sábado, 5 de janeiro de 2013

SINAIS



fortuna



Para lá de todo o ruído, desinformação e demagogia, sendo certo que há todo um saneamento económico-financeiro que importa, sem desfalecimentos, prosseguir, não apenas em nome da sustentabilidade económica da Europa face ao Mundo, tout court, como do Mundo face a ele próprio e, portanto e hélàs, em nome da sustentabilidade da Economia face aos monumentais desafios ecológicos que a todos, de há muito, nos interpelam, neste início do ano, alguns sinais importará sistematizar.
Destaco três:
A inesperada subida do rating da Grécia no final do ano de 2012;
As decisões de supervisão bancária do último Conselho Europeu bem como aquelas de apoio suplementar à Grécia;
O aparente estancar da especulação face ao Euro.

Onde estamos?
Será possível continuarmos a bater mais e cada vez mais no fundo?
Num fundo sem fundo, sugadouro de energias e de vontades ameaçando pelo confisco as liberdades fundamentais?
Onde estamos?
Sinais despontam a apontar noutro sentido:
Ele é o Fundo Monetário Internacional a por tónica no crescimento;
Ou a União Europeia que pela boca de Durão Barroso, diante das evidências, como voz da moderação se constitui também.
Onde estamos?
Haverá na Europa um tribunal constitucional que tenha força de lei sobre todos os outros?
Ou uma lei fundamental que a todas as outras se lhes imponha?
Onde estamos, para onde vamos?
A somar a tudo isto, que tem a dizer o Banco Central Europeu que, implicitamente, o não tenha dito já ao constituir-se como supervisor e, logo, como garante contra as derivas financeiras europeias?
E, at last but not least, onde fica a vontade soberana dos povos?


a perguntar se faz o caminho



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Janeiro de 2013



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

QUATRO

Duy Huynh, Homesick Traveler

 
 

Quatro anos passaram desde então
desde o dia em que vos escrevo de supetão
após muitos outros em que me dei
noutros suportes prévios onde cantei
 

Quatro anos sem desarmar àquilo que sei
sem esmorecer expus e não parei
por muito que vos parecesse em vão
a saga que aqui me traz e mantém são


Cada vez que escrevo o que me dão
por quanto o não oiça sentirei
que é muito mais do que um simples não


Já que no que escrevo o que amei
me traz nesta vigília e estende a mão
a todos a quem jamais os esquecerei


no quarto aniversário deste meu blogue
 

 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Janeiro de 2013
 
 
 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

LITTLE POEM

Paula Rego, Escape to Egypt, 2002
 
 
 
Happy New Year
with open mind
and wishfulness clear
 
 
 
 
Jaime Latino Ferreira
Estoril the 1st January 2013
 
 


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

EM CONTRACICLO

 
 
 
Tendo para esse efeito de se ter disponibilidade mental porque importa criá-la sempre e só nós, cada um de nós, a pode conquistar para si mesmo é, precisamente, quando tudo parece desabar que se impõe fazer balanços, sínteses do que se conseguiu almejar ou daquilo a que se aspira.
 

Para memória futura, a isto se chama agir em contraciclo e mesmo ou por maioria de razão se a penumbra parece cobrir a luz.

 

escrever, não apenas liberta como, pelo ato de agir que representa, longe de ser simples retórica transforma-se em factual atuante
 

 

FELIZ  ANO  NOVO
 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Dezembro de 2012
 
 
 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

LINHAS DE FORÇA A PROPÓSITO DE PRESÉPIO

Júlio Pomar, O Almoço do Trolha, 1947

 
 

I


A Sagrada Família não continha nada de tradicional ou costumeiro e, por isso mesmo, se escondeu numa manjedoura para fugir ao decreto do Rei Herodes que teria mandado matar todos os nascituros por medo de vir a perder o seu trono para o profetizado rei dos judeus.
Clandestinamente ela se cumpriu obedecendo a todos os requisitos que, hoje, poderiam corresponder àquilo a que, prosaicamente e é dizer pouco, se chama uma família nada convencional.


II
 
Confundir família não convencional com família desestruturada constitui um grave equívoco.
Ele há famílias nada convencionais unidas pelos mais fortes elos do amor como há famílias convencionais que, desestruturadas, assentam no exercício das maiores arbitrariedades.
Outro equívoco consiste na ideia de género que assentaria, por oposição a fragilidade, na força física e não naquela que, em pé de igualdade, os faz comungar no amor.
Destes equívocos os maiores impasses persistem em prejuízo daquilo que sendo durável, perene, é fundamental, a saber:
Não há família sem amor e o resto é retórica e manobras dilatórias!


III

Manobras dilatórias, de dilatório ou daquilo que se faz por adiar.
Adiar pode ser uma atitude inteligente quando, por exemplo, se relacione com a gestão política de uma situação delicada que envolva muitas sensibilidades e onde não se torne claro o sentido para que elas pendam, sobretudo, perante assuntos como aqueles dos costumes e das novas formas de organização familiar que, por isso mesmo, se tomam por fraturantes.
Assim, em nome da unidade se adiam clarificações.
Mas chega sempre uma altura em que adiar faz inverterem-se os termos da própria equação enunciada atrás.
Assim, nada garante que por persistir-se na ambiguidade que o protelamento suscita, o que se quereria, à outrance, manter unido, afinal, não se frature ainda mais, definhe ou se estiole mesmo e, sobretudo, quando o persistente adiamento que se quereria tomar por impoluto mas que não passa de um teimosa renitência que nada tem a ver com princípios, faz recair sobre si mesmo as mais avassaladoras das suspeições.
Ambíguo?
Para quem saiba ler.


IV

Pretender à viva força manter unido aquilo que, ainda que em prejuízo dos princípios, como o azeite e o vinagre não se mistura, pode ser uma receita que produz os piores dos resultados.
Essa receita, embora mantendo à tona o azeite, a verdade ou o unguento purificador acaba por não neutralizar, no fundo e pela calada, a persistente acidez que os corrói e se despoleta, o mal viver consigo próprio em tudo contrário ao bem viver, ele sim, eixo axial e força motriz da disponibilidade e do amor que se têm a ver com a castidade lato senso considerada não se confundem com qualquer normativo castrador.
Não se estando bem consigo próprio, como se poderá estar bem com os outros?
A verdade é como o azeite, acusando a acidez vem sempre ao de cima.


nota: a castidade é um lugar sagrado e íntimo, indeterminado em cada um de nós que nos mantém íntegros.
 

V

Eu amo-te, que quer dizer isto?
Tal significa que no absoluto respeito pelo Outro, maior e igual, o que implica o não anulamento de um pelo outro, seja ele quem for, na fidelidade, com ele se quer partilhar tudo, os bons como os maus momentos da vida.
Significa estar disponível para o Outro e, ao está-lo, para todos os outros também se ficar disponível.
Quem sou eu, quem é o Outro?
Teremos de obedecer a um perfil ou a uma morfologia específicos?
Ou o Outro é tudo o que nele a mim me completa para lá de todas as nuances físicas?
O Outro, nele incluída a sua dimensão metafísica.
O Outro e eu não somos nem simples apêndices ou encaixes, nem meros sistemas reprodutores, somos muito mais do que isso.
Somos criatividade latente que de um no outro dá à luz.


remeto para Presépio



 
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 25 de Dezembro de 2012
 
 
 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

PRESÉPIO

Marc Chagall, A Sagrada Família, 1909
 

 
No Presépio está a sacralidade, isto é, a inviolabilidade da pessoa humana e tanto mais quanto perseguida o for, quer seja ela criança, mulher ou homem bem como, senão pense-se no paradoxo de Maria enquanto virgem mas mãe ou em S. José como pai adotivo substituto de um Pai, à luz dos cânones da época, inexistente ou incógnito, seguramente proscrito ou desterrado, nas modernas formas de organização familiar ou, então, em tudo o que os avanços científicos, hoje, já potenciam nesse permanente abrir da caixa de Pandora que nos caracteriza quando não, desde já e uma vez acautelada toda a prudência, anunciam.
Nesse extraordinário cadinho, o impulso do Presépio, Cristo seguiu, inflexível, um projeto de afirmação pacífico, também político, ao tempo do império da força e na assunção da blasfémia que não terá sido declarar-se, numa sua remota província, filho de Deus pelo que do imperador, um seu igual, portanto, quando Deus se confundia com o próprio imperador.
Sem ele, sem o Presépio e por linhas históricas direitas ou travessas, em círculos concêntricos, também não se teria chegado às declarações universais dos direitos do Homem nem da Criança e, muito menos, à Democracia tal como hoje a concebemos e na lógica não apenas da separação e da divisão de poderes como do seu crescente aprofundamento.
A simbologia que o Presépio encerra é, hoje, mais atual e premente do que nunca e o mistério que nele se guarda, precisamente pela sua acutilante atualidade e, logo, premonição, longe de se atenuar adensa-se cada vez mais.




 

BOAS  FESTAS
 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Dezembro de 2012
 
 
 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

PENSAMENTOS ( VII )


 

 

PENSAMENTOS
 

Como já tereis reparado tenho vindo a coligir pensamentos, todos da minha autoria.
 

A primeira questão que levanto é esta:
 

Se, de hoje para amanhã e por hipótese, me viesse a tornar numa pessoa célebre não seria difícil imaginar que os meus pensamentos passassem a ser citados por dá cá aquela palha mas caso permaneça mergulhado no anonimato, quem me citará?


Põe-se, então, uma outra e contundente, oportuníssima questão:
 

Valem ou não os meus pensamentos, nos seus conteúdos, por si próprios e independentemente da minha própria notoriedade?
 

Finalmente:
 

Ou será, antes, a riqueza intrínseca dos meus pensamentos que transporta consigo a celebridade?
 

 

 

QUEM  PERGUNTA
 

Quem pergunta é porque já sabe, pelo menos em parte, a resposta e, por isso, já responde ainda que, por responder em forma de pergunta, deixe a resposta em aberto.
 

Aliás, quem não sabe também não consegue, seja de que maneira for, perguntar.
 



 

PERGUNTAR
 

Perguntar é a forma mais inteligente de se insinuar, ainda que se deixe em aberto, uma resposta.


Uma pergunta que é o que uma hipótese é, aliás, é o primeiro passo para que a experimentação não se conduza nem às cegas nem fortuitamente e resulte, sistemática, em investigação científica.


 

 

DO  1  E  DO  ZERO
 

Se o 1, primeiro dos números naturais ou a unidade, o singular, não conseguir chegar e compatibilizar-se, por si próprio e pela lógica, pacificamente, com o zero, o artifício da lei ou o institucional, como é que a numeração inteira que o número 10 introduz, alguma vez, poderia fazer qualquer sentido?
 

 

 

RECONCILIAÇÃO
 

No dia em que o um, primeiro dos números naturais, a unidade, o cidadão singular, pelo seu próprio mérito, pacifica e transparentemente, conseguir chegar ao 10, à numeração inteira, ao institucional, reconciliando os cinco dedos da mão direita com os cinco da mão esquerda, dar-se-á, simultaneamente, a reconciliação entre o poder democrático, a Democracia e o Povo.
 

Nesse dia, tanto mais urgente quanto a crise que nos assola, o aprofundamento da Democracia não será expressão vã.
 


 


DO  ZERO
 

O zero é a superfície do espelho à direita da qual se desenvolve a numeração positiva.
 

À sua esquerda, contudo e partindo do mesmo princípio, ao que se convencionou chamar a numeração negativa que à primeira a anularia, simétrica da positiva, desenvolve-se algo que não sendo numeração antes o seu simétrico, repito, já se aproxima da escrita.


Abstração da abstração, o reflexo da numeração positiva na sua simbologia não já numérica, humanizada resulta e ambas, na absorvência transformadora do zero ou da superfície do espelho, não se anulam antes, na sua complementaridade, se potenciam.
 

 

 

O  APRENDIZ  E  O  MESTRE


Aprendiz é aquele que, por sua livre vontade e iniciativa, confrontado com uma prova de fogo incansável persiste e, pacificamente, não desarma por maior que seja a omissão que sobre si próprio recaia.
 

Mestre é aquele que sujeitando o aprendiz a uma prova de fogo, por fim, nele se sabendo rever o reconhece e mesmo se o aprendiz em muito o excede.
 

De qualquer maneira, mestre e aprendiz, ou têm ambos um pouco dos dois ou não são nem uma coisa nem a outra.
 

 

mais e mais
 



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 17 de Dezembro de 2012