sexta-feira, 19 de novembro de 2010

UMA CIMEIRA, UMA GREVE-GERAL E MUITA ESPECULAÇÃO

Nadir Afonso, pormenor de painel de azulejos da passagem subterrânea que liga o Estoril Sol Residence ao paredão de Cascais, fotografia de Jaime Latino Ferreira
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I

UMA CIMEIRA
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Na distância percorrida que vai para lá da alargada simetria entre as siglas NATO/OTAN a dimensão de uma Aliança que se quer defensiva e multilateral no derrube dos muros perante a dispersão difusa de um inimigo que o nine eleven fez emergir e que impõe, pela natureza das coisas, ele também por antítese e como antídoto, a consagração do singular na sua integridade, individualidade não desmembrável nem escamoteável, sua finalidade e objectivo últimos de realização, matricial razão que sua, consolidadamente, mais e mais terá de ser.
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II
UMA GREVE-GERAL
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No erguer da justa indignação de quem vê sistematicamente frustradas as expectativas de realização para já não dizer que posta em causa a dignidade mínima a Liberdade, por muito que em seu nome se apregoe, vai claudicando.
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III
MUITA ESPECULAÇÃO
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Na muita especulação que, quer se queira quer não, se vincula à liberdade de expressão diante da qual mercados, instituições ou indivíduos só ficam nervosos se o quiserem ou se com ela e ainda que exercida destemperadamente, estes últimos não souberem coexistir e a ela soerguer-se.
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assim vou paulatina e sistematicamente, em breves linhas de força, reflectindo na madrugada do dia em que se inicia uma Cimeira da Nato em Lisboa, no anúncio de uma greve-geral em Portugal para o próximo dia 24 e na especulação interminável que vai enchendo o espaço público e publicado
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O Mundo é um Só
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 19 de Novembro de 2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O MUNDO É MUITO GRANDE

Nadir Afonso, pormenor de painel de azulejos da passagem subterrânea que liga o Estoril Sol Residence ao paredão de Cascais, fotografia de Jaime Latino Ferreira
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O mundo é muito grande
mas maior do que ele são as águas do mar que o banham
com toda a profusão de elementos que o povoam
que ao mundo o salpicam e fecundam
na imensidão de relevos que o esculpem
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Baixo-relevo
o mundo é uma imensa cordilheira
e seus baixios
um pontilhado sem fim de almas a perder de vista
sequiosas de um toque que as reanime
desencontradas no reencontro almejado
miragem fugidia em permanente desacato
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O mundo é muito grande
tão grande que teria dado a volta ao mundo
antes de a
ti te encontrar
e ao tocar-te ver-te
e amar-te
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o mundo não é maior do que a distância que vai de ti a mim
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Aquarium
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 17 de Novembro de 2010

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

DOCE MEMÓRIA

Goldfind, Elin Torger
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Talvez porque da minha memória prevaleça o que ela tem de doce, esta minha atitude inconformada sim, mas optimista ...
Que leva alguns a tratarem-me por jovem ...!
Jovem Jaime!
Jovem de cinquenta e seis anos de idade ...
No entanto ...!
Outros à minha produção literária, desatentos, a classificam como sendo cândida, quem sabe ingénua ...
Resguardo, é certo, doces memórias.
Faço-as por prevalecer mas não se conclua daqui que tenha sido poupado às adversidades ou que delas lhes não conheça o sabor amargo.
Elas povoam o meu percurso, tanto que ainda hoje elas sobrelevam na afirmação e no reconhecimento que tardam!
Tardam tanto mais quanto aqui me vou expondo sem desfalecer ...
Doce memória.
Ele há um canto em mim, pueril, juvenil que dominante percute a perder-se no tempo, doce memória filha de um coração nobre e despido do ódio, da corrosiva inveja ou da ácida amargura, que tocado pela dor da perda, da irremediável perda que logo a idade adulta consigo transporta, se supera, sublima e exalta, resolve e que sendo mais forte que tudo o resto, prevalecente, não deixo nem quero deixar em mim morrer ou ver-se esmagado ...
Já que mais forte ela, a doce memória, o é!
Subjectivo ... pois é!
Mas é a prevalência de uma doce memória que faz a nossa inquebrantável força que nos permite cercear o medo e construir de facto!
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em complemento a uma resposta dada à Brancamar na caixa de comentários da página anterior e que nela profícuo diálogo desencadeou, remato que o medo é deixar prevalecer o amargo sobre aquilo que em nós é doce
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Jovem
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Novembro de 2010

domingo, 14 de novembro de 2010

PAISAGEM DE SONHO

Dreamscape, Ian Plant
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Planto o que avisto
e de escape
germina a semente
que por muito que se tape
se alicerça no que aqui ponho
e que vai da raiz ao meu sonho
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Por mais que se cubra de xisto

a paisagem que dele sai
ao medo o corta rente e ao medonho
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não são as adversidades antes o medo que impede a concretização dos sonhos
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Doce Memória
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Novembro de 2010

sábado, 13 de novembro de 2010

OLHANDO PARA LÁ


looking out the window ..., Ursula I Abresch
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Afasto as cortinas
e olhando para lá delas
outras e sempre mais se interpõem
a perder de vista
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E mais e mais
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Procuro um cais
porto de abrigo onde possa repousar
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Aqui
junto a mim
me diz que sim
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Seguro
confiante
permanente
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E revolvendo-as
às cortinas como às páginas de um livro
qual quixote e seus moinhos
ao que procuro encontro
e com elas
decidido me confronto
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do que se vê para lá do que se vê, no dia da libertação de Aung San Suu Kyi que se deseja seja para valer
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Novembro de 2010
Acervo da Biblioteca Nacional

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

QUANDO A OBRA SAI À RUA

ilustração de autor não especificado e por mim livre e arbitrariamente trabalhada
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Quando a Obra não se contenta por ficar numa estante ou prateleira;
Quando a Obra não se contenta em se encerrar nas páginas de um livro;
Quando a Obra não se contenta em ser peça de museu;
Quando a Obra não se confina a um palco;
Quando a Obra extravasa o ecrã;
Quando a Obra dispensa intermediários ou de Todos faz seus destinatários;
Quando, na primeira pessoa, a Obra se neles e por si mesma já interpela, não contente à realidade directamente a desafia ...
Quando a Obra, saindo de todos os clássicos padrões, foge dos salões ou de recintos circunscritos e decidida sai à rua ... é um bico de obra!
Onde metê-la, onde encaixá-la!?
Quando a Obra nesse passo se obstina ...!?
Quando a Obra a outras Obras as interpela e com elas dialoga, replica e sem que por isso as faça por desmerecer, muito antes pelo contrário, onde meter a Obra entre todas as demais!?
Quando a Obra sai daqui e ali, na rua, persiste em permanecer recriando-se em permanência, onde é que ela começa e, verdadeiramente, acaba!?
Como prendê-la, circunscrevê-la, qualificá-la ou classificá-la!?
Quando a Obra permanece viva, que raio de nome atribuir-lhe!?
Quando a Obra é Obra entre as demais, pares e seus iguais, que maior obra do que essa!?
Quando essa Obra assim se afirma, que obra essa!?
E que Obra, construção entre as demais!?
Tu és Obra!
Eu sou Obra ...
Quando a Obra como é cada um de nós sai à rua e obra maior não há (!), o que fazer à Obra para onde quer que ela vá!?
E tanto mais quanto se obstine em afirmá-lo ser ...!?
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num tempo em que à Obra se não dá, quiçá, a devida relevância
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Ária de Corte
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 12 de Novembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

RÉPLICA A WILLIAM SHAKESPEARE

fotografia de Walter
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Não te Arruínes, Alma, Enriquece
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Centro da minha terra pecadora,
alma gasta da própria rebeldia,
porque tremes lá dentro se por fora
vais caiando as paredes de alegria?
P
ara quê tanto luxo na morada
arruinada, arrendada a curto prazo?
H
erdam de ti os vermes? Na jornada
do corpo te consomes ao acaso?
N
ão te arruínes, alma, enriquece:
vende as horas de escória e desperdício
e compra a eternidade que mereces,
sem piedade do servo ao teu serviço.
D
evora a Morte e o que de nós terá,
que morta a Morte nada morrerá.

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( William Shakespeare, in "Sonetos", tradução de Carlos de Oliveira )
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NÃO ME ARRUÍNO NÃO, MORTE É ALÇAPÃO
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Não tremerei por dentro nem por fora
nestas paredes que caio de alegria
nem poderia ser outra só pecadora
a máscara que assim em mim se fingiria
D
esta minha morada não tiraria
tudo o que dela retiro e assim dá azo
por mais arruinada não é uma casa fria
tão pouco é um lugar fora de prazo
M
inha alma não se arruína antes se aquece
não é simples comércio nem desperdício
nem à eternidade compro no que oferece
S
e a morte me devora não é serviço
o que de mim terá não me arrefece
a ela não lhe darei o meu ofício
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( réplica a William Shakespeare )
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dedicado a
Walter na fonte de inspiração que foi desta minha página
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Novembro de 2010
Caricatura de William Shakespeare