sexta-feira, 28 de setembro de 2012

BLOQUEIO

na noite europeia, fotografia via satélite
 

 

A fragmentação da Europa constitui a principal força de bloqueio da sua própria união e do ataque efetivo à crise que a ela e à moeda única as assolam.
Para além do que a sua unidade representa em termos políticos e institucionais, lembremo-nos que nunca a Europa conheceu um período que com o contributo institucional decisivo se encaminha para as sete dezenas de anos de paz na sua história, o que significa que há cada vez menos testemunhas vivas, presenciais, do período que a este o precedeu, quando falo de fragmentação a que é que me poderei estar a referir?
Falo das mentalidades fragmentadas que, não acompanhando a sua construção, ao cidadão europeu fazem percecionar o que nela se passa.
Independentemente da sua nacionalidade, o cidadão europeu tem da Europa a perceção distorcida que resulta do ângulo próprio da sua nacionalidade.
Exemplos:
Um cidadão do norte dirá que não é justo ter de sustentar as debilidades de um país do sul da Europa;
Do mesmo modo, um cidadão do sul dirá que não é justo que aqueles do norte da Europa não sejam mais solidários, isto é, que não desatem os cordões à bolsa.
Dando de barato que tanto o cidadão do norte como aquele do sul nada ou pouco sabem sobre o que de concreto se passa nos países da contraparte, qual dos dois é que tem razão?
Ambos e nenhum.
Para além do problema linguístico, em si mesmo uma vantagem enriquecedora mas também uma dificuldade acrescida que cava a incompreensão que daí, entre ambos, resulta, existe um problema de mentalidade ou de escala.
A escala nacional, diria, que distorce, seja num como no outro sentido, aquele que é o interesse geral e tanto mais quanto a globalização, com crescente agressividade, a olhos vistos se aprofunda.
Ambos têm razão porque visto da sua particular e distorcida perspetiva, por igual e perante as assimetrias que a ambas as regiões as caracterizam, a ser assim, os dois cidadãos em causa sentem poder vir a ser ou estar a ser já, por elas, prejudicados.
Nenhum deles tem razão porque um, seja ele qual for, já não pode passar sem o outro, isto é, pertencem ambos a um tecido integrado e que se integra cada vez mais e até porque essas assimetrias, bem vistas as coisas, são, eminentemente, europeias.
Tecido que, face a globalização imparável, não tem outro remédio senão aprofundar a sua integração.
Já não há como voltar atrás e pesem as mentalidades que não acompanham as necessidades de união.
 
We are all connected!
 
No entanto e uma vez que as nacionalidades e com exceção para o Parlamento Europeu, são, em si mesmas, o garante do tecido democrático do rendilhado europeu, acresce que os políticos continuam a jogar, sobremaneira e pela natureza das coisas, nos tabuleiros domésticos acentuando ainda mais a ilusão de que o que se passa no interior dos respetivos países é decisivo e o que se joga fora, no tabuleiro europeu, é secundário o que acentua ainda mais esse bloqueio de que falo e que, qual fosso, tanto emperra a Europa como um todo.
Paradoxo dos tempos que passam.
Os média, também eles, pouco ajudam a contrariar este bloqueio de que falo, isto é, as perspetivas distorcidas de que cada cidadão europeu parte.
Muito antes pelo contrário:
Os episódios da vida doméstica de cada Estado que à Europa a constituem assumem um tal peso e dimensão que o resto parece ser secundário quando o que se passa é exatamente o inverso.
Como ultrapassar esse bloqueio que, antes de mais, o é das mentalidades?
Há apenas uma maneira e partindo do princípio incontornável mas cada vez mais difuso o que, em si mesmo, é muito preocupante, de que todos temos a beneficiar reforçando a unidade e de que todos, fragmentados, não apenas sairemos prejudicados como não iremos a lado nenhum.
Olhe-se para o mundo e deixemo-nos de comportar, teimosamente, como avestruzes com as cabeças enterradas na areia.
Essa maneira consiste em, rapidamente, nos anteciparmos politicamente fechando o edifício que deve encimar a União Europeia!
Como?
Criando uma instância simples e ágil, pelas suas convicções eminentemente representativa, insuspeita, sem o ser executiva e de referência, preenchida por quem tendo dado provas de estar do lado, indefetível, da Democracia e da União Europeia, como um novo impulso, a aprofunde cada vez mais e à Europa, decidida e resilientemente, aproximando pontos de vista, contribua para a integrar, rematando e blindando o edifício político em que esta se tem, sem outra alternativa, de constituir.
Tão decidida e resilientemente como a atitude a que, de há muito, na equidistância que sempre me tem caracterizado, permaneço fiel!
Equidistância quer em relação às instituições, às nacionalidades e às forças políticas, sem filiação partidária mas no respeito de todas elas, garante dessa mesma equidistância, na salvaguarda da separação de poderes e do Estado de Direito que não me inibe, como o poderia, de expressar as minhas convicções e que pelo meu percurso público, tanto aqui como ali, me torna, por insuspeito, suscetível de congregar a confiança tão necessária mas em tão tamanho défice.
Saibamos, todos, agir com rapidez, blindando politicamente a Europa!
Escrevo, é certo, em português mas o português é parte integrante do mosaico linguístico europeu.


se conseguires harmonizar a tua Casa poderás vir a estar em condições de harmonizar a Casa Comum




Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Setembro de 2012
 
 
 

1 comentário:

BRANCAMAR disse...

Seria lindo Jaime, sim, um sonho que sempre tive, um mundo, neste caso uma Europa sem sentimentos nacionalistas, embora preservando as culturas, mas sem fronteiras e grandes assimetrias, que todos pudéssemos ter esse espírito livre e generoso de que nos fala aqui.

Vou passando e vou-o lendo, embora o tempo não cresça muito para escrever.

Um abraço.
Branca