segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

FACTO










Do meu facto vos dou conta
pouco importa se é de monta
é marca que não alieno
matriz com que vos aceno

Seja o que vejo pequeno
ou rochedo do rio Reno
aquilo que escrevo é montra
de um olhar que em mim se encontra

A tudo o que instile o obsceno
no que digo está o pleno
do desmontar de uma afronta

Pois o que conta desponta
da vontade que está pronta
a estancar todo o veneno









Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Janeiro de 2016





quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

ENSEADA











lugar amado
em minha estrada

É a palavra
minha enseada
e o meu fado






através dela me expondo, mesmo quando a palavra me falta é nela que me refugio








Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Janeiro de 2016





segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

DA PALAVRA












Tem ou não tem a palavra, pela sua própria natureza, o poder de nos tocar?
A não tê-lo, deverá ela deixar-nos indiferentes, descomprometidos, expurgada que a palavra devesse ficar da sua própria carga semântica, tornando-se inócua?
Ainda uma terceira reformulação da pergunta:
Admitindo, por um momento que fosse que a palavra seria inócua, de que nos serviria ela?

Começando pela última das reformulações e com ela a todas as anteriores perguntas lhes tentando responder, a ser inócua, a palavra não nos serviria de e para nada.
Sendo inócua e, por isso mesmo, não nos tocando ou comprometendo, a palavra seria um escusado e dispensável extra.
As ideias que as próprias palavras traduzem seriam uma absurda inutilidade.
Tocar.
Tocar, comprometer, impressionar, incomodar, desinstalar, transformar tanto para o melhor como para o pior, esperemos, estou certo que tendencialmente para o melhor.
Só assim, nessas capacidades que ela tem, a palavra ganha sentido pois que é disso mesmo que se trata:
A palavra sensibiliza, racionaliza, dá vida.
Ela não nos deixa nem nos pode deixar indiferentes e com outras palavras conjugada, muito menos ainda.

A palavra é a mais potente de todas as imagens.
Tão potente que ela altera a própria perceção que temos da realidade.
Senão pondere-se:
Não fora a palavra e o que seria dos objetos que compõem o real, naturais ou não e, nestes últimos, tal como seja, por exemplo, uma cadeira?
O que terá surgido primeiro, a ideia dela, da cadeira traduzida na sua própria conceptualização ou a cadeira propriamente dita?
O simulacro da cadeira talvez que a tenha precedido, mas que dizer do objeto que em si mesmo lhe dá nome?
E deixo-vos com esta e com a pergunta que se segue, mantendo-as no ar, na certeza de que a própria capacidade de nos interrogarmos de que este meu texto é, em si mesmo, um exemplo concreto, sem a palavra, não se teria desenvolvido ao ponto de criarmos uma cadeira.
E a Criação, o que seria dela e, a havê-Lo, do seu Criador sem os conceitos, elementos, em suma, sem as suas palavras constituintes?

A palavra, mas que extraordinário input!
Uma coisa é certa:
Mesmo se tudo já lá estava, antes da palavra era o caos e ainda que ressoante de um cadinho ou Input matricial, Big Bang criador.






a todos os que independentemente de acreditarem ou não, democratas, na palavra fazem por centrar a soberania











Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Janeiro de 2016





sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O PESO DA PALAVRA DADA




Amadeo de Sousa Cardoso, O Pastor







sendo a palavra condição democrática sine qua non, quando pela palavra tudo se dá porque dado o é, na palavra assim dada que peso democrático ela o tem?






nos sete anos sobre a criação deste meu blogue










Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Janeiro de 2016




quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O MEU JARDIM




1





Jardim 
de minhas deixas
murmúrios
e queixas
alvoraçadas
roseiras relhas
que são iscos
de apanhadas
buganvílias daninhas
alinhadas
em coboiadas
de surpresas escondidas
nas frésias
queridas
sempre e sempre renovadas

2


Jardim
deste confim
mundo a que vim
plantada nele a casa
e a araucária gigante
sem mais ter fim
altaneira
bandeira
deste festim

3


Jardim
que é meu refúgio
antúrio
amado
no lugar
perdido em si
que conta
quanto ele
fala por mim
num castanheiro repleto
que à magnólia
lhe diz sim

4


Jardim
o lugar certo
que está por perto
que de minha janela
vejo sempre em aberto
mesmo se em desmazelo
e de meu teto
o olho
numa carícia
com que lhe acerto

5


Jardim
de folhas velhas
minhas pérolas
de um ano findo
que a um novo
o faz bem-vindo

6


Jardim
de laranjeiras e limoeiros
ameixoeiras
dos frutos
que em mim nascem prazenteiros
ninho agridoce
em que desperto

7











Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Dezembro de 2015




quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

QUAL O GÉNERO QUE TEM DEUS




Menino Jesus Salvador do Mundo, Igreja Matriz de Cascais, 1673







Qual o género que tem Deus
pois se a todos os contém
se o tivesse quais pigmeus
seus crentes seriam ninguém

O deus e a deusa convergem
em politeístas troféus
que figurados a alguém
são proselitismos plebeus

Assim se fariam réus
os outros géneros dos seus
eleitos à margem dos céus

Mas sem género a todos tem
por igual e sem desdém
aquém e para lá do além





por insondável nos seus desígnios, Deus não se define
pelos nossos estritos, preconceituosos ou exclusivos parâmetros










Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Dezembro de 2015



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

PERGUNTA E RESPOSTA NUCLEARES




Egon Schiele, The Holy Family, 1913






a maior das debilidades é a que pela força física se manifesta


Na sequência da última página do meu blogue, Da Triangulação Nuclear e em seu complemento, deixo-Vos com uma pergunta e uma resposta, elas também, nucleares:

Por que razão as narrativas sagradas que bem se espelham na simbiose simbólica do Sinal da Cruz, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo que em si mesmo contém, ele também, uma narrativa são feitas, grosso modo, no masculino?

Por duas razões que diria fundamentais:
A primeira porque, historicamente, o elo menos confiável da cadeia genealógica sempre foi, pela impossibilidade senão recente de o demonstrar, o elo masculino pois que se sabia quem era a mãe ou o elo feminino e a/o filha/o ou o elo neutro, em alemão, por exemplo e só para citar esta língua, existe o género neutro ao qual a criança, gramaticalmente, pertence mas quanto ao primeiro não havia senão como pela palavra, quando não e quantas vezes pela força, o estabelecer;
A segunda porque uma vez firmado o elo masculino já que hoje suscetível de ser demonstrado cientificamente e acresce, com o avanço da ciência e a emancipação feminina, ambos histórica e paradoxalmente coincidentes com a proliferação dos santuários marianos, daí, quiçá e também, a atratividade destes últimos num deus ainda que subliminarmente feito mulher, tornam-no, ao masculino, um elo ainda mais débil dessa mesma cadeia na presunção da sua própria subalternidade quási descartável.
Estes factos conferem outra luz ao Sinal da Cruz como poderoso fator de coesão social a corroborar a sua intemporalidade imorredoira, todos somos, simultaneamente, pais e/ou mães, logo, Pai ou parentes, Filho/s ou neutros enquanto crianças e Espírito/s Santo/s no que dele, do espírito e de inviolável, em nós mesmos transportamos a denunciar à saciedade a reação reflexa bem tradicionalmente masculina, aliás, sinal de insegurança convertida em força física e/ou em estatuto, em si mesmos, afinal, demonstrações cabais da mais completa e flagrante das debilidades de que os fundamentalismos e o terror são, mais do que nunca, desesperadas e tardias, misóginas manifestações de quem dos seus derradeiros redutos se recusa a abrir mão e a partilhar.
Deus está na trilogia dos géneros que a uns não confere mais do que aos outros ou do que aos outros os iniba de ser uns, quer dizer, inteiras e trinitárias individualidades.



ao arrepio do medo, uma vez mais, Boas Festas










Jaime Latino Ferreira
Estoril, 10 de Dezembro de 2015