terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

ELO REAL

immortal longings
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Existe um elo real, anseio, vínculo, forte conexão entre o que neste meu blogue escrevo e a minha vida quotidiana.
Se escrevo sobre uma face oculta, tal significa que a minha face, cara permanece oculta, por ora, no meu perfil.
Se escrevo sobre o inconformismo, tal significa, também, que exerço uma atitude inconformista que não se conforma com o facto de, por esta via, poder ou não vir a ser avaliado com todas as consequências que daí possam advir.
Se escrevo, por outro lado, que o autor é, parafraseando Manoel de Oliveira no Dia do Autor e no já longínquo ano da graça de 1989, que o autor é, assim ele o escrevia, um ladrão subtil, é porque a essa afirmação a integro como fazendo parte de mim próprio enquanto autor e deste meu blogue em particular ...
O autor é um ladrão subtil que surripia, qual antena, o que ao seu dispor lhe apraz e detecta e que sendo do domínio público, disponível, usufrui, transforma e recria como se a ele próprio lhe pertencesse, dando-o sempre de volta.
E nesse elo real que logo por escrito o é, forte conexão que o constrói e cimenta, o autor, sendo real, tempera-se e mede forças com a realidade exterior com que se confronta.
Sendo inesgotável a realidade e na sua medição, confronto com o inacessível, por outro lado, o autor calibra-se e põe-se à prova.
E pode, assim, dizer basta ou inconformar-se mais ainda, na fresta aberta que vai deixando entre o real imaginário e o imaginário real que sempre permanecerá aberta, logo o queira, como quem diz:
Qualquer semelhança com a realidade é mera mas real, Real, imperiosa coincidência e tanto quanto mais, persistente e inconformado, o tempo passa, naquele ponto fino, fugaz e volátil, subtil em que sempre se faz, me faço por balancear!
Se o elo é real, a conexão torna-se, então, de tão inesgotável e perene porque subsiste no tempo, imortal!
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Fevereiro de 2010

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

FACE OCULTA

René Magritte, The Son of Man
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Que significa estar de face oculta?
Será que eu me mantenho de face oculta?
Será que não sou suficientemente transparente?
Vou tentar responder directa e sistematicamente a estas três perguntas sem delas me desviar:
Respondendo à primeira, é certo que no meu perfil ainda não consta uma fotografia minha e, muito menos, de face inteiramente descoberta.
É certo que, agora, tendo oferecido a minha mulher uma máquina fotográfica digital, mais cedo ou mais tarde me poderei fisicamente mostrar e dar-Vos a conhecer a minha cara mas, contudo, significará isso deixar de estar de face oculta!?
Há mesmo situações em que, quanto mais nos mostramos ou julgamos mostrar, quanto mais na ribalta nos encontramos e publicamente somos conhecidos, quanto mais se avoluma o diz que diz-se, a coberto do qual e pese embora tudo, quantas vezes, encobrindo nos escudamos, mais oculta fica a face que se pretende desocultar!
É claro, para mim, que não deixa, no entanto, de ser um bom princípio dar a conhecer a cara que, publicamente, pela escrita se expõe.
Tratarei disso tão depressa quanto o manejo da câmara me o permita resolver!
Respondendo, agora, à segunda pergunta, direi que, se me mantenho, literalmente, de face oculta, certo é, porém, que me vou desvendando ...
Respondei-me, pois, se a afirmação que se segue corresponde ou não à realidade:
Eu vou-me desvendando e independentemente de Vos dar ou não a conhecer a minha face!
Percorrei pois este meu blogue e a não ser verdade o que Vos escrevo, estou pronto a aceitar, com humildade, as Vossas reclamações ...
Serei, então, suficientemente transparente!?
É claro que a resposta à terceira pergunta formulada à cabeça deste meu texto, não encontra uma resposta plausível que não seja, em simultâneo, complexa:
Ninguém se despe, verdadeiramente, em nu integral senão na assumpção do discurso directo, pessoal e que tenha uma coerência com a praxis de quem o profere;
É no tempo e na inconformidade que ao discurso o caracterize, que este se pode, paulatina e perseverantemente comprovar;
E, tudo isto, independentemente de se dar ou não a conhecer a cara de quem ao discurso o profere ...
Por vezes, diria antes sempre (!), a melhor maneira de nos ocultarmos é ser tão ostensivamente obscenos que, quais nuvens de fumaça e ainda que aparentemente cristalinas, fica tudo por revelar.
Tratarei, no entanto e para que não subsistam quaisquer dúvidas, de colocar no meu perfil uma fotografia minha para que, por aí, não me possam pegar!
Só mais o que se segue:
O discurso oral tem uma opacidade que o discurso escrito não tem!
O que está escrito, está escrito, pode ser sujeito, liminarmente, ao contraditório sem fugas ao que se escreveu, ao contrário do discurso oral, sempre susceptível de uma volatilidade que permite ocultar intencionalidades que, supostamente, o podem esconder atrás de uma opacidade que fica sempre por revelar:
- Ah, o que eu queria dizer, em rigor, não era isto mas aquilo!
Há mesmo ...
Há mesmo vantagens de se escrever assim e sem dar a face, oculta por ausência de fotografia já que quem a vê ao coração o não poderá, eventualmente, sentir!
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Fevereiro de 2010
René Magritte, The Lovers

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

CEM ANOS DE PERDÃO

David Hockney, Study of Water, 1976, crayon on paper
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De um ladrão sou amante
é minha posta restante
rouba ele histórias do mundo
paisagens com mar ao fundo
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Ladrão que rouba ladrão
tem cem anos de perdão
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Eu hoje estou por lá
com água roubada ao mar
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Fevereiro de 2010

quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

NÃO PARAREI

the pull of light
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Não pararei!
Eu sou o um, o singular, Tu és o zero, a Cabeça do institucional democrático.
Se tu não fores capaz de responder ao que, em congruência com o Teu discurso fazes apelo, que credibilidade terás!?
Que reconciliação será possível entre o Institucional, a Democracia e o cidadão comum, diante da desconfiança crescente que, no aprofundar da crise para a qual apenas se encontram paliativos, mina a credibilidade do sistema democrático!?
Não adianta contornar esta insofismável realidade que já há mais de vinte anos, nas minhas Cartas Credenciais, eu, transparentemente, invocava!
Estou disposto a esperar e a minha esperança é, por todo o tempo de espera e pelo crédito que nas instituições deposito, em si mesma, lufada adicional de esperança no próprio sistema em que confio.
Confio sim, não que acredite já que a crença é matéria de fé que para aqui, na separação de poderes porque também pugno, não é chamada!
Confio sim mas, quanto mais o tempo passa ...
Assim e quanto mais escamoteado, na Obra, Coisa Pública que não pára de se desvendar, eu o for ...
... e que assim se dá a avaliar, porque não!?
Porque não sem estrado e sem rede que não a das minhas palavras e impedindo, qual florete, sistematicamente, que as portas se fechem!?
Quanto mais se adiar o inadiável ...!?
Sabes tão bem quanto eu que o Meu Compromisso está escrito e Tu conhece-Lo a fundo e pelas Tuas próprias palavras tornas-Te refém, já não de cartas mas delas mesmas, tal como eu sou refém das minhas ...
Confio em Vós, confio em Ti!
E como confio, inconformado, persistirei sem esmorecer ...
Não pararei!
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( Conclui-se assim uma nova Trilogia formada pelas duas páginas anteriores, Páginas E Páginas De Inconformismo, Inconformismo e esta que agora se conclui )
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Fevereiro de 2010

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

INCONFORMISMO

reaching
Inconformismo
é isto
não fugir aos veredictos
é dar a cara
encarar
ser coerente
marchar
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Inconformismo
é isto
responder
sem hesitar
é não ter medo do mar
escrever assim
e rufar
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Se ao inconformismo
me apelas
porque esperas para aceitar
nesta república a arfar
sufocada
a vacilar
o que Tu sabes que é ar
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( ler página anterior )
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Fevereiro de 2010

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

PÁGINAS E PÁGINAS DE INCONFORMISMO

solo
Não me conformo!
Na sequência do arranque da celebração do centenário da República Portuguesa e do discurso nele proferido, ontem, a 31 de Janeiro por Sua Excelência o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, num apelo ao inconformismo dos portugueses, aqui o reafirmo ao meu, traduzido em páginas e páginas congruentes, consequentes de que a Presidência da República é, em grande parte, depositária e que se estende já por um período que ultrapassa os vinte anos de trabalho persistente na sequência do qual este meu blogue constitui apenas a ponta do iceberg mais visível.
A Obra que nesta atitude vem sendo produzida constitui, em si mesma, Coisa Pública, transparente e em aberto como neste meu blogue, por evidência incontornável não deixa de o continuar a ser.
Uma vez mais, em resposta ao apelo lançado pelo Supremo Magistrado da Nação, aqui estou reafirmando que não me conformo sublinhando que, por esta via e neste suporte, por ora, continuarei, inconformado, a persistir!

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http://www.youtube.com/watch?v=n3Ek5kZr8Yc
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 1 de Fevereiro de 2010

sábado, 30 de Janeiro de 2010

DITADURA DOS NÚMEROS

Passaram há três dias, a 27 de Janeiro, sessenta e cinco anos sobre a libertação de Auschwitz, esse abominável campo de concentração, símbolo do terror, do Holocausto, que pela execrável orgia ideológica levou ao extermínio organizado, industrial, de Estado de milhões de Judeus e de tantas outras minorias que, indefesas, sob o jugo nazi, encontraram aí como noutros campos a sua via-sacra e o inominável assassínio sistemático e em massa.
Deus estava com as vítimas de Auschwitz mas impotente para agir!
Entretanto consolidaram-se as Democracias em espaços geográficos globalmente mais abrangentes e no minguar ideológico que a experiência passada aconselhou a conter pelas barbáries que, em nome das ideologias, o século XX veio a revelar impiedosa e prodigamente.
A linguagem dos números, do factual, da estatística, das sondagens, dos sufrágios, da economia no seu sentido mais amplo foi-se, metodologicamente, impondo como factor imprescindível de análise e decisão, não o duvido, incontornável no ocaso da política ao ponto de, hoje em dia, nos interrogarmos até onde esta não se impôs como ditadura omnipresente que legitimou, pelo sufrágio, aliás (!), logo o próprio nazismo.
Não nos esqueçamos que foi pelo sufrágio universal, pelo poder dos números, que o nazismo tomou, na Alemanha do Reich, o poder!
Hoje, as Democracias confrontam-se com dilema maior:
Gastam-se rios de tinta a falar no défice externo que as abala e constrange mas mais importaria sublinhar e pôr o enfoque no défice interno do desemprego que as inquina e interpela pondo-as, pelos milhões de desempregados que da cidadania plena se vêm excluídos, directamente em cheque!
A linguagem dos números é, por si mesma, suficiente para fazer esta incontornável constatação mas insuficiente se torna para estancar e inverter o desemprego crescente que a milhões e milhões dos seus concidadãos, desprovidos do poder dos números, isto é, do dinheiro, para o limiar da pobreza e da exclusão os atira!!
A linguagem dos números não é, por si só, bastante e ameaça tornar-se na ditadura explícita deles mesmos, subvertendo os fundamentos da própria Democracia!!!
E, então, que será do um e do zero, na consideração dos números, centrais que eles são, em que se incluem!?
O um és Tu e sou eu no que logo pela palavra se explicita;
O zero é o institucional, refém dos números e das abstracções macro-económicas que a Ti e a mim, nele não contemplados, excluídos porque escamoteados na impessoalidade das projecções, nos não contempla ...
E a desconfiança cresce na proporção sem saída da ditadura dos números, tornando-nos asfixiados reféns em subliminar campo de concentração maior ou gueto e sem fronteiras, perante o défice que se avoluma.
Arbeit macht frei, o trabalho liberta, não como na cínica e arrepiante máxima que aprisionava para o trabalho escravo e a morte os prisioneiros em Auschwitz, seguramente, mas liberta, liberta e aprofunda, torna coesa a própria Democracia e enquanto não se atalhar este problema central ao qual todos os outros se subordinam, mal vamos, seguramente!
O um és tu e sou eu, uma palavra, um nome e um desempregado é um cidadão quartado do exercício democrático e pleno da cidadania.
E quantas palavras, na autoridade que lhes assiste, um nome esconde ou revela!?
E quantas palavras de integração, de inclusão, num nome se afirmam!?
E quantas palavras, por outro lado, envenenadas no hermetismo impessoal dos números, corroem os próprios fundamentos da Democracia!?
Foi num contexto crescente de fragilidade social como aquele que hoje assola, globalmente, a Democracia que o nazismo encontrou campo fértil, o fermento do ódio e da destruição e a não ser atalhada a ditadura impessoal dos números, doente que está a Democracia, não nos livraremos de ameaças tão ou maiores ainda!
Inflicta-se, centrada no Homem, a lógica dos números e dela emergirá, aí sim (!), toda a diferença democrática ...
Sim, não haverá maus nem bons mas excluídos também não os pode haver!
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Janeiro de 2010