segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

EUFEMISMO











O eufemismo artista
é uma forma bem vista
de suavizar na figura
o que se crê com lisura

És artista e tens altura
não admira se dura
a profusão com que à vista
crias sem perder a pista

Artista ou poeta alquimista
tua escrita tem de pura
a vontade da candura

Mas pergunto-me com brandura
se o que escrevo tem de altruísta
quem me dá em troca alpista


sendo alpista uma outra e irónica figura de estilo, certo é que também de pão vive o homem










Jaime Latino Ferreira
Estoril, 25 de Janeiro de 2016





quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

REDE SOCIAL













Dizei-me o que importa o impacto
se mais não for que venal
e não o que se escreva o facto
que o torne imortal

Dir-me-ão fenomenal
a pesca de gostos de jacto
ou caso um sonante astral
os arrebanhe num ato

Que pouco importa no vale
não encontrar do graal
no que se crie um extrato

Mas é na palavra que trato
que reside o substrato
desta rede social


de sempre e para sempre











Jaime Latino Ferreira
Estoril, 20 de Janeiro de 2016



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

FACTO










Do meu facto vos dou conta
pouco importa se é de monta
é marca que não alieno
matriz com que vos aceno

Seja o que vejo pequeno
ou rochedo do rio Reno
aquilo que escrevo é montra
de um olhar que em mim se encontra

A tudo o que instile o obsceno
no que digo está o pleno
do desmontar de uma afronta

Pois o que conta desponta
da vontade que está pronta
a estancar todo o veneno









Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Janeiro de 2016





quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

ENSEADA











lugar amado
em minha estrada

É a palavra
minha enseada
e o meu fado






através dela me expondo, mesmo quando a palavra me falta é nela que me refugio








Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Janeiro de 2016





segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

DA PALAVRA












Tem ou não tem a palavra, pela sua própria natureza, o poder de nos tocar?
A não tê-lo, deverá ela deixar-nos indiferentes, descomprometidos, expurgada que a palavra devesse ficar da sua própria carga semântica, tornando-se inócua?
Ainda uma terceira reformulação da pergunta:
Admitindo, por um momento que fosse que a palavra seria inócua, de que nos serviria ela?

Começando pela última das reformulações e com ela a todas as anteriores perguntas lhes tentando responder, a ser inócua, a palavra não nos serviria de e para nada.
Sendo inócua e, por isso mesmo, não nos tocando ou comprometendo, a palavra seria um escusado e dispensável extra.
As ideias que as próprias palavras traduzem seriam uma absurda inutilidade.
Tocar.
Tocar, comprometer, impressionar, incomodar, desinstalar, transformar tanto para o melhor como para o pior, esperemos, estou certo que tendencialmente para o melhor.
Só assim, nessas capacidades que ela tem, a palavra ganha sentido pois que é disso mesmo que se trata:
A palavra sensibiliza, racionaliza, dá vida.
Ela não nos deixa nem nos pode deixar indiferentes e com outras palavras conjugada, muito menos ainda.

A palavra é a mais potente de todas as imagens.
Tão potente que ela altera a própria perceção que temos da realidade.
Senão pondere-se:
Não fora a palavra e o que seria dos objetos que compõem o real, naturais ou não e, nestes últimos, tal como seja, por exemplo, uma cadeira?
O que terá surgido primeiro, a ideia dela, da cadeira traduzida na sua própria conceptualização ou a cadeira propriamente dita?
O simulacro da cadeira talvez que a tenha precedido, mas que dizer do objeto que em si mesmo lhe dá nome?
E deixo-vos com esta e com a pergunta que se segue, mantendo-as no ar, na certeza de que a própria capacidade de nos interrogarmos de que este meu texto é, em si mesmo, um exemplo concreto, sem a palavra, não se teria desenvolvido ao ponto de criarmos uma cadeira.
E a Criação, o que seria dela e, a havê-Lo, do seu Criador sem os conceitos, elementos, em suma, sem as suas palavras constituintes?

A palavra, mas que extraordinário input!
Uma coisa é certa:
Mesmo se tudo já lá estava, antes da palavra era o caos e ainda que ressoante de um cadinho ou Input matricial, Big Bang criador.






a todos os que independentemente de acreditarem ou não, democratas, na palavra fazem por centrar a soberania











Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Janeiro de 2016





sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O PESO DA PALAVRA DADA




Amadeo de Sousa Cardoso, O Pastor







sendo a palavra condição democrática sine qua non, quando pela palavra tudo se porque dado o é, na palavra assim dada que peso democrático ela o tem?






nos sete anos sobre a criação deste meu blogue










Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Janeiro de 2016




quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O MEU JARDIM




1





Jardim 
de minhas deixas
murmúrios
e queixas
alvoraçadas
roseiras relhas
que são iscos
de apanhadas
buganvílias daninhas
alinhadas
em coboiadas
de surpresas escondidas
nas frésias
queridas
sempre e sempre renovadas

2


Jardim
deste confim
mundo a que vim
plantada nele a casa
e a araucária gigante
sem mais ter fim
altaneira
bandeira
deste festim

3


Jardim
que é meu refúgio
antúrio
amado
no lugar
perdido em si
que conta
quanto ele
fala por mim
num castanheiro repleto
que à magnólia
lhe diz sim

4


Jardim
o lugar certo
que está por perto
que de minha janela
vejo sempre em aberto
mesmo se em desmazelo
e de meu teto
o olho
numa carícia
com que lhe acerto

5


Jardim
de folhas velhas
minhas pérolas
de um ano findo
que a um novo
o faz bem-vindo

6


Jardim
de laranjeiras e limoeiros
ameixoeiras
dos frutos
que em mim nascem prazenteiros
ninho agridoce
em que desperto

7











Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Dezembro de 2015