sábado, 8 de setembro de 2012

CINEMATOGRÁFICO

Hitchcock, Psycho, 1960

 
 

O que se escreve vê-se

Sente-se

O que se escreve é uma sequência de imagens compostas pelos seus caracteres que
vistos em movimento
na sua fluida sucessão ganham vida

 Animação 

Como uma película composta por milhares de fotografias que se sucedem no projetor

Cada um de nós é um projetor que aos caracteres
com maior ou menor fluidez
em nós próprios
animados
os projeta

Faz refletir

Faz refletir e
de novo
os projeta ou não para o exterior de si mesmo

A película pode ser de pior ou de melhor qualidade

Tal como o projetor
mas a animação está nela
na película
independentemente de como se projeta ou não

Independentemente da qualidade do projetor

Saiba-se ler
isto é
 ver e fazer refletir 

 Fazer rodar e absorver a película 

A escrita
sendo eminentemente visual
táctil
por vezes
material sempre
converte-se ou não
refletida
ultrapassando todos os tecnicismos
em imaterial tangível
audível e
em última instância
em reflexo espiritual
intelectual ou pensamento
subsónico ou supersónico imaterial intangível

 

ler como escrever e tal como o cinema remetem-nos para outra e contagiosa, irresistível quanto real dimensão




Jaime Latino Ferreira
Estoril, 19 de Agosto de 2012
 
 
 
 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

QUEM QUER VAI

Kevin Sloan, Globe

 

 
Decidi glosar, refletir a propósito de dois provérbios muito conhecidos, a saber, quem quer vai, quem não quer manda e quem tem boca vai a Roma.
Partamos do princípio que Roma, para além de ser a capital italiana, aqui, pode ou deve mesmo ser entendida e até porque, em certo sentido, o continua a ser, não apenas como o centro da cristandade mas também ou por isso mesmo, como o centro do Império que a precedeu, que nela implodiu e, nesse sentido, entendida como centro do mundo.
De um certo mundo que à sua volta, à volta de Roma girava.
Roma, no provérbio em que se integra, figurativamente, significa, portanto, isso mesmo:
O centro do poder seja ele entendido como o intemporal ou como o temporal.
 
Os dois provérbios entroncam-se e complementam-se um no outro.
Hoje e nestas plataformas em que nos movemos, quem quer vai mesmo e sem sair do mesmo sítio e nenhuma necessidade tem de recorrer a terceiros que não sejam estas plataformas, para ir.
Eu, daqui, posso mesmo chegar a Roma, seja ela entendida em que sentido o for, por minha boca, isto é, por via daquilo que escrevo.
Vou e por mão própria.
De tal modo que até dá que pensar que estes provérbios, sendo como por definição o são, retratos dos costumes, do consuetudinário, do que vem de trás, tanto melhor se aplicam e, desde já, no futuro imediato.
Ou virão, eles próprios, do futuro?
 
Quem quer vai, quem não quer manda.
Eu quero!
Quero em nome próprio, por provas dadas e sem interpostas pessoas e porque quero mando sem mandar, isto é, envio para a estratosfera e, logo, para Roma também.
Quem tem boca vai a Roma.
Eu vou e não me canso de ir!
Vou daqui, deste meu lugar virtual e sem sair do mesmo sítio e, amiúde, a Roma chego.
Tanto literal como figurativamente.
Se quero e vou, então, como se realizarão os dois adágios?
Será o costume desdito?
Será o futuro proscrito?
Será cumprida a minha aspiração?
Cá estamos todos para ver se sim ou se não:
Se querendo vou ou não vou, isto é, atinjo os meus objetivos.
 
Por fim, mandar:
Enviar mas, também, ter poder.
Ora se quem não quer manda, isto é, tem poder e se quem quer vai, onde iria quem vai se poder tivesse?
Por mais que simbólico, residual fosse o poder de quem vai?
Como o receberia Roma?
Não querer poder tendo-o é que é um desperdício tamanho do qual, quiçá, todos pagamos uma pesada fatura.


não há como fazer as coisas por gosto

 


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Agosto de 2012
 
 
 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O SECRETO DO QUE ESCREVO

Picasso, Nu, Feuilles Vertes et Buste

 
 
Há um perfil secreto no que escrevo que se vai dando a conhecer.
Aqui estou eu, aquele que te escreve, tu que me lês, o mais variado e indefinível tu que o possas ser e o meu alter-ego, nu de mim mesmo, outro eu que pelos contornos do que escrevo se vai, no que pinto ou rabisco, materializando.
Três em um, eis o secreto naquilo que escrevo e que lhe confere dimensão.
Não que o queira secreto mas porque, como num esboço, é pelo sombreado do que escrevo que se vão realçando os seus contornos.
 
Escrevo como poderia pintar na certeza de que o nu, esse paradigmático modelo, é a mais escondida, difícil de todas as verdades esboçáveis.
Do sombreado à luz.
Da matéria negra ao material percetível.
Do que não se vê ao que, sendo visível, é-o porque se sente e ouve.
 
Fantasia.
A minha escrita é uma fantasia real.
Tão real quanto a escrita o permite ser.
Cinge-se ela a um relato, dia após dia, num olhar próprio, despido, o meu.
Focado para lá de todos os circunstancialismos.
Nesse para lá, o perfil do que, encoberto, pelo esboço se vai revelando.
Descobrindo.
Como se, para lá de mim mesmo, falasse, me correspondesse, por tua via, minha incontornável sombra, comigo próprio.
Sempre tendo em conta que tu, aquele indefinível tu que me lê, está presente.
Esse tu tão real quanto eu o sou.
 
O indefinível tu.
Não te consigo definir.
És tantos tus quantos aqueles que me leem.
Que me sombreiam definindo-me.
Desses tus, em interação comigo e com o meu alter-ego, esse confiável eu, dos sombreados sua sombra, contornos em que vos pinto, descobrindo se vai desnudando.
Nos espaçamentos que sobram ao que te escrevo.
 
Alter-ego.
Espaçamentos do que vou escrevendo.
O que, cingido ao que escrito está, se desprende e a que o seu sombreado vai dando forma.
Busto de um despido nu de mim mesmo.
Ao secreto nu, por mais que o revele, sempre, em mim e no entanto, tímido se esconde.
Diáfano, compacto de translúcida claridade, como a verdade o é.


sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia
( de A Relíquia, Eça de Queirós )
 

 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Agosto de 2012
 
 
 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

DE AMOR

Duy Huyhn

 
 

De amor é o poema que aqui canto
nele a minha voz de imaculado espanto
dela tudo o que sai me cala fundo
 porque ao meu amor o vejo mundo 

Amor não dá lugar a um não rotundo
antes é todo um sim de que me inundo
tal é o meu amor que aqui levanto
 brocado deste livro e de meu manto 

É o meu amor demais e tanto
mais seria ele e mais e quanto
mais alegre é muito mais profundo

A este meu amor que sendo puro
como o guardaria do imundo
se não ultrapassasse o desencanto
 

ao meu amor, de amor, um beijo
 

 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Agosto de 2012
 
 
 

sábado, 25 de agosto de 2012

DAS FÉRIAS – CANTO O MEU PAÍS

 
 
 
País
país
que me quis
onde nasci
e me fiz
é o país
que me diz
aquilo que escrevo
 e condiz 

Com ideia universal
de contornos em que o sal
se salpica por igual
 aqui se faz Portugal 

Ai meu país
tua tez
luminosa
em ti desfez
a tacanhez
onde os pês
são símbolos
de pequenez 

De mesquinhez
que arrepia
tudo aquilo
que me fez
 

do universal de um país
 

uma narrativa que se desenrola aqui como no Arquivo Complementar ao dispor na coluna lateral direita deste blogue


 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Agosto de 2012
 
 
 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

DAS FÉRIAS – NO FIO DA NAVALHA

Duy Huynh, One step at a time


 

Era uma vez um país fechado ao Mundo e do qual ninguém ou muito poucos sabiam o que nele, verdadeiramente, se passava.
A ferro e fogo, hoje, esse país fratura o Mundo e do que nele venha a suceder assim também a sua como a nossa sorte.
A sorte do Mundo.
É no fio da navalha que nos movemos.
 
A esse país, de facto, ninguém ou poucos o conhecem.
Os seus dirigentes parecem-se com distintos europeus mas, o que lá se passa …
Europeus!?
Aqueles que só sabem andar no fio da navalha!?
Ai se os europeus, solidários e concertados, dessem, pelo exemplo que deles se projetasse, uma saída ou um caminho dignos de ser percorridos!
 
O que se passa nesse país divide a Europa e o Mundo e põe-nos, a todos, no fio da navalha.
As suas cidades desmoronam-se como castelos de cartas, os seus cidadãos quando não são, pura e simplesmente, chacinados, estão em fuga e a impotência geral, essa, não se atreve a dar um passo a descoberto com medo da deflagração que dele se possa, não apenas desencadear como alastrar.
 
Era uma vez uma ideia, essa a de um país, no fio da navalha e em erosão acelerada.
Quantos países, a pulso não se ergueram ou se desmoronaram à custa da desgraça geral?
Era uma vez um país, esse sim e ao que parece, com armas de destruição maciça.
Era uma vez um rastilho sem fim à vista que se anteveja.
Por quanto mais tempo?
 
País!?
No fio da navalha, que ideia mais contraditória essa a de, como bichinhos, marcarmos um território comum ou, por ele, matarmo-nos uns aos outros seja por que supostos ideais for já que nada o justifica, num tempo de globalização, de unificação que deveria ser pacífica e concertada, democrática, entre todos os povos do Mundo.
Deixai-vos de selvajarias e exponenciai as culturas de que as línguas são, não apenas a sua expressão, mas uma entre as suas mais valiosas riquezas:
As línguas e, antes delas, os seus falantes!
De todas as riquezas aquelas que, à outrance, dos países, verdadeiramente, importa preservar.
 
Em nome da Paz!


one step at a time
look behind
and dance with loving words
in your mind
 

país ou estado nação, esse paradoxo que em si mesmo encerra os piores dos fanatismos neles incluídos os mais abjetos antissemitismos que se acirram e, por outro lado, os traços culturais dos povos e os fundamentos das sociedades democráticas
 

ide tanto pelo Arquivo Complementar como por aqui
 



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 1 de Agosto de 2012
 
 
 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

DAS FÉRIAS – O QUE É QUE VALE MAIS

Kevin Sloan




Vale ou não aquilo que eu escrevo na minha língua mais ou menos do que aquilo que é escrito noutra língua qualquer?
Eis uma das tais perguntas que não pode ser respondida em função do número de falantes dessa mesma língua ou de outra qualquer ou, pura e simplesmente, daqueles que, à pergunta acima colocada, o pretendessem, num como noutro sentido, decidir pelo voto.
Eis uma daquelas questões à qual, dificilmente, se poderá aplicar a democraticidade estrita do voto e mal estaríamos no dia em que esta, a ela se pudesse ou devesse impor.
Penso que só há uma forma de responder à pergunta inicial:
Independentemente da língua é pelos conteúdos do que é escrito que se afere o que é que vale mais, se aquilo que se escreve na minha ou noutra língua qualquer e esses conteúdos, a serem os mesmos, não se valorizam nem se desvalorizam por serem escritos, originalmente, seja em que língua o for nem, tão pouco, em função do número de falantes dessa mesma língua.
Conteúdos esses, é bom sublinhar, de que a forma é, em si mesma, sua expressão a que a língua original em que são escritos lhe somam natural originalidade.
Não há votos nem percentagens que a esta questão se possam aplicar.
Para se aferir do valor do que é escrito, apenas pela análise e interpretação do que é escrito, pelo esmiuçar do texto que aos seus conteúdos os determinem no complexo contraditório que nele mesmo se encerre se consegue avaliar e esse trabalho ultrapassa em profundidade democrática a democraticidade subjacente ao voto ou à expressividade do número de falantes daquilo que é escrito.
Do que aqui deixo transparece, também, que há escritos que não se compadecem com a vertigem alucinante do ritmo em que vivemos e que ao que é escrito, independentemente do suporte utilizado, tende a desvalorizar.
Tende a subestimar em crescente erosão.
Nessa voragem, quando à qualidade do que é escrito se pretere em função da instantaneidade da adesão que suscita, é a própria qualidade de vida que, sem disso nos darmos conta ou dela, por demais, nos apercebendo, com essa instantaneidade se degrada também.


primeiro texto de um tempo de férias a desenvolver-se por aqui e no Arquivo Complementar cujo link de acesso se situa na coluna lateral da direita deste blogue
 

 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Julho de 2012