sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

BICHARADA - 3

Georges Seurat, Le Cirque




a quem nestas plataformas circula, na sequência de 1 e 2 e a nós bicharada, desafio na forma cantada


Bicharada
corre por tudo
e por nada
enquanto o bicho
pancada
se abate
na nossa estrada

Bicharada
triste entrudo
do que ela fala abismada
no seu nicho
aninhada
a tudo esquece
entrevada

Carnaval da bicharada
do que leva como mudo
estandarte desta maçada
vai ao lixo
alvoraçada
e adormece
aliviada


a Democracia não se pode confundir com um concurso carnavalesco ou de humor-negro de ocasião e sem fim à vista



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Janeiro de 2013



quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A PROPÓSITO DA COESÃO INTERGERACIONAL - 2






Entorpecidos por uma certa práxis dominante, alguns há que consideram natural a quebra das promessas feitas durante as campanhas eleitorais não constituindo esta, em si mesma, rompimento do contrato e, logo, da legitimidade para se governar.
Não sou dos que assim pensam e num tempo em que tanto se fala, pelos melhores e pelos piores motivos, em coesão intergeracional, chamo à colação um exemplo concreto e extremo, já recuado no tempo, disso mesmo:
A expressa garantia e a implícita promessa eleitoral feita em campanha eleitoral por Passos Coelho, vai para dois anos, a uma jovem adolescente, aluna de uma escola secundária e para a qual, aqui, de novo vos remeto.

Já é grave quando ao eleitorado se ludibria, dando o dito pelo não dito, antes e depois de se ser eleito.
Mas quando tal acontece, como neste exemplo que aqui tão bem surge ilustrado, envolvendo uma jovem aluna adolescente, repito, a gravidade do ato acresce ainda mais.
O Primeiro-Ministro dar-se-á conta de que já não é assim tão novo?
De que se estava a dirigir a uma adolescente?
De que, ao dizê-lo assim, logo do que disse fazendo letra morta uma vez tendo sido eleito, está, não apenas a semear a desconfiança como a minar o terreno de todos os agentes educativos e, logo, a romper a coesão de que tanto fala e diz defender?
O que pensará hoje, dois anos volvidos, essa jovem sobre o que, na altura, pelo Primeiro-Ministro lhe foi garantido?
Ou todos aqueles jovens que tendo ouvido este diálogo, hoje, com ela, se sentem por ele ludibriados?
Por ele e, por tabela, pelos seus pares bem como pelas instituições democráticas que representam?
E que autoridade sobra ao Primeiro-Ministro quando hoje, em nome da coesão intergeracional, chama a atenção para os encargos que as reformas dos mais velhos, diz, fazem recair sobre os mais novos?
No seu íntimo, perante os crescentes e imparáveis sacrifícios que anuncia, com que cara se olhará ele, o Primeiro-Ministro e como se reverá ela naquilo que nos tem a propor?

Porquê voltar a este assunto quase dois anos volvidos?
Porque me preocupo, sobremaneira, com o estado da Democracia que já na minha página anterior, por caricata e empolada mas significante amostra, diagnosticava;
Porque o ponto a que chegamos tem tudo a ver com as promessas que ao longo do tempo, em sucessivos sufrágios e por sucessivas gerações de políticos, nos foram vendidas e que hoje, pesadamente nos estão a ser cobradas;
Porque, pese muito embora a situação aflitiva em que nos encontramos, muitos políticos e independentemente da sua cor, parecem não ter ainda aprendido a lição;
Porque sou professor.
No meu microcosmos estou face a face e não distante do meu público-alvo, ele também composto de adolescentes e ai de mim se eu lhe faltasse a uma promessa que lhes tivesse feito.
Com que cara fica e sai um putativo governante de uma escola não sabendo ou agindo como se não soubesse a quem se está a dirigir onde, como aqui, aconteceu?
Investindo como elefante em loja de loiça fina?
Sem se dar conta de que é para o futuro, esse sobre o qual tanto diz preocupar-se, que está a olhar e ao qual, mal vira costas, espezinha como se nada fosse?
A ele, ao futuro e por ao terreno o minar, a quem dele cuida?
Porque, hélàs, a Democracia, em todos os seus tempos e momentos, não é, não pode ser palavra vã!


a Democracia não se pode confundir com um concurso de conjunturais e demagógicos impulsos de ocasião



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 16 de Janeiro de 2013 



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

ESTRANHOS TEMPOS - 1


Ali Clift, Circus Ground at Night




Vivemos tempos estranhos.
Tão exageradamente estranhos quanto pantanosos são os tempos em que patinhamos.
Ele é um chico-esperto que não provoca mais do que amorfas reações;
Ele é um cão que suscita mais solidariedade do que a morte de uma criança que ele próprio provocou;
Ele é uma adolescente que no seu afetado mal falar desencadeia uma chacota pegada e audiências sem fim;
Ele é um candidato presidenciável que faz furor, pura e simplesmente, por ter o corpo todo tatuado;
Ou é, ainda, um político mal posicionado nas sondagens que por quase se pegar à pancada com o pivot de um talk-show de uma sua televisão, simples coincidência, bate recordes de audiências.
Queres ser popular à la minute?
Então, seja por que meios forem, dá nas vistas!
Estes tempos são tanto mais estranhos quanto a crise em que nos parecemos afundar.

Será que a Democracia se esgota em maiorias ou audiências de ocasião?
Será que a sensatez é inimiga da própria Democracia?
Será que o circense bombástico corresponde à sua verdadeira essência e razão de ser?
Somados, afinal, todos estes preocupantes fenómenos ou indícios, eles apenas refletem a ausência de valores a que a falta de credibilidade e confiança na generalidade das propostas dos agentes políticos que, descredibilizados por irrealizáveis promessas, parecem não ter mais o que nos oferecer.
Para tragédia nossa e, logo, da própria Democracia, qualquer dia, a persistirmos assim e literalmente, esta ainda se acabará por confundir com uma imensa palhaçada e que me perdoem os palhaços, chafurdando em tragicomédia sem fim.

Ponderai porque não é de somenos.


a Democracia não se pode confundir com um concurso de conjunturais e sórdidas apetências de ocasião



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Janeiro de 2013 



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

REPTO



Umberto Boccioni , States of Mind II: The Farewells




Portugal é um país sob resgate financeiro.
Pesam sob os seus cidadãos crescentes sacrifícios e anunciam-se, em cascata, para o ano em curso, se possível, sacrifícios ainda maiores.
O desemprego alastra e a miséria também.
Anuncia-se borrasca à volta do Orçamento aprovado para 2013 e os pedidos de fiscalização sucessiva deste ao Tribunal Constitucional, sucedem-se uns após os outros.
Os portugueses vivem cada vez mais afogados nas suas angústias e incógnitas e a falta de perspetivas não para de crescer.
Entretanto …
Entretanto correu a notícia de que um dos seus governantes, no período das festas, teria ido passar férias no estrangeiro instalado numa luxuosíssima estância turística e o assunto, ao contrário do que, anteriormente, noutras circunstâncias havia já acontecido e mesmo em relação a esse governante preenchendo a espuma dos dias, morreu por aí.
Fico atónito e não é de somenos!

Senão, vejamos:
Governante é governante e, no caso, representante daquele governo a quem compete executar o Memorandum a que o país se encontra obrigado e que justificará todas as medidas que aos seus concidadãos, como enunciado acima, avassaladoramente, os constrangem;
Sendo assim, se é certo que há uma fronteira entre a vida pública e a privada dos membros desse governo, na situação que vivemos, ambas não podem deixar de ser conformes à situação de emergência a que o país se encontra sujeito;
Para mais, aliás, são as figuras de topo do Estado, que fazem apelo a todos para que, mesmo em férias, os que as tenham, as façam cá dentro, concorrendo, desse modo, para o índice de exportações tirando a economia do marasmo, pior, da depressão em que se encontra mergulhada;
Para além disso e sujeito a um apertado escrutínio, pelo menos assim o deveria estar, o mínimo que se exige a quem faça parte desse governo é ao recato e à moderação, à congruência que, pela ausência de ostensiva obscenidade que uma tal estadia representa e projeta, não fira a sensibilidade geral do seu povo sujeito que está a tantos sacrifícios.
E, já agora e para o exterior, que sinal é este pois se um governante, em férias e nestas circunstâncias, se pode dar a um tal luxo?
Se assim se portam os seus governantes, então é porque o país pode levar com muito mais em cima!
À mulher de César, cesarito no caso, não lhe basta ser, tem mesmo de parecer ser séria sob pena de aos seus súbditos não ser possível chamar, envolver, mobilizar muito menos, para o que lhes é exigido, rompendo-se, pela falta de congruência, o contrato que a ambos, governantes e governados, os vincula.

No entanto …
No entanto o assunto que aqui me traz, como um flop, na apatia e resignação geral, pois eles, os políticos, são todos iguais, dir-se-á, parece ter morrido.
São os governantes que merecemos, acrescentar-se-á!
Assim parece.
Sobre este assunto, escrevi primeiro um Libelo no mural do meu facebook e, logo a seguir, espicaçando os meus leitores, um outro post ainda no facebook, Gostava De Perceber Mas Não Entendo, onde, entre outra coisas solicitava ao tal governante, ou uma justificação plausível ou um desmentido formal sobre o sucedido, tendo provocado amorfas reações da parte de quem me lê.
Que eu saiba, nem justificação nem desmentido tiveram, tão pouco e até hoje, lugar.
Porém, não me conformo e aqui estou uma vez mais, agora, dando particular destaque a este assunto no meu blogue.
Faits divers?
Confesso-vos que não sou dado a eles e, julgo, já o tereis reparado.
Quixote, chamar-me-ão.
Pois que o seja!
O que neste episódio, afinal, me angustia ao não suscitar um coro consequente de indignação tanto da parte dos média como dos políticos ou, em geral, dos meus leitores é que, passando em branco, como atestado de irresponsabilidade recaia sobre toda a classe política democrática sem olhar a quem e envolvendo-a numa perigosa generalização já que, o que não mata, mói, corrói como joio e tanto mais quanto a Democracia, pela austeridade a que está obrigada, já se encontra tão fragilizada.
O assunto que aqui me traz, essa é que é essa, quer pela ausência de justificações ou desmentido por parte do próprio, devia ter sido estancado, cortado pela raiz pela mais que justificada e célere demissão do governante em causa.
Um assunto como este, porém, só morre quando todos o deixarem cair e a este, hélàs, combatente das causas perdidas, chamar-me-ão, não só nele insisto como aqui fica.
Será que é este o tipo de governantes que, pela ausência de clamor que deveria ter desencadeado mas não suscitou, afinal, nós merecemos?

para que não vos deixais atordoar ou vencer, aos meus leitores, aqui deixo o repto da mais sentida e acalorada das indignações


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Janeiro de 2013



sábado, 5 de janeiro de 2013

SINAIS



fortuna



Para lá de todo o ruído, desinformação e demagogia, sendo certo que há todo um saneamento económico-financeiro que importa, sem desfalecimentos, prosseguir, não apenas em nome da sustentabilidade económica da Europa face ao Mundo, tout court, como do Mundo face a ele próprio e, portanto e hélàs, em nome da sustentabilidade da Economia face aos monumentais desafios ecológicos que a todos, de há muito, nos interpelam, neste início do ano, alguns sinais importará sistematizar.
Destaco três:
A inesperada subida do rating da Grécia no final do ano de 2012;
As decisões de supervisão bancária do último Conselho Europeu bem como aquelas de apoio suplementar à Grécia;
O aparente estancar da especulação face ao Euro.

Onde estamos?
Será possível continuarmos a bater mais e cada vez mais no fundo?
Num fundo sem fundo, sugadouro de energias e de vontades ameaçando pelo confisco as liberdades fundamentais?
Onde estamos?
Sinais despontam a apontar noutro sentido:
Ele é o Fundo Monetário Internacional a por tónica no crescimento;
Ou a União Europeia que pela boca de Durão Barroso, diante das evidências, como voz da moderação se constitui também.
Onde estamos?
Haverá na Europa um tribunal constitucional que tenha força de lei sobre todos os outros?
Ou uma lei fundamental que a todas as outras se lhes imponha?
Onde estamos, para onde vamos?
A somar a tudo isto, que tem a dizer o Banco Central Europeu que, implicitamente, o não tenha dito já ao constituir-se como supervisor e, logo, como garante contra as derivas financeiras europeias?
E, at last but not least, onde fica a vontade soberana dos povos?


a perguntar se faz o caminho



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Janeiro de 2013



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

QUATRO

Duy Huynh, Homesick Traveler

 
 

Quatro anos passaram desde então
desde o dia em que vos escrevo de supetão
após muitos outros em que me dei
noutros suportes prévios onde cantei
 

Quatro anos sem desarmar àquilo que sei
sem esmorecer expus e não parei
por muito que vos parecesse em vão
a saga que aqui me traz e mantém são


Cada vez que escrevo o que me dão
por quanto o não oiça sentirei
que é muito mais do que um simples não


Já que no que escrevo o que amei
me traz nesta vigília e estende a mão
a todos a quem jamais os esquecerei


no quarto aniversário deste meu blogue
 

 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Janeiro de 2013
 
 
 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

LITTLE POEM

Paula Rego, Escape to Egypt, 2002
 
 
 
Happy New Year
with open mind
and wishfulness clear
 
 
 
 
Jaime Latino Ferreira
Estoril the 1st January 2013