quarta-feira, 13 de março de 2013

AO PAPA E EM NOME PRÓPRIO


da estrela de David ou dos triângulos invertidos …



Papa Francisco 

Santidade,

Dirijo-me a Vossa Santidade em nome próprio como, anteriormente, também me dirigi ao Vosso predecessor.
Em nome próprio não faz uma multidão.
Uma multidão, um grupo de fiéis ou de não fiéis, um lóbi ou uma classe de indivíduos.
Sou eu na minha circunstância e perspetiva singular, original como todas individualmente consideradas o são, irrepetível portanto, católico apostólico romano e que em Cristo, na Sua universal abrangência, se revê.
Em Cristo ou em outras referências que, politicamente, ao longo da História e na modernidade, balizam o futuro como, entre as mais recentes e proeminentes, pela apologia da não-violência destacaria Gandhi, Aung San Suu Kyi ou Nelson Mandela, os dois últimos e como o Papa Emérito, graças a Deus, ainda entre nós.

Politicamente.
Precisamente como ainda outro dia com pompa e circunstância se anunciava o fim do comunismo quando, esses mesmos arautos, o que não viam é que a sua crise, o que antevia, de facto, era a crise em que o próprio capitalismo, sem o seu contraponto, mergulhava, sobretudo perante o florescimento de uma China comunista e, logo, capitalista que emergia e pesem ou por maioria de razão a queda dos muros, hoje, num crescendo avassalador, são os próprios alicerces em que a Europa assenta o seu desenvolvimento do pós guerra, também por via desse contraponto escurado no Estado Social e na Democracia Representativa, que tremem perante a crise em que, politicamente decapitada de um dos seus contrafortes, persiste e patina sem aparente volta que se lhe possa dar na prevalência de todos os egoísmos nacionais que a assolam e dilaceram incapaz de, pese embora a separação de poderes que importa salvaguardar e à qual a Igreja como o Estado se encontram, felizmente, obrigados senão mesmo manietados, por si mesma, ultrapassar.

Impasse político.
Que persistente impasse político.
Que incapacidade depressiva em dar a volta à situação.
Que obstinação em não ver a relação estreita entre o capitalismo e o comunismo ou entre este e um certo cristianismo, comunismo primitivo quando Cristo, já ao seu tempo, afirmando-se filho de Deus e sem recurso, por uma vez que fosse, à violência individual ou grupal, classista muito menos, ao fazê-lo se equiparava ao imperador como seu herdeiro e, como ele, detentor de toda a legitimidade política suscetível de com o imperador, um deus na terra, plenamente, como homem livre, irmão entre irmãos, na sua original sacralidade se afirmar ou comparar, blasfémia que ao tempo, como sabemos, sabendo-o pagou bem cara.
Isto ao tempo do império da força que deveria ter sido ultrapassado mas que incapazes, hoje em dia, que parecemos ser de um verdadeiro aprofundamento da Democracia que sem pôr em causa a Democracia Representativa, o Estado Social nem, tão pouco, a separação de poderes e para lá da afirmação classista ou grupal, da lógica da sublevação das massas, revolucionária, portanto, erigirmos a afirmação pacífica do indivíduo singular como derradeira meta ou instância secular, respiração supletiva, que nesse aprofundamento importaria, à imagem secular que esse Cristo também sinalizou, enraizar, colmatar e erigir.

Por provas dadas.
Aquelas que não paro, de há dezenas de anos e em livro aberto, de Vos dar cavando-se, num impasse persistente que subsiste e deste modo, o imparável fosso entre a Democracia e os crescentes e frustrados anseios do Povo.
Dos povos dando razão, afinal, à lógica leninista e aos seus múltiplos sucedâneos que em corpos doutrinais quase inquestionáveis, blindados e que os próprios média, voluntária ou involuntariamente, constituindo-se em contraponto dos poderes e tentando polarizar as redes sociais em acirrada concorrência que escamoteia o que aqui Vos vou deixando, em pensamento único, objetivamente, erigem.
Quase que assim é.

Falta o quase para a coragem que falta!
Entre nós, em Portugal, o Partido Comunista, entre os que mais ortodoxos, na pureza da sua doutrina original se conservaram, polo incontornável do nosso sistema a conter a sua descaracterização e sendo uma ponte privilegiada para a China, ironias da História, tornou-se também dos mais institucionais, constitucionais partidos portugueses, ele próprio na génese da constituição democrática que nos enforma e que à débacle da Democracia a sustém, pese embora a crise que tão duramente, sobre nós, se abate e que, hoje em dia e em simultâneo, em sistema de contrapesos, aos populismos e aos fascismos de expressão praticamente inexistente entre nós os contém.
Tal como a União Soviética, pormaior que com grande displicência tendemos a esquecer, foi contraforte ao nazismo.
E como esse comunismo primevo que, como a Igreja, vai resolvendo a tentação totalitária, penetrou, conquistou e seduziu, como nenhuma outra doutrina que lhe fosse exógena, outro pormaior que importaria reter, a China!
Depois dele, para lá da luta de classes que o comunismo valoriza e polariza, no aprofundamento da democracia resta o eu, repito.
O eu singular, a minoria das minorias e que por provas dadas, repito, em corpo doutrinal democrático respeitador e ao abrigo da separação de poderes, com resiliência que não esmorece e pacificamente, em mundividência singular mas abrangente e que apenas a mim me obriga, mais e mais por aqui se afirma.

Ainda outro dia e a propósito da resignação do Vosso antecessor, escrevi que o futuro não se faz sem o passado mas o passado, tanto o próximo como o distante, não pode obstruir o futuro.
E é o que acontece quando ao passado tão levianamente se escamoteia.
Disponho-me, de há muito e no respeito pela tradição, pela Memória, a caminhar sobre a chama dos vivos nas infindáveis e dinâmicas triangulações que em crescendo nos interpelam em direção ao porvir.
Qual eixo da estrela de seis pontas, símbolo do tronco comum do monoteísmo, composta por dois triângulos equiláteros, decalcados mas invertidos.
Daquele que, como vértice superior a Deus aponta e do qual sois um dos seus guardiões àquele outro que invertido, inversamente decalcado, à Humanidade na pessoa de cada um de nós, em imparável dinamismo, a interpela.
Agindo, como comprovadamente me disponho a agir, num terreno sem território nem fronteiras físicas, literalmente virtual, equidistante e de referência, na fronteira entre o cá e o Lá, exposto mas silencioso e sem púlpito, esse cadinho onde, sem o seu silencioso mas soberano contraponto, também fermentam os totalitarismos, constituindo-me em caixa-de-ressonância não obliteradora mas apaziguadora e congregadora de esforços perante os desafios que não mais se compadecem com egoísmos grupais, classistas ou nacionais, de género muito menos, na crescente afirmação singular que as novas tecnologias, irremediavelmente, ampliam e projetam nem, tão pouco, com os de Deus que Deus não tem.
Dando a Deus o que é de Deus e à Humanidade o que lhe pertence abrindo o futuro de par em par que num presente sem norte, perigosamente, em recorrente e imprevisível impasse, resvala.

Neste Serviço que presto, Vosso e a Vós, por sua via, Vos interpelando ao alívio do fardo mediático que carregais arcando com uma função política supletiva ao encontro dessa projeção secular que Cristo tão bem sinalizou e para a qual não Vos encontrais, pela natureza do Vosso próprio Ministério, talhado, qual antídoto de entorpecidos fantasmas, enquanto aguardo um sinal que de Vós emane, desejo-Vos toda a felicidade, na fidelidade e sempre


permaneço na certeza de quem ao Amor lhe impõe exclusividade lhe retira, em simultâneo, a sua universalidade, isto é, a sua catolicidade


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Março de 2013
 
… passando pelo Homem Vitruviano de da Vinci

6 comentários:

Filomena disse...

Jaime!

Ainda não li o texto mas sabia que o meu Amigo iria ser o primeiro a escrever sobre o assunto. Esperei com uma certa ansiedade.


Beijo muito grande

Filomena disse...

Tinha de ser, Jaime!

Profundo, verdadeiro... esperava eu por este texto.

Obrigada e boa noite


Filomena

manuela baptista disse...

que os sinais

sejam simples como o nome que escolheu

e

se este texto não fosse teu, seria teu na mesma

:))

Branca disse...

Jaime,

Li o texto com atenção e para além de um inteligente documento Histórico e político, que só poderia vir do seu excelente perfeccionismo saúdo a sua exortação ao amor Universal e à participação da Igreja, salvaguardando a necessária separação de poderes.
Grande exemplo nos deixou por estes dias a Igreja Ortodoxa do Chipre:
"O líder da poderosa Igreja ortodoxa de Chipre, arcebispo Chrysostomos II, ofereceu-se hoje para ajudar a retirar o país da crise financeira colocando os bens da Igreja à disposição do Governo.", horas depois de os deputados do país rejeitarem as condições do resgate europeu.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=622355

É sempre edificante passar por aqui e gostei muito que tivesse mencionado aqueles que são também minhas referências - Gandhi, Aung San Suu Kyi ou Nelson Mandela.

Beijinhos
Branca

Jaime Latino Ferreira disse...

COMENTÁRIO


Hoje, Domingo de Ramos e início da Semana Santa, substituí a música de fundo desta minha carta, alterando-lhe, também, o link que, em rodapé lhe dá acesso de quarteto, o quarteto de Mozart para oboé que a preenchia para compadecei-Vos que corresponde ao nome da área de Bach da Paixão Segundo S. Mateus, Erbarme Dich, Mein Gott, conferindo à minha carta, por sua via e deste modo, outra intensidade e profundidade dramática. Permaneço.


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Março de 2013

manuela baptista disse...

grande Bach!