segunda-feira, 5 de março de 2012

DE COMO CHEGÁMOS ONDE CHEGÁMOS - I -




Se eu escrevesse em função das conveniências, das audiências tão só, aos assuntos não os aprofundaria nem da verdade poderia ter a presunção de me aproximar.
Esta afirmação levanta, consigo, uma questão ética que se a mim próprio me interpela não deixa, porém, de interpelar todos aqueles a quem me dirijo.
O ato de criação não tem nada de facilidade:
Obriga, seguramente, o criador mas não menos obriga aquele a quem ele se dirige!
Se o destinatário apenas procura a facilidade o mesmo é dizer a comodidade então, o ato de criação fica incompleto porque dele fica omisso aquele a quem se dirigindo, o justifica.
O ato de criação não é apenas obra unívoca ou de um sentido só que apenas envolva aquele que, pretensamente, o desencadeie.
O ato de criação, se nele envolve o autor ou quem o transmite, envolve também o outro autor ou aquele a quem ele se destina, quem o recebe e um terceiro vértice sem o qual, de ambos distanciado, paradoxalmente a ambos os aproxima e põe em contacto:
Uma visão panorâmica, de ambos distanciada mas que, como ponte, entre ambos estabelece comunicação que não se extinga na espuma dos dias.
Quando escrevo não o faço, apenas, por deleite próprio e nem tão pouco para cativar audiências.
Faço-o sempre pensando em estabelecer faísca, circuito, curto-circuito com um hipotético e desconhecido destinatário e se eu permanecer fechado sem outros que não os horizontes do meu casulo, a comunicação, na sua verdadeira e pró-ativa aceção de interpelação, não se estabelece.
Interpelação ou desafio à resposta, a uma reação que essa mesma interpelação desencadeie, obrigando-me a mim bem como àquele a quem me dirijo a sairmos dos nossos casulos ou, como hoje se diz, das nossas zonas de conforto!
Quando dos políticos se diz, com alguma leviandade, que fazem o jogo das conveniências, nem nos damos conta de quanto essa afirmação sobre nós próprios recai, nós que tanto gostamos da nossa zona de conforto e que com eles estabelecemos assim como que um pacto silencioso de cumplicidade que a visa preservar à outrance.
Cumplicidade essa que, aliás, rebenta pelas costuras num tempo em que essa mesma zona de conforto não mais pode deixar de ser questionada …
Cumplicidade que, provavelmente, ajuda a explicar como chegámos até aqui!



de tanto olhar para as audiências o conforto vai-se tornando mais e mais desconfortável






Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Março de 2012

3 comentários:

BRANCAMAR disse...

Pois é isso mesmo Jaime.
Como chegamos até aqui?
Temos nós culpa disto tudo ou só alguma?

É que realmente há demasiadas zonas de conforto a que a maior parte, ou todos, uns mais outros menos não resistimos.

Beijos

manuela baptista disse...

e a trabalheira que o pobre do bicho da seda tem até se tornar borboleta?

o ato de criar pode ser solitário ou ser um eco de outros atos

solitário é decerto o poder

e nunca chegamos todos ao mesmo tempo, nem ao mesmo sítio

eu estou muito à frente da maior parte dos políticos e não olho para trás, comigo as audiências estão tramadas

complicadinho este texto...

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Complicadinho ...!?

Não ... tramada és tu!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Março de 2012