segunda-feira, 30 de novembro de 2015

DA TRIANGULAÇÃO NUCLEAR



Egon Schiele, The Holy Family, 1913







criança, mulher e homem merecem igual respeito e veneração porque todos os três em mim coabitam

simultaneamente neutro, feminino e masculino, eis o sacrossanto lugar, a gruta ou o Presépio, a triangulação nuclear em que cada qual, no integral respeito do e no Outro que na criança encontra as suas invioláveis balizas se constitui, conjuga, deve projetar e que até ao infinito se replica

tudo o mais que envolva o género resulta de minudências ou do risível de um olhar conspícuo ou seja, de uma perspetiva que toma o amor pelo preconceito, amor esse que sendo trinitário e indivisível, no mistério que encerra, nesse remanescente pelo género não se pauta nem se deixa condicionar


na certeza de que Deus é, antes de mais, criança, remetendo para a página anterior e para a minha última carta ao Papa, deixo-Vos com um profundo desejo de Paz




BOAS  FESTAS









Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Novembro de 2015



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

DA MEDIANIA PREVALECENTE NAS RELIGIÕES




aus der Tiefen rufe ich, Herr, zu dir = das profundezas clamo por Vós, Senhor






um dos problemas que afeta todas as religiões consiste em que elas se constituem muito mais como guardiãs dos costumes, coisas da esfera temporal, do que em guardiãs do Santo ou dos Santos Nomes e, logo, da sacralidade, da inviolabilidade da pessoa humana o que não tem a ver, senão no seu cerne, no simbólico amiúde adulterado, com o consuetudinário

uma vez vencido este espartilho em que as religiões vivem enredadas, enredadas pelas conveniências temporais, pela gestão de sensibilidades ou pela mais pura e dura politiquice que outras e universais, abrangentes, poéticas leituras não se extrairiam e abririam, libertariam a partir de todos os textos sagrados por esse espartilho quartados da holística, da ética como da estética?

quem assim escreve é alguém profundamente religioso e inconformado com a captura das religiões por mais ou menos inconfessáveis propósitos que a estes lhes confere prova de vida que tantas vezes no mais elementar desrespeito pela vida humana se consubstancia



* contrariando choques de culturas, a xenofobia e, em suma, o medo, enquanto o que aqui escrevi não for encarado e de frente por todas as religiões, a luta contra o terror não passará de uma miragem e não será levada de vencida *











Jaime Latino Ferreira
Estoril, 25 de Novembro de 2015




domingo, 22 de novembro de 2015

ESGRIMA










Quando escrevo faço esgrima
luta com regras e enzima
que atinja o terror e o esprema
touche en garde tem por lema

Nesta batalha se encena
humanidade terrena
a vida que não se mina
a sabedoria que ensina

Que nos meios está a cena
o objetivo que inquina
a causa que se defenda

Que nos meios está a finta
da crença que se despenda
e do inominável a blinda




no dia de Stª Cecília, padroeira da música, essa poderosa arma contra o obscurantismo e não se me dando que me chamem quixote da palavra, muito antes pelo contrário, tomando-o como uma lisonja, na certeza de que é por ela, pela palavra e antes de mais que se encontra o antídoto para o fanatismo, em memória de todas as vítimas do terror








Jaime Latino Ferreira
Estoril, 22 de Novembro de 2015




quarta-feira, 18 de novembro de 2015

DA LUTA PELO REFORÇO E PELA HEGEMONIA DO CENTRO



Wassily Kandinsky, Composition 8, 1923







A realidade daquilo que se passa no microcosmos nacional, ele é disso uma amostragem, traduz, em última instância e pesem ou não todos os sinais contraditórios, a luta pelo reforço e pela hegemonia do centro político mais e mais abalado, interpelado tanto mais quanto pelos recentes acontecimentos em Paris, mas que importará não descurar.
Nessa luta, o que é que está em causa?
A nível geral, isto é, no quadro da União Europeia no seu conjunto, a possibilidade ou não de existir alternativa ou alternativas às políticas que nela têm vingado, alternativas essas que são, em si mesmas, condição democrática e, convenhamos, as posições têm-se extremado, a União Europeia mostra-o à saciedade em prejuízo do centro político que se tem rarefeito e isto já para não falar nas derivas centrífugas ou ao arrepio dos seus tratados constituintes e que em crescendo a assolam e paralisam.

Nos quadros específicos das realidades nacionais de que Portugal é um paradigmático exemplo e mais ainda quanto conserva um xadrez político a lembrar aquele ao tempo dos pais fundadores da Europa, o que é que está em jogo?
Durante muitos anos, dezenas, diria, um dos partidos do centro, o Partido Socialista viveu acantonado entre a sua esquerda e o centro-direita, comprometido com este último nos seus compromissos soberanos e acicatado à sua esquerda, incapaz de com esta se entender, espremido por uma tenaz que o constrangia e que o impedia de se expandir, muito antes pelo contrário, com um mínimo de sustentabilidade.
O centro-direita, liderado pelo Partido Social-Democrata, por seu turno e porque entre si e com o seu extremo se entendia, não raro conquistou maiorias absolutas.
No primeiro caso, o do PS estas foram a exceção e no segundo, o do PSD, quiçá, a regra que agora se vê, de súbito, posta em causa.

Os constrangimentos do resgate a que o país, entretanto, foi sujeito pelas condições por ele impostas, esses fizeram o centro-direita, entretanto e uma vez mais constituído em maioria absoluta, infletir à direita e cavaram uma fratura ao centro que, pelo menos a prazo, se antevê difícil de superar.
Assim e jogando com o fator surpresa, infletindo, por sua vez, à sua esquerda, o PS e quebrando um estigma cujas origens históricas se perdem no tempo o que, em si mesmo, constitui um facto histórico, entendeu-se, finalmente, à sua esquerda cooptando-a, propositivamente e em simultâneo, às responsabilidades ainda que indiretas da governação sem deixar de reafirmar os princípios que com o centro-direita, desta feita acantonado e refém da sua direita, repito, comunga e partilha.

Quem está, então e independentemente da resolução do impasse a que se assiste na constituição de um novo governo e que é, em si mesmo, fator de instabilidade, em condições de refazer o centro político?
Respondo como se segue:
Na certeza de que a crispação ou a vendetta desfavorecem aqueles que nelas persistam, independentemente dos atores políticos que a uns e a outros os liderem, quem esteja em condições de criar pontes para onde quer que se vire criando folga e, logo, margem para o crescimento.
Esse ou esses deixarão de ficar acantonados e criarão espaço para crescer ao centro porque é no centro e mesmo se, por ora, difusamente espartilhado que se continuam a ganhar eleições.
Esses, apenas esses pelo que, não me espantaria se a prazo, se o diálogo já se aprofundou em direção àqueles que pareciam estar, irremediavelmente, excluídos de mais e maiores responsabilidades, insuspeitadas pontes se poderão vir a criar entre aqueles outros que a aparente ausência de alternativa que propugnavam parecia ter definitivamente apartado.

Direita e esquerda, sei bem do reducionismo e da carga, num como noutro sentido, que ambos os conceitos transportam e sobre eles, porfiadamente, já me pronunciei mas certo é que são os conceitos que temos, não há como fugir a eles donde, por isso e para lá disso, assim remato esta minha reflexão:
Na convicção plena de que o aprofundamento da integração europeia só pode é estar associado ao aprofundamento da Democracia que deve, tem de ser um caminho sem retorno e, logo, do diálogo democrático sem barreiras nem tabus sim, há, só pode é haver alternativa e tanto mais quanto os recentes atentados o parecem, eles também, exigir.
O tempo se encarregará de o confirmar mas quanto à União Europeia seria bom que aos interesses imediatos desta ou daquela família política, país ou grupo de países encarados de per si, fizesse prevalecer o interesse geral que à solidariedade, como bandeira e acima de tudo, deveria ostentar com o orgulho determinado de quem dela faz a sua própria identidade.
Sim, a solidariedade, cimento que os tempos à União a convocam e não outro interesse particular ou chauvinista.















Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Novembro de 2015



sábado, 14 de novembro de 2015

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A FORÇA QUE O PODER TEM




fotografia de Fernando Pedrosa






A força que o poder tem
será insignificância
mas é o poder que detém
a chave que mais convém

Essa chave é na clausura
o engenho numa ranhura
que roda ou não para a abertura
pelo querer contra a ganância

O poder é uma instância
que não se mede na ânsia
de o conquistar sem estatura

Não fora poder ficar sem
cobrir a quem deve por bem
em busca da verdade pura










Jaime Latino Ferreira
Estoril, 12 de Novembro de 2015



sexta-feira, 30 de outubro de 2015

RECENTRAGEM











este meu texto entronca-se neste outro


Há muito que a vida política anda descompensada, a saber, a palavra tem sido preterida pelos números que o mesmo quer dizer que a política se tem rendido à economia.
Há muitos anos mesmo que temos vivido no império desta última.
Os ventos começam, contudo, a soprar de outra feição.
A feição da palavra ou da política tout court e há uma asfixia que subitamente se desvanece para desorientação de muitos a ela habituados, chantageando ou não, mas a seu contento.
Formados que todos ficamos em economia e finanças, foi uma longa pós-graduação, de repente, essas muletas em que para o bem como para o mal nos amparávamos, dão de si e o desnorteio de muitos instala-se.
Num extremo a retórica, no outro a economia ou para utilizar uma metáfora, a euforia de um lado e a depressão do outro?
Não existirá meio-termo ou forma de as compensar ou de a ambas as recentrar de novo?
Estou convencido que sim e nem de outro modo, eu próprio, teria chegado até aqui.

O centro político desfocou-se e naquilo que tem prevalecido como o pensamento único ou os ditames da economia estrito senso considerada, do não haver alternativa, as posições, aparentemente, extremaram-se.
Mas há sempre alternativa, essa é uma condição da Democracia sem a qual ela não existirá de todo.
Não há alternativa a quê, pergunto-me e nesta pergunta reside o cerne da questão.
Imaginemos, por um momento, que as coisas teriam de ser de uma determinada forma porque sim mas tal poderíamos, apenas e por um momento, admitir se essa fórmula permanecesse estática, imutável no tempo.
A realidade das coisas, porém, demonstra-nos, precisamente, o contrário:
Nada permanece imutável, tudo está em permanente movimento, nós próprios somos dele um acelerado impulso ou input e cada vez mais assim o é.
Se não houvesse alternativa, não nos distinguiríamos, tão pouco, pela nossa capacidade de adaptação, isto é, pela inteligência e não sobreviveríamos à mudança.
Extinguir-nos-íamos sem apelo.

Há alternativa, sim.
E aquilo que num primeiro momento poderia parecer a rarefação do centro ou a radicalização resultante de não haver alternativa com tudo o que tal implicou, afinal, resulta numa recentragem do quadro político abrindo outras e mais vastas perspetivas, acordos e abordagens que pareciam ter-se cristalizado balcanizando uns como outros ou melhor, balcanizando-se, por via dessa mesma recentragem e ao que parece, o espetro político oposto aquele que balcanizado havia estado.
Será?
No quadro político nacional, estrito senso considerado, uma coisa é certa:
Passaram muitos anos sobre o 25 de Abril de 1974 e, sobretudo, sobre as sequelas que se lhe seguiram sem que disso se dê a devida conta:
Não há filhos e enteados, a havê-los já lá vai o tempo em que não eram todos iguais e todos têm iguais direitos como deveres.
Temos de estar preparados, é certo:
Quando no outro extremo do espetro político-parlamentar igual problema se vier a colocar como noutras latitudes já se coloca, a balcanização ou a exclusão serão, como o são sempre, alimento fértil para o seu crescimento.
Entretanto e na certeza de que, a partir de agora, não passa a valer gastar à tripa forra, a política voltou ao lugar de onde nunca devia ter saído.

E agora?
O centro não desapareceu, deslocou-se apenas e já não corresponde ao paradigma político tradicional.
Ele reside, como sempre residiu, na soberania da palavra que política o é e estas situam-se em quem está nas melhores condições de dialogar tanto num sentido como no outro e disso os decisores políticos que se cuidem porque um dia destes, quando e se acordarem, oxalá acordem, poderá ser tarde demais.











Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Outubro de 2015