Recriação -
Patenteiam-se, nas duas páginas anteriores, ilustrações de uma criação original de Jean-François Millet e a recriação de Van Gogh segundo o primeiro e interrogamo-nos sobre qual delas vale mais ...
Não ponho a questão de saber de qual das pinturas gosto mais já que, esse, é um dado subjectivo que tem a ver com o gosto singular sempre discutível e, por outro lado, legítimo mas que vai com cada qual.
Apenas, qual delas vale mais, não nos mercados artísticos o que sempre afere da qualidade de uma obra embora não se possa considerar como aferidor absoluto, mas tão só esteticamente.
Se sabemos em quem Van Gogh se inspirou, em quem se terá inspirado Millet!?
Da expiração de ambos, contudo, resultaram as obras que aqui se expõem ...!
Apenas três e mais dois pormenores:
As duas obras são simétricas uma da outra e a contraste tonal é maior em Van Gogh do que em Millet sugerindo-a, à recriação de Van Gogh, como imagem, sempre mais clara e luzidia do que o reflexo que, todavia, paradoxalmente, o antecede e a inspirou, a obra de Millet, de tons mais suaves e esbatidos;
Em Millet, o par de camponeses deita-se para a nossa esquerda e em Van Gogh, para a nossa direita;
E, por fim, o traço é em Millet, um romântico, mais preciso, realista do que em Van Gogh, um impressionista a abrir-se ao modernismo, mais despormenorizado ou, se quisermos, fragmentado.
Depois, o pequeno pormenor da disposição das foices, ele também simétrico entre si como se sugerindo ou anunciando simbologia política senão mesmo religiosa, na sua disposição e logo nela se patenteando a função pré-monitória da arte, embora ou por maioria de razão, em ambas as pinturas, simetricamente entrecruzadas, e, finalmente, o pormenor dos sapatos, eles mesmos como pegadas pré-anunciadoras de extremadas derivas históricas quer para a esquerda como para a direita que haveriam de caracterizar o século seguinte, o século XX, à sombra, a coberto do trabalho e que hoje importaria, sem as branquear, sublinho, dirimir.
Se a ambas as pinturas, o original de Millet e a cópia, digamos assim, de Van Gogh, se podem considerar como feitas à imagem uma da outra, a pergunta original subsiste, a saber, qual delas vale mais e independentemente da chancela que o nome dos dois autores, naturalmente, no peso específico que transportam, carregam ...
E depois, não são elas, estas obras, comunicantes e imprescindíveis uma à outra!?
Por fim, pergunta especulativa e sem resposta certa:
Se ambos, Millet e Van Gogh, são criadores ou se quiserem recriadores, sem estas duas obras e enquanto artistas, onde estariam hoje um sem o outro?
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Novembro de 2009
Original