Uma noite um Peixe-Lua cansado de nadar, veio dar a uma praia de conchas e areia fina. Soprava um vento frio e o Peixe para se aquecer acendeu uma fogueira, com muito cuidado, para não grelhar as suas próprias barbatanas e ali ficou a brincar com a areia quente e com as conchas, a fazer uma espécie de bolas de sabão, mas que não eram de sabão, eram bolas de vidro brilhante e transparente.
O Peixe-Lua sabia que tinha talentos, mas fazer bolas de vidro foi uma revelação! As bolas de vidro subiam pelo ar levadas pelo vento, umas em direcção ao mar, outras pela terra dentro. O peixe pensou:
”Será que algum pescador as descobre e as captura nas suas redes, como se fossem peixes como eu? Será que algum menino as cobiça e joga com elas como se fossem um brinquedo?”
Adormeceu docemente com a música crepitante da fogueira e assim não viu uma menina pequenina espantada com aquela noite especial, que em vez de estrelas lhe oferecia uma linda e redonda bola de vidro!
A menina, além de pequenina também era um pouco triste. Às vezes, os adultos não a compreendiam muito bem e diziam:“Cada vez está mais bonita esta menina, mas é tão estranha!”
A bola era tão grande e maleável que a menina não teve dificuldade nenhuma em entrar nela e disse:
“Esta bola vai ser a minha casa secreta! Aqui guardarei os meus tesouros, aqui posso esconder-me dos meus irmãos, quando eles me baterem ou me puxarem os cabelos ou quando quiser faltar à escola”.
E todas as noites a menina viajava na sua bola de vidro, espreitando o mundo sem que ninguém a visse mas vendo tudo e todos com a nitidez das manhãs antes da chuva.
Nela guardava as coisas boas que possuía, as recordações que ia acumulando e que assim não se perderiam nunca e jamais seriam esquecidas.
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Ao Jaime digo,
a Matéria dos Sonhos também é a memória das coisas e das pessoas que mantemos vivas. Este texto foi escrito e dirigido à Isabel Venâncio a propósito da sua página "Dualidades",por isso pertence-lhe. Mas a matéria dos blogues também tem a sua dualidade, eles são como a menina, um pouco estranhos...
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Manuela Baptista
Estoril, 27 de Maio 2009











