sexta-feira, 22 de maio de 2009

ARTE E VIDA

-
Qual a diferença entre a vida e a arte?

Ambas não se devem, não se podem destruir mas a diferença está em que a vida pode ter arte mas a arte, essa, tem vida.
-
PÁGINA DE UMA ARTE COM LÁGRIMAS
-
Obrigada João, mas aqui partilhas a arte com esta pena que sinto no teu abandono desta Casa Encantada.
Sofrias, entre muitas outras, da doença incurável do Cinema, mas não foi ela que hoje te atraiçoou.
Durante anos, aprendi contigo a emoção de viver as histórias da nossa vida, copiadas ao milímetro pelos que, como tu, entendem do Tempo e do Modo.
Afinal sempre foste um bom Professor.
-
A João Bénard da Costa, que mudou hoje de Casa.
-
Manuela Baptista
Estoril, 21 de Maio 2009
-
CASA ENCANTADA
-
Casa Encantada é sentido
Da arte à Pessoa amada
É a saudade volvido
Um projector nesta estrada

-
É o cinema de cada
Um que o canta envolvido
É tudo e pode ser nada
Por muito que tenha sido

-
Teu holofote benzido
Tua vontade cantada
Neste Povo celebrada

-
Cinemateca suada
Onde as fitas tenham tido
Lugar e hora marcada
-
( Sonetinho à memória de Bénard da Costa )
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Maio de 2009

-
À memória dos Artistas na pessoa de João Bénard da Costa que ontem se despediu de nós


quinta-feira, 21 de maio de 2009

SINCOPADO

http://www.youtube.com/watch?v=B2UHCm1Yfsc
-
Por vezes eu dou guinadas
Sincopadas quais pancadas
Salto de um elo perdido
Para uma carta desabrido
-
Ponho à escuta o meu ouvido
No que me diga sentido
Sigo um elo de fadas
Tiro parras encontradas
-
Arranco em poucas penadas
O que me diz tinha sido
Na prudência consumido
-
Sem deixar ser corrompido
Pelo silêncio em lufadas
Aqui me têm estouvadas
-
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Maio de 2009

CARTA PARA ALÉM DO ATLÂNTICO


ROBERTO NEY
-
Caro Amigo,
Fui ao seu espaço e nele tentei introduzir um comentário que, para minha grande pena (!), se apagou!
O mesmo já tinha acontecido no Seu outro blogue e, por isso, por haver qualquer coisa que me escapa e que me impede de interagir nos Seus blogues, resta-me tentar escrever aqui e outra vez, o que neles quis introduzir.
Vamos lá a ver:
O sexo está na cabeça, ela contém ambos, e é nela que ele se resolve.
Resolve no sentido de se realizar!
O sexo não é simples morfologia!
Ele é um composto complexo feito do genético e do adquirido, do cultural, sendo que as fronteiras entre uma e outra coisa e por mais que se tentem definir, não são estáticas mas movediças, variam com o espaço e com o tempo, de pessoa para pessoa e de idade para idade.
O sexo não é apenas um meio, factor de reprodução ou instrumento do prazer, estritamente falando.
O sexo também não é simples mecânica nem atributo exclusivo de apêndices, envolve, eventualmente (!) o Outro e no outro ele é tão complexo como em mim mesmo também.
Em cada um de nós e independentemente do seu sexo, na cabeça está o feminino como o masculino e necessariamente também o neutro, essa capacidade que temos de nos distanciarmos, de tentar ver de fora essa interacção que no Outro e em mim próprio se realiza e que, portanto, ao Outro e a mim mesmo tem de ter em consideração como indivíduos e não instrumentos que, de facto, sublinho, não somos.
Não somos meios que indiscriminadamente se possam usar para atingir os nossos objectivos!
Falo do respeito pelo Outro na sua integralidade, indivisibilidade o que pressupõe o respeito pela Pessoa Humana nos seus direitos em interacção com os meus e os deveres que nela, nessa interacção ao Outro e a mim próprio nos obrigam.
O resto é espuma dos dias, preconceitualidade que apenas ofusca e bloqueia a reflexão livre e empenhada, porque só pode é sê-la (!), séria sobre o assunto.
E sem puritanismos perversos!
Mas, aquilo que o sexo é e nestes pressupostos que considero incontornáveis, já não é pouco.
Ai não é não!
Um grande Abraço, Seu
-
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Maio de 2009

Colecção Berardo, Lisboa, Centro Cultural de Belém

quarta-feira, 20 de maio de 2009

ELO PERDIDO

http://www.youtube.com/watch?v=bD1zZo_DR4s
-
O elo perdido
na nossa vida
é também aquele que nos catapulta
para a idade da razão
que adormece ou não e quando não
resolvido
faz dela a sua força maior
-
Refiro-me ao fio quebrado
esse elo
que menosprezado
é
normalmente
tratado com condescendência
obliterado
-
É fio de voz
Som de flauta
Pan hipnótico
Pauta
Que à infância
Enfeitiça
E a divorcia
Da liça
-
-
( A propósito do suposto elo perdido de ligação entre o Homo Erectus e o Homem Moderno, cuja descoberta a Google hoje celebra. )
-
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 20 de Maio de 2009

terça-feira, 19 de maio de 2009

POEMA MATEMÁTICO

Matemática
Negativa
À esquerda
É a nativa
Numeração
Sem ter fim
É racional
Não o medo
Valor tem e o condão
-
Matemática
Positiva
À direita
Subversiva
Do número faz confusão
Irracional inflação
Sem ter nenhum dó de mim
E que tarda
Em ter um fim
-
Está no centro
O número zero
Natural e infinito
Cabe nele
O Mundo inteiro
É a bitola
O espelho
É o fiel
Por que anseio
-
-
Cara esposa
Minha voz
Espelho meu
Que trago a Vós
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 19 de Maio de 2009

ESTATÍSTICA E CULTURA

Estatística ou colecta de dados quantitativos, recurso metodológico para se obter objectividade e/ou grau de certeza quanto à relação entre hipóteses e análise dos dados e as suas interpretações.
Cultura ou ilustração, o saber de uma pessoa ou de um grupo social.
Pode-se quantificar os saberes mas não o saber.
Se são complementares, as duas noções, estatística e cultura, não se esgotam uma na outra.
A cultura não é uma mera colecta de dados, mede-se antes na capacidade em os organizar num todo coerente, de qualidade intrínseca e se é estatística, então é-a apenas na medida em que saiba relacionar dados com hipóteses e as suas interpretações.
Mais do que enumerar muitos dados, o saber é a capacidade de dialecticamente os relacionar e mesmo se a contra-corrente.
O saber não se sufraga, não tem razão porque muitos o corroborem.
A força do saber, da cultura, advém-lhe da sua coerência interna e nesse sentido sim, da sua força estatística.
Estatística e cultura convergem mas divergem também.
O saber, a cultura não se vota, é.
Tal como uma fórmula matemática, uma hipótese científica, uma obra de arte, uma ária de Mozart ou o amor.
-
Mulheres
Vós que sabeis
O que é o amor
( ... )
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 19 de Maio de 2009

domingo, 17 de maio de 2009

SEM PÁGINAS DE UMA ARTE

IV - CONTA COMIGO
-
O RAPAZ SÓ E A MENINA QUE NÃO VIA AS ESTRELAS
-
O Rapaz Só era resmungão, não gostava da escola, com fama de mau aluno fazia tudo para a manter e até tinha um certo orgulho nisso. Os professores às vezes perdiam a paciência e muitos desistiam de o ajudar. Apenas uma das professoras conseguia ver para lá da arrogância e do desinteresse, o rapazinho assustado e só, que ele realmente era.
Tinha poucos amigos e como não sabia resolver os problemas pacificamente assustava os mais novos e a sua atitude arrogante afastava os companheiros.
O Rapaz Só não gostava de ser tocado, mal alguém o agarrava, puxava um braço ou lhe segurava a mão, reagia com violência e sacudia os outros afastando-se.
Os avós diziam:
"É um rapaz valente, não tem medo de nada", mas sentiam que ele não era feliz, que fingia apenas ser grande e forte.
Às vezes antes de adormecer o Rapaz Só, sentia de novo a mão da mãe que o tocava levemente no rosto, lhe afagava a nuca e todos os medos se desvaneciam e ele já não era o Rapaz Só, mas um menino da sua mãe a brincar de novo na areia da praia, a enfrentar com ela as ondas, a gritar de alegria como as gaivotas, a mergulhar como os golfinhos, a galopar Cavalos Marinhos. Muitas vezes faltava à escola, fugia para a praia e numa rocha solitária ficava ali, a conversar com o mar e a contar-lhe das saudades que tinha da sua mãe, até o sol se pôr, até as estrelas começarem a piscar.
O Rapaz Só era fraco a Matemática e a Português, mas conhecia bem as estrelas, as constelações, os seus nomes e o seus desenhos nas noites estreladas.
-
A Menina Que Não Via as Estrelas, era pequenina para a idade, tímida e envergonhada. Passava a vida a tropeçar, esbarrava nas pessoas e chegava muitas vezes atrasada à escola porque, sem saber como, enganava-se no autocarro que tinha de apanhar todas as manhãs.
As pessoas diziam:
"Que menina distraída, parece que não vê o que está mesmo à frente do nariz!".
A Menina suportava tudo isto pacientemente, sabia que era míope e que precisava de óculos, mas a mãe adiava esta questão, porque havia sempre qualquer coisa mais importante do que ela lá em casa: o casaco para o irmão mais velho, as botas para o mais pequeno e a conta do gás; mas do que ela tinha verdadeiramente pena era de não conseguir ver as estrelas! Ela sabia que existiam, lá bem alto no céu, mas conhecia-as apenas pelas ilustrações dos seus livros de estudo.
A professora da Menina Que Não Via as Estrelas, sentava-a perto do quadro, explicava-lhe as lições e até já andava um pouco zangada com esta mãe e com o seu projecto de óculos eternamente adiado.
-
A Menina Que Não Via as Estrelas e o Rapaz Só, encontravam-se às vezes no pátio da escola e apesar de tão diferentes e distantes começaram a conversar, a contar onde viviam, o que faziam, as coisas de que gostavam e as coisas que odiavam.
O Rapaz falou dos avós, das saudades que tinha da mãe, de como não gostava da escola, da sua rocha na praia e das suas escapadelas nas noites de luar.
A Menina falou da dificuldade que tinha em ver as coisas distantes, de como gostava da escola e da professora, de como às vezes se sentia só no meio da sua grande família e da sua tristeza por não poder ver as estrelas.
O Rapaz disse:
"Não faz mal, eu conheço bem as estrelas e vou-te ensinar tudo o que sei sobre elas e assim não te vais esquecer de nada e será como se as pudesses observar!".
Então, todos os dias se encontravam e todos os dias falavam da ciência das estrelas e da ciência das suas vidas.
E a pouco e pouco o Rapaz foi aprendendo a dar e a receber e quando a Menina lhe pousava a mão sobre o ombro ele já não saltava desconfiado.
Um dia a Menina recebeu finalmente os seus óculos cor-de rosa e depois das aulas foi com o Rapaz à praia e este mostrou-lhe a rocha solitária onde se costumava sentar. Ficaram muito tempo ali, os dois a contemplar o sol e a rirem-se das coisas espantosas que a Menina via com nitidez. Não arredaram pé até a noite chegar, a invisível Lua Nova fazia o céu resplandecer de escuridão e aí pela primeira vez a Menina Que Não Via as Estrelas viu as estrelas e o Rapaz Só apontou-as uma a uma e juntos disseram o nome de cada uma delas.
-
No dia seguinte, na aula de Português, o Rapaz Só começou a escrever, a escrever sem nunca mais parar, soltou a alegria imensa que tinha sabido partilhar e sentiu-se bem e feliz. Quando a professora lhe pousou a mão sobre a nuca para recolher o teste, o rapaz estremeceu, mas em vez de se encolher e afastar, sorriu e disse:
" Eu hoje gostei desta aula, professora!"
Ao mesmo tempo na aula de Ciências a Menina Que Não Via as Estrelas, orgulhosa dos seus óculos novos, conseguiu ler as perguntas escritas no quadro e sem hesitar respondeu a todas e não errou nenhuma. Por baixo assinou: "Menina Que Vê as Estrelas".
-
-
À Isabel Venâncio que inspirou O Rapaz Só,
à
Filomena que deu vida à Menina Que Não Via as Estrelas,
aos Professores que sabem fazer a diferença e sair do Fundo do Pântano.

http://www.youtube.com/watch?v=Vbg7YoXiKn0
-

Celebrando:
"Stand By Me"- Conta Comigo- 1986
Realizador: Rob Reiner
Música: Ben E. King
"Au Revoir Les Enfants", "Adeus Rapazes"-1987
Realizador: Louis Malle
"Les Choristes"-
2004
Realizador: Christophe Barratier
Música: Bruno Coulais
e
Franz Schubert: Momentos Musicais 2

-
Manuela Baptista
Estoril, 17 de Maio de 2009