleções a contemplou, a melhor diria, é um facto e não poderia ter deixado de ser assim.
A crise do euro também existe e ela, contaminante e também por arrasto derivado da sua permanente omnipresença explorada até ao tutano, existe sobremaneira, este é outro facto e poderá deixar de ser assim?
Mas daí até vivermos, permanentemente, nesta ciclotimia que ora nos arrasta para o fundo, ora nos eleva aos píncaros, essa é uma doença que aos próprios média, explorando, intencionalmente ou não, ora a vitória, ora a derrota, ora a ventura, ora a desventura fazem, objetivamente, por trazer à tona a falta de deontologia profissional que, afinal e quantas vezes, os parece nortear.
Espetáculo ou informação, ilusão sem deontologia?
Ou, afinal, apenas crise dos média tradicionais?
De tal modo que, para sobreviverem, à deontologia parece terem de mandar, pura e simplesmente, às urtigas?

É demais, que imenso despudor!
Ao que os média, na pessoa dos seus agentes, se parecem sujeitar para preservar os seus postos de trabalho ou para, em seu próprio e exclusivo benefício, poderem sacar lucros chorudos o que vai a dar no mesmo!
Tudo por um prato de lentilhas!?
Com a gravidade acrescida de se parecerem presumir ou ter a veleidade de pressupor, perentórios e, quantas vezes, com que tamanha arrogância julgando-se intocáveis, estar a cumprir um serviço público!?
Que mais se seguirá!?
Qualquer dia, pressupondo estarem a dar uma má notícia todos nós presumiremos que ela é boa ou pressupondo-a boa de antemão saberemos que ela é má demais.
Corrijo desbastando, aparando, contendo a pulsão ciclotímica em que os média se terão tornado, não apenas peritos, mas contagiantes e ativos agentes patológicos:
Qualquer dia, não se tratando nem de derrota nem de vitória ou nem muito antes pelo contrário, todos e muito antes deles, dos média tradicionais, já teremos percebido que na derrota anunciada se aprende mais do que na vitória e que nesta, desde que não nos trepe à cabeça, se encontrará um patamar anticíclico que, quem sabe e pese toda a desinformação que por aí pulula, se poderá tornar em paradigma de verdadeira sustentabilidade que eles, os média tradicionais, como se vê, não podem nem conseguem estar à altura de cumprir, atolados na bipolaridade que os mina.


rebe béu pardais ao ninho


 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Julho de 2012


terça-feira, 26 de junho de 2012

COMO






No texto anterior sublinhei importantíssimo este como.
Se eu bater em alguém, no meu futuro, esse ato de violência recairá, seja de que maneira for, sobre mim próprio.
Às sociedades e por mais livres e democráticas que elas o sejam, ainda hoje lhes são cobrados os passados de violência que as moldaram, esse pecado original que ao poder o constrange e que na sua génese, dela guarda a desconfiança que para o poder, como usurpador, sempre o olha.
Nos meios, por isso, os fins em si mesmos.
De como aja, de como cada um de nós aja ou as sociedades no seu conjunto, assim o vislumbre de futuro que se desenha e que no passado, suas raízes, se entronca.
A violência física ou psicológica e tanto mais quanto gratuita o seja, nunca são gratuitas.
Elas lançam os germes que se viram contra quem, com o poder irremediavelmente se identificando, o detém ou pratica.
Ou praticou.
Sempre olhado como usurpador, o poder não se consegue livrar dessa mácula que consigo e por mais democráticas que as sociedades o sejam, transporta.

A Terra, esse cristal de quartzo que coabitamos, refrata.
Refrata a luz em cor.
No espectro que o irradia em planeta azul.
Miragem de todas as miragens, lente liquefeita que, como poliédricos pequenos cristais, nos faz emergir.
Refrata o espaço/tempo em entidades distintas ao tempo o subdividindo em Passado, Presente e Futuro e ao espaço lhe conferindo profundidade tridimensional.
Refrata a energia no que se vê e ouve, em cor e em som a este último o divorciando do silêncio que, residual se torna em íntima abstração.
Sim.
Vivemos mergulhados no som já que tudo se move e, logo, o produz e ao silêncio que na música se expressa o vamos sacar ao som das esferas.
Das exteriores e das mais íntimas de nós mesmos.
Sendo ele predominante no Universo.
Refração.
Refração que nós próprios o somos qual bolha de água e de ar, envoltos em fina película aderente, concentrada.

Como, de como tudo depende de tudo o mais.
De como aja.
De como as sociedades, no seu conjunto, ajam.
De como livrar o poder dessa mácula de violência já que, na globalização, na fragilização crescente que esta acarreta, se torna imprescindível.
Ou imaginais o Globo mergulhado no vazio de poder, em revolução permanente ou em guerra!?
De como ao poder o livrá-lo, na crescente fragilização do habitat que nos alberga e tanto mais quanto à luz da minha Hipótese encarada, dessa desconfiança que, longe de, democrático porque só o poderá ser, o potenciar galvanizando a Humanidade para lá de credos, culturas e nações para as tarefas de verdadeira sobrevivência a que é desafiada, sob pena de perder a qualidade de vida que, em partes crescentes do Globo, já alcançou!?
Como!?
Como e tanto mais quanto preocupantes sinais se adensam que a mim, salvaguardando a indispensável equidistância, trunfo esse que, por dever, não posso deixar de deter, me leva a abster de os nomear quebrando o círculo de violência que a todos nos flagela.
Assim:
Agindo vis-à-vis o poder como parte entre iguais que somos, o poder e cada um de nós no poder soberano que detemos, individual e pacificamente, com toda a transparência e na resiliência que de há muito, no meu agir, me caracteriza.
Permanecendo como eu permaneço aprofundando, com toda a abertura, a Doutrina Política Geral para que todas as particulares e democráticas se potenciem!
Em representação, repito, meramente residual.
À imagem dos grandes fautores de Paz no silêncio que a mim, aqui e por ora, me vou impor.


 

 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Junho de 2012


segunda-feira, 25 de junho de 2012

TEMPO PRESENTE





O tempo presente é o resultado da conjugação das coordenadas Passado e Futuro.
A bem dizer, o Presente não existe, mal passa foi-se.
Passado e Futuro esses estão sempre bem presentes, não gozam de nenhuma rigidez e de como os olhemos alteram, condicionam o tempo que passa:
Conforme os olhemos no sentido que lhes atribuamos como não, assim o momento presente converge ou não numa determinada direção.
Se eu vir ou não poder deixar de ver o meu passado como fechado ou o meu futuro como pré-definido ou determinado, então, o meu presente é, ele também, definitivo.
Se, pelo contrário, para eles, Passado e Futuro, os olhar como não definitivos, interativos com o meu livre arbítrio, com a minha capacidade de decisão, comigo próprio ou com a minha Liberdade, assim eles movem-se e se ajustam, adquirem outra e maleável profundidade.
Isto dentro de parâmetros de relatividade e nunca se a esses parâmetros, caindo no relativismo absoluto, os não tivermos em linha de conta.
Explico-me melhor:
Não se pode fazer tábua rasa da História, seja ela individual ou coletiva mas conforme a interpretemos assim também o que será virá ou não a ser assim e mesmo se independentemente do nosso tempo de vida útil ou, pura e simplesmente, de vida.

No que toca ao Passado, não será difícil admitir que assim seja mas quanto ao Futuro, aí, as coisas poderão fiar mais fino.
Eu sou o Futuro do Passado e tu também o és.
Então por que é que não evoluímos todos num mesmo sentido?
Se o Passado tem muitos passados, tantos quantos aqueles que somos o Futuro, esse também, por quantos somos tantos mais os serão.
E ele, o Futuro, é parte da malha que nos envolve e que vai do Passado ao Futuro.
Conforme o Passado em interação com cada um de nós assim o somatório dos futuros que no Futuro se espelha.
Dinâmico, tão dinâmico e interativo quanto o Passado.
Eu vejo um futuro aberto e tudo faço para que assim seja e ele abrir-se-á.
Tu vês um futuro fechado e nada fazes ou nada julgas poder fazer para que o contraries e ele fechar-se-á sobre ti próprio.

Ambos, Passado e Futuro, estão bem presentes, diria mesmo que são o momento presente.
Estão connosco quer nos vestígios materiais como imateriais do Passado sempre por redescobrir quer nos desejos, objetivos, anseios de Futuro.
No que a este último lhe concerne a Arte tem dele, do Futuro, um especial condão de adivinhação ou premonição.
Do Passado, aos seus vestígios também os tem e não poderia deixar de ser assim já que ela o transporta ou catapulta para o Futuro.
Da Arte pode-se então dizer que transporta consigo vestígios do Passado como do Futuro
Não há, aliás, Futuro sem Passado e o contrário também o poderá ser dito.
Vivemos como se numa miragem.
E o que essa miragem nos diz é que só vemos, só vivemos aquilo que quisermos, podermos ver e só vemos se estivermos em condições, fizermos por o ver.
E como, importantíssimo este como, o vemos!
Se no meu Passado eu não visse sinais de Futuro, o meu presente seria completamente sufocante.
Mas como em ambos a ambos, nos sinais de abertura que consigo transportam, os vejo, o meu presente e logo neste meu texto que aqui se conclui, respira e liberta-me.


o Presente é o Passado do Futuro




Jaime Latino Ferreira
Estoril, 25 de Junho de 2012


domingo, 24 de junho de 2012

RÉPLICA A REINALDO FERREIRA

José de Guimarães, Camões e D. Sebastião




receita para fazer um herói


Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.




receita para um homem comum


Tomo-me a mim
feito do nada
como o sou
e no nada encontro tudo 

Embebo-me em verve
dia após dia
forte na convicção
racional
intensa como bate o coração

Depois
agito uma batuta
e canto num clamor sem fim 

Vivo
pois aqui vos sirvo
 

cozinhado com os ingredientes devidamente balanceados
 

 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Junho de 2012
Reinaldo Ferreira