sábado, 28 de Novembro de 2009

POETAS E PROSADORES

http://www.youtube.com/watch?v=lrumxvKD3p0
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Poetas e prosadores
vivos em suas dores
são mais que simples sonetos
do que prosas ou motetos
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São tercinas e duetos
são árias e são tercetos
são silêncios no que fores
são procissões e andores
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São as não pintadas cores
que não escrevas nos livretos
que não saibas onde pores
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São óperas e são quintetos
maculados pormenores
amarelos brancos ou pretos
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( Inspirado pelos meus comentadores, dedicado a todos os que por aqui passam, em silêncio ou deixando a sua impressão digital )
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Novembro de 2009

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

CORROSÃO

Eu que nestas palavras corroo
como no que quer que diga ou escreva
pinte
cante ou esculpa
sempre acontece
dando outra forma ao estar e à realidade que nos circunda
perfurando-os do que aqui deixo em perspectiva outra não tida antes em conta
sou um ácido que distorce e perfura a alva virgindade de uma caixa sem texto nem nada
que a mim se entrega passiva e pronta a ser usurpada
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Violentada por caracteres que a conspurcam
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Que a disformam da brancura em que se tinha
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E que nem branco o fundo continuará a ser porque convencionado assim ao amarelo de uma folha que se dá a quem a queira ler
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De visor para outro visor na concupiscência pública a que a exponho ditando as regras e para sua humilhação maior
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Ai da pobre folha que manipulo
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Que preenchida de cicatrizes tão dolorosas como as letras que em periodos saco e impulsiono
se desmancham aqui no que equaciono
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 27 de Novembro de 2009

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

SONETINHO

Sai-me um soneto que soa
a mágoa que me magoa
quebrado o ritmo foi
em que cantava e que dói
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Nesta pausa se constrói
silêncio que não corrói
um intervalo que ecoa
e que não se dá à toa
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Anseios são minha loa
desidério que se mói
à vontade não destrói
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Reposta a linha que entoa
prossigo o que escrevo na boa
disposição que não rói
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( A propósito de um bloqueio que nos impediu o acesso à net, interrompendo o fluxo por mais de vinte e quatro horas )
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http://www.youtube.com/watch?v=MNYN8z7HRhY
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Novembro de 2009


Tchello d'Barros, Soneto Alado

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

À IMAGEM E SEMELHANÇA

Recriação
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Patenteiam-se, nas duas páginas anteriores, ilustrações de uma criação original de Jean-François Millet e a recriação de Van Gogh segundo o primeiro e interrogamo-nos sobre qual delas vale mais ...
Não ponho a questão de saber de qual das pinturas gosto mais já que, esse, é um dado subjectivo que tem a ver com o gosto singular sempre discutível e, por outro lado, legítimo mas que vai com cada qual.
Apenas, qual delas vale mais, não nos mercados artísticos o que sempre afere da qualidade de uma obra embora não se possa considerar como aferidor absoluto, mas tão só esteticamente.
Se sabemos em quem Van Gogh se inspirou, em quem se terá inspirado Millet!?
Da expiração de ambos, contudo, resultaram as obras que aqui se expõem ...!
Apenas três e mais dois pormenores:
As duas obras são simétricas uma da outra e a contraste tonal é maior em Van Gogh do que em Millet sugerindo-a, à recriação de Van Gogh, como imagem, sempre mais clara e luzidia do que o reflexo que, todavia, paradoxalmente, o antecede e a inspirou, a obra de Millet, de tons mais suaves e esbatidos;
Em Millet, o par de camponeses deita-se para a nossa esquerda e em Van Gogh, para a nossa direita;
E, por fim, o traço é em Millet, um romântico, mais preciso, realista do que em Van Gogh, um impressionista a abrir-se ao modernismo, mais despormenorizado ou, se quisermos, fragmentado.
Depois, o pequeno pormenor da disposição das foices, ele também simétrico entre si como se sugerindo ou anunciando simbologia política senão mesmo religiosa, na sua disposição e logo nela se patenteando a função pré-monitória da arte, embora ou por maioria de razão, em ambas as pinturas, simetricamente entrecruzadas, e, finalmente, o pormenor dos sapatos, eles mesmos como pegadas pré-anunciadoras de extremadas derivas históricas quer para a esquerda como para a direita que haveriam de caracterizar o século seguinte, o século XX, à sombra, a coberto do trabalho e que hoje importaria, sem as branquear, sublinho, dirimir.
Se a ambas as pinturas, o original de Millet e a cópia, digamos assim, de Van Gogh, se podem considerar como feitas à imagem uma da outra, a pergunta original subsiste, a saber, qual delas vale mais e independentemente da chancela que o nome dos dois autores, naturalmente, no peso específico que transportam, carregam ...
E depois, não são elas, estas obras, comunicantes e imprescindíveis uma à outra!?
Por fim, pergunta especulativa e sem resposta certa:
Se ambos, Millet e Van Gogh, são criadores ou se quiserem recriadores, sem estas duas obras e enquanto artistas, onde estariam hoje um sem o outro?
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Novembro de 2009
Original

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

AMOR

Vincent Van Gogh, segundo Millet
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O amor
tem da morte
o sucumbir
em tal sorte
que a exaltação
se confunde
com o estertor
que ela infunde
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Apaziguados anseios
se aninham juntos
em afago sem devaneios
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Novembro de 2009
Pablo Picasso, Blue Nude, 1902

domingo, 22 de Novembro de 2009

DESCANSO

Jean-François Millet, La Méridienne, 1866
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Na margem do rio já não choro
oiço as musas que a cantar
são um caudal não o ignoro
de águas que desaguam no mar
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Desanuvia-se o ar
descanso contigo e namoro
teus belos seios e altar
me iluminam quando coro
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Deitados na foz o decoro
salpica-se de sal a voar
perco a noção deste foro
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Turbilhão invade o estar
que nos anima em coro
nesta fusão sem ter par
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 22 de Novembro de 2009
Pablo Picasso, Entreinte

sábado, 21 de Novembro de 2009

SEM DESCANSO

Caravaggio, Riposo
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Sem descanso me alimenta
a minha escrita que inventa
o que escrevendo se cria
mesmo se não estava e não via
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Fio de caudal qual magia
que deste nada se envia
pela bonança ou tormenta
para o teu nada que tenta
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Nada que é grande e intenta
transborda do fio que enfia
nestas linhas em que assenta
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Espaço de Democracia
onde a Paz seja portenta
afirmativa a alegria
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Novembro de 2009
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( transposto do lugar dos comentários a 22 de Novembro )
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DESCANSO
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e em repouso
se inventa
esta paz
que alimenta
o caudal
a borda
o rio
linha a linha
desenhando
o que escrevendo
não fio
que da bonança
à tormenta
o caminho é longo
e frio
o espaço é alegria
que transporta
este navio
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Manuela Baptista
21 de Novembro de 2009