sexta-feira, 20 de julho de 2012

CANÍCULA

Kevin Sloan




Tempo de Verão
e o calor
escorre lesto
minha flor
e incendeia
de cor
de brasa
o meu amor

Tempo de Verão
sem rancor
fogos atiça
de dor
sei de cor
este clamor
com que cubro
 o meu andor 

Tempo de Verão
não me para
nem ampara
o teu estertor
agonia
com que o vento
sara feridas
com ardor
 

 na encruzilhada do Verão
 

dali para aqui ou de como o meu mural, mantendo a sua autonomia como suporte de linguagem mais direta, funciona também como caderninho de esquissos ou esboços, estudos, rascunhos que aqui se vão, revistos se necessário, de quando em vez publicando
 

 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 20 de Julho de 2012


quarta-feira, 18 de julho de 2012

IN MANDELA'S DAY

Edward Hopper, Office in a Small City





Se num tempo de tantos constrangimentos de outra coisa não se falar senão deles mesmos, corremos o risco, não apenas de ficar como de morrer estúpidos.
Metaforicamente é a diferença entre viver-se numa cela sem ou com vista:
Aprisionados, sabemos que estamos confinados a um espaço exíguo mas, se a ele somado não conseguirmos ver para lá dele, o isolamento esmaga-nos.
Porém, se nos for dado contemplar a vista que para lá da cela se espraia, para lá dela voaremos e saberemos que mais há do que a prisão.
Assim, mais forças encontraremos que nos ajudem a enfrentar todos os constrangimentos que nos interpelam.
Essa vista tem muitos nomes:
Cultura;
( Música )
Política com P maiúsculo ou aquela que vê para lá de todos os circunstancialismos, isto é, impregnada de Cultura que não se compadece com a instantaneidade informativa.
O que aos poderes, porque ele há muitos e não apenas o político, muitas das vezes, lhes falta é isso mesmo:
Cultura.
Vivem fechados em celas sem mais nada do que a sua volumetria.
É claro que a cela até pode não ter vista nenhuma mas se quem a ela estiver confinado a sua volumetria a exceder …


quando a estatura excede as volumetrias


dali para aqui


 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Julho de 2012


segunda-feira, 16 de julho de 2012

AVALIAÇÃO PÚBLICA

John Morgan, Gentlemen of the Jury, 1861




Num tempo em que as avaliações são o que são, aqui como ali, incito-vos a que me avaliem.
Em sentido literal, virtual, melhor diria, sou hoje portador de um canudo, público e publicado, transparente, portanto, já que o que aqui neste meu blogue entrelaçado com tudo o que no meu mural se desenvolve, virtualmente neles se enrola ou desenrola como se de um rolo ou rolos se tratassem.
Canudo!
Podereis percorrê-los da frente para trás ou de trás para a frente e desafio-vos a uma avaliação criteriosa.
Não daquelas que se fundam, estritamente e com todo o respeito, nas audiências, embora também possamos ir por aí ou do número de likes ou de comentários que, ao correr do tempo, se têm manifestado, mas, acima de tudo, no que tem a ver com a avaliação criteriosa, repito, dos conteúdos em ambos os suportes, até hoje, publicamente arquivados.
Sem rede ou à medida da rede que, na sua exposição, vou criando.
Aqui como ali, tudo se desenvolve com transparência, a transparência possível de quem sem outros meios a estes recorre para, sem outros que não os intermediários que são estes meus suportes, se expor nos conteúdos por mim e dando a cara, o meu bom nome, disponibilizados.

Incito-vos!
Num tempo de avaliações mais do que duvidosas e que levantam uma pesada suspeição geral, aqui me exponho, aqui me dou a avaliar.
E não são apenas os conteúdos que importa considerar:
Que dizer da persistência?
Que dizer da perseverança?
Que dizer da resiliência que ao longo dos anos não esmorece?
Que dizer do risco?
Numa Obra que leva mais de vinte e três anos, aquela medida padrão de referência que não apenas me ocorre sublinhar como releva todo um percurso?
E que dizer, já agora e convenhamos e tanto mais quanto num tempo de tantos constrangimentos, da gratuitidade do Serviço que vos vou prestando?

Num tempo em que aos mais meritosos formandos ou formados, pelo triste exemplo que vem de cima, à suspeição geral de que não são merecedores a vêm abater-se sobre si próprios, talvez importe sublinhar a importância da educação informal.
Aquela que me molda, que até aqui me trouxe e que aqui como ali se expõe.
Que tendes a dizer ou como me pretendeis avaliar?
Não serei, por ventura, merecedor de uma criteriosa avaliação?
Tudo está público e publicado.
Atrevo-me mesmo a dizer que, assim sendo, o que escrevo em Causa Pública e tanto mais quanto as razões invocadas, em atitude congruente, se constitui!
Pois se, informalmente, eu não poderei ser avaliado o que dizer, então, de avaliações formais mais do que duvidosas ou que, pelo exposto, não conseguem livrar-se, nem a ninguém, da suspeição geral que a todas as corrói!?


aqui como ali, exponho-me em permanente avaliação a que, informalmente, formalmente vos desafio
 

 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 16 de Julho de 2012


quarta-feira, 11 de julho de 2012

LINHAS DE FORÇA





E se, prova de que a realidade, acelerada, vai muito à frente dos nossos desejos ou da interpretação que dela fazemos, tudo e nomeadamente a crise que, em especial, assola a Europa, estivesse a ser abordada do seu anverso?
E se, na Europa, aqueles países que estão debaixo de ajuda externa, sujeitos a um resgate, portanto, pelos constrangimentos a que estão obrigados, afinal, mais preparados estivessem para a mudança de Paradigma que se torna irreversível?
Protetorados?
E se a Europa se quer afirmar como voz política única entre iguais na arena internacional, o que restará às nacionalidades europeias senão protegerem-se umas às outras?
O que lhes restará senão abdicarem das suas em nome de uma soberania maior em que se possam e devam rever?
Um grande e rico da Europa já não é nada no contexto da globalização pese embora poder viver ainda confundido nessa ilusão.
Um pobre e pequeno sabe, contudo, que sozinho não subsiste.
E depois, que austeridade ou que crescimento?
Uma coisa é certa, todos o sabemos, nem que mais não seja em nome de equilíbrios ecológicos que nos ultrapassam, que não podemos continuar a crescer como dantes.
Há, ainda, um défice democrático na construção europeia, talvez de todos o mais gritante dos défices, que importa resolver rapidamente e sem mais hesitações.


linhas de força para uma reflexão estratégica que se interligam mas que não podem perder de vista que no centro está, concreta, a pessoa humana


dali para aqui




Jaime Latino Ferreira
Estoril, 11 de Julho de 2012


segunda-feira, 9 de julho de 2012

RONDAS

Rembrandt, A Ronda da Noite





Sempre que clicar aqui verá a minha produção, permanentemente, atualizada.


Se me lês à superfície
imóvel estou por aqui
corre um fluxo subcutâneo
deste meu blogue subterrâneo 

Linha de água movediça
onde me assento e que atiça
as minhas águas profundas
ondas de minhas rondas

No aparente
imobilismo
um fluxo corre
e eu cismo
qual a superfície
se esta
ou a sua fresta 

Janelas
que se entrecruzam

rondó



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Julho de 2012


sexta-feira, 6 de julho de 2012

AQUI E ALI

Graça Morais




Quando não estou aqui
estou ali

Nas suas características próprias
ambos os suportes
complementam-se

Felizmente
não tenho o dom da ubiquidade


 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Julho de 2012


segunda-feira, 2 de julho de 2012

ILUSÃO E/OU DEONTOLOGIA

da transparência ou da falta dela




o que aqui Vos deixo é tanto mais pertinente quanto, para o bem como para o mal e quer o queiramos quer não, os média tradicionais são, quais filtros a seu belo prazer reduzidos a lentes côncavas ou convexas, interposições entre nós e a vida pública ou entre nós e a vida real, transparência adulterada do tempo que faz


Intencionalmente, deixei que terminasse o europeu de futebol para, agora sim e não fosse pensar-se nalgum mau perder da minha parte, me pronunciar a esse propósito já que aquilo de que escrevo corresponde, julgo eu, a um fenómeno universal e não apenas típico deste meu torrão de terra.
Aproximadamente, durante um mês e nas televisões, com particular incidência para aquelas de sinal aberto mas não só, não se ouviu falar de outra coisa senão do Euro.
Até aqueles programas de informação geral ou talk shows habituais foram, em seu nome, condicionados ou completamente suprimidos das grelhas, em qualquer dos casos preteridos em função desse acontecimento maior de tal maneira que, a própria e tão badalada, omnipresente crise se subsumiu.
Todos esses canais alimentaram a ilusão da vitória até ao limite do possível ou do intolerável, ao sabor nacional a que as várias seleções iam sendo, progressivamente, eliminadas e até que a vitória, por fim, a uma delas lhe sorriu envolvendo os seus adeptos no clímax da ilusão que, não menos rapidamente, ela própria se subsumirá caindo, por fim, todos em si.
É certo que não existe incompatibilidade entre deontologia e espetáculo ou ilusão antes se complementam mas quando o elo entre uma e os outros se quebra …

Ilusão e deontologia.
Nestas alturas vê-se bem onde fica, a este nível, a deontologia profissional dos jornalistas ou até que ponto ela não se rende, objetivamente, à cativação de audiências.
Confesso que estar um mês sem ouvir falar de crise ou, para ser mais exato, não menos do euro, até me soube muito bem.
Envolvi-me, como nunca, na observação do campeonato mas tenho, sempre tive e não perdi o discernimento bastante para achar que o exagero atingiu o seu paroxismo.
Uma vergonha descarada é o que diria.
Será que, nesta ótica, a crise transportará, uma vez que esta, rapidamente, voltará a ocupar todas as parangonas já que, tal como a vitória, a derrota cativa, ela também, toda a morbidez das audiências, assim o pressupõem, pelo menos, os gurus destas matérias, na omnipresença que a tem caracterizado e que arrastaria consigo, tal como a vitória e explorando a suposta incredulidade geral de que partem, igual carga de ilusão na autocomiseração gémea da euforia que a caracteriza?

O Euro cumpriu-se e, com ele, a vitória que apenas a uma das seleções a contemplou, a melhor diria, é um facto e não poderia ter deixado de ser assim.
A crise do euro também existe e ela, contaminante e também por arrasto derivado da sua permanente omnipresença explorada até ao tutano, existe sobremaneira, este é outro facto e poderá deixar de ser assim?
Mas daí até vivermos, permanentemente, nesta ciclotimia que ora nos arrasta para o fundo, ora nos eleva aos píncaros, essa é uma doença que aos próprios média, explorando, intencionalmente ou não, ora a vitória, ora a derrota, ora a ventura, ora a desventura fazem, objetivamente, por trazer à tona a falta de deontologia profissional que, afinal e quantas vezes, os parece nortear.
Espetáculo ou informação, ilusão sem deontologia?
Ou, afinal, apenas crise dos média tradicionais?
De tal modo que, para sobreviverem, à deontologia parece terem de mandar, pura e simplesmente, às urtigas?

É demais, que imenso despudor!
Ao que os média, na pessoa dos seus agentes, se parecem sujeitar para preservar os seus postos de trabalho ou para, em seu próprio e exclusivo benefício, poderem sacar lucros chorudos o que vai a dar no mesmo!
Tudo por um prato de lentilhas!?
Com a gravidade acrescida de se parecerem presumir ou ter a veleidade de pressupor, perentórios e, quantas vezes, com que tamanha arrogância julgando-se intocáveis, estar a cumprir um serviço público!?
Que mais se seguirá!?
Qualquer dia, pressupondo estarem a dar uma má notícia todos nós presumiremos que ela é boa ou pressupondo-a boa de antemão saberemos que ela é má demais.
Corrijo desbastando, aparando, contendo a pulsão ciclotímica em que os média se terão tornado, não apenas peritos, mas contagiantes e ativos agentes patológicos:
Qualquer dia, não se tratando nem de derrota nem de vitória ou nem muito antes pelo contrário, todos e muito antes deles, dos média tradicionais, já teremos percebido que na derrota anunciada se aprende mais do que na vitória e que nesta, desde que não nos trepe à cabeça, se encontrará um patamar anticíclico que, quem sabe e pese toda a desinformação que por aí pulula, se poderá tornar em paradigma de verdadeira sustentabilidade que eles, os média tradicionais, como se vê, não podem nem conseguem estar à altura de cumprir, atolados na bipolaridade que os mina.


rebe béu pardais ao ninho


 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Julho de 2012