sábado, 9 de fevereiro de 2013

A 4






De A7 a A6, a A5 e até chegar aqui.
À folha de carta.
Uma carta de amor.
Uma carta de amor onde te digo tudo e nada.
Tudo o que sempre disse e mais ainda no meio de tudo o que sempre fica por dizer:
Que não consigo viver sem ti e sem os teus mil e um encantos, sem a tua sedução.
Artes, afetos.
Dia após dia neste nosso abençoado bem-estar.
Neste nosso saber viver.

Meu amor,
Sem ti …
Sem ti nada seria porque sem ti definharia.
Sem ti, neste casulo que se reconstrói todos os dias numa metamorfose permanente que se transforma em crisálida e abre, voa para o mundo.
Que a ele se dá todos os dias.
Sem descanso ou apenas com aquele onde em ti repouso para recomeçar tudo outra vez.
Sem ti que seria de mim?
De mim em tudo o que te contei e que assim, logo no nosso longo e reflexivo envolvimento, aos dois, nos predispôs.
Sem ti.
Ó meu Deus, que seria de mim sem ti?


miniaturas, contagem decrescente 4



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Fevereiro de 2013



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A 5




Mais a desdobro e me espanto
à folha no seu encanto
é como o amor que se abre
e dá mais sem que nos farte

Fértil no que quero dar-te
desenrola-se qual manto
em tudo o que dá e reparte
ecoa num simples canto

Soa mais alto que o pranto
que em nós sangra e num aparte
louvo o amor e o levanto

Amor não deixes de parte
o sofrimento a um canto
na força da nossa arte


miniaturas, contagem decrescente 3



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Fevereiro de 2013



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A 6





Desdobro a folha e encontro
mais palavras que dizer
saem-me assim de pronto
sem ter mais nada a perder

Num canto da folha a escrever
inundo-a do que te conto
o que te conto prazer
sem vírgula e sem ter um ponto

União do nosso querer
amor sem nada de tonto
nascente que verte a correr

O que nos une aqui monto
emaranhado crescer
cadilho sem ter pesponto


miniaturas, contagem decrescente 2



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Fevereiro de 2013



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A 7






Quando digo que te amo
é um caudal que anuncia
o fluxo que do meu ramo
no teu se enlaça e confia

Quando digo que te amo
eternidade num dia
numa folhinha proclamo
o cimento que nos fia

Quando digo que te amo
o que em ti vejo me cria
quanto mais vejo selamos
a vontade que procria

Quando digo que te amo
o que em ti sinto dizia
que o que te digo é meu amo
senhor de quanto me guia

Quando digo que te amo
quanto disse o sabia


miniaturas, contagem decrescente 1



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Fevereiro de 2013



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

CULTURA





Cultura
magia
é minha alma
inspirada
qual projetor
na pantalha
que a reflete
e trabalha

Cultura
porfia
viaja na minha palma
por muito que seja acossada
neste ardor
não se atrapalha
e promete
que não falha

Cultura
meu guia
sacode-me e me acalma
é céu de noite estrelada
no alvor
da madrugada
meu frete
e minha estrada


como se dissesse que por muito que a Cultura pareça nos ser vedada está também nas mãos de cada um de nós cultivá-la e revificá-la

a EVB, ao cinema, in memoriam a Pablo Neruda



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 4 de Fevereiro de 2013



domingo, 3 de fevereiro de 2013

COMO MÚSICA



Maggie Taylor, Surreal  Photography



Minha língua é território sem fronteiras
nela vagueio pelo mundo inteiro
percorro-o de mil e uma maneiras
sem conhecer distâncias de permeio

À minha língua a monto em volteio
épico cavalgar que por ladeiras
conhece como o sangue o seu veio
que ao teu o não derrama por cegueiras

A língua como a música são bandeiras
multicolores formas altaneiras
que ergo aqui bem junto ao meu seio

Minha língua como o intenso amor primeiro
plural é como a musa e em vós premeio
a paz sublime odor sem ter barreiras


da música, da língua e da alegria



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Fevereiro de 2013



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

PORQUÊ


Igor Lihovidov, Fall Color Stories



Porque será que, invariavelmente, aqueles que a mim me parecem ser os meus textos mais acutilantes e profundos como este último, plataforma estratégica global que escrevi, afinal, são também aqueles que menos reações suscitam?
São aqueles que desencadeiam menos likes ou gostos ou menos comentários, visitas, eventualmente?
São aqueles que provocam, aparentemente, maior indiferença?

Perpassa-me, muitas vezes, a sensação de que as pessoas vivem de tal modo submersas nas suas mais do que compreensíveis circunstâncias que delas são incapazes de se distanciar, fechadas que ficam nas suas modorras.
Generalizar é sempre um pau de dois bicos e, imagino, quem me ler tenderá a não se rever naquilo que acabei de escrever, no entanto …
No entanto, ai de quando a reflexão sai dos cânones habituais fazendo apelo a isso mesmo, à reflexão e não menos à sistematização ou, se quiserdes, ao distanciamento do nosso comum rame-rame ou das nossas pequeninas ainda que mais do que legítimas, esmagadoras e prioritárias agendas particulares.
É incómodo, eu sei.
Mas, quando tal acontece, fico sempre com um amargo de boca que a mim mesmo, em ricochete me atinge, como se a mim próprio me interpelasse:
Então, Jaime, desorbitaste ou quê?
E é aí que leio e releio procurando pontas soltas naquilo que escrevi ou qualquer coisa que ao meu raciocínio o torne menos consequente, estruturado ou, quiçá, mais nebuloso.
E não o encontro!

Porque será …?
Por todas as razões enunciadas e por mais uma:
Não sou daqueles que visitam os outros para que os outros me visitem a mim.
Nem me sobraria tempo para o que quer que fosse quanto mais para aquilo que escrevo e que para mim muito embora, julgo, não apenas para mim, tem absoluta prioridade.
Opções.
Os meus textos ou valem por si ou não o valerão de todo!


obrigado a todos a quem esta minha sensação sempre os constituem como honrosa exceção



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 1 de Fevereiro de 2013