quarta-feira, 13 de novembro de 2013

ATO DE CRIAÇÃO

Paula Rego, Natividade







Tal como na gestação e no ato de parir há, na sua génese e no ato de criação artístico, com os primeiros, vincadas similitudes.
Em ambos os casos de nós se desprende um ângulo ímpar que conhece a luz do dia e ganha autonomia e esse ato não é nem inócuo, nem indolor, nem pacífico.
Sendo um ângulo ímpar que de nós mesmos se desprende e aos outros se oferece, o ato de criação artístico disponibiliza o que antes dele não estava acessível.
É um ato que acrescenta tal como, igualmente, uma nova vida que nasce mais ainda acrescenta.
Com ele vê-se o que antes dele não se antevia e o que se vê soma valor.
Somatiza ou procria e faz-se, ele também, acompanhar de sintomas psicossomáticos em muito idênticos aos daqueles associados ao ato de parir e a tudo o que na sua gestação já o precede e prepara.
Vertigem, estado de graça, náusea e quantas vezes dor, não tanto física mas psíquica e que a ambos os acompanham.

O ato de criar tal como aquele de parir, o de dar à luz não é gratuito.
Ambos saem da pele e são cobrados.
Realizam, é certo.
O ato de criar, tal como para a mãe o filho que nasce, é aquele de, a ele somando-se-lhe toda a sua génese, dar à luz o filho do artista.
O que pelo ato de criar ou de, melhor dizendo, recriar conhece, por fim, a luz do dia desapegando-se do artista, no entanto, vincula-o.
Tal como uma filha ou um filho aos pais, sobremaneira, também os vincula.
E o que pelo ato de criar ou de parir é concebido, tanto num como no outro caso, replica-se, reproduz-se aos olhos de quem os admira.
Ganha vida própria e floresce.
Na sua exposição o ato de criar alimenta-se, engrandece-se, robustece-se.

O ato de criar tem uma religiosidade muito própria:
O ato de criar é uma metafórica parição e nessa parição há uma aparição que se desencadeia.
É um do nada ser que tudo é.
O ato de criar é uma desfloração tão imaculada quanto a mais casta das fecundidades.
O ato de criar é como ter um filho fazendo-o sem o ter feito porque ele já se anunciava e aquilo que dele resulta, porque é da Obra de Arte que escrevo e tal como a vida, ganha a eternidade.
Entre esta e aquela outra Eternidade não há assim uma tão grande diferença.
Ou se merecem e se contemplam ou da contemplação, o ato de criar, não o sendo, dela não é merecedor.




no ato de criação a génese da vida







Jaime Latino Ferreira

Estoril, 13 de Novembro de 2013



4 comentários:

manuela baptista disse...

este,

é o Auto da Criação


a música, soberba

Kika disse...

Kriu!

Apesar de contar já com três ovos neste ninho, improvisado por mim própria, sabes perfeitamente que prefiro sempre os desacatos a quaisquer atos que aqui possas explanar!

Porque, para mim, querido Jaime, não ter limites, é ter a perfeita noção de uma vida em pleno, que se quer melhor e para sempre...

Sei que não concordas comigo, mas olha, paciência, temos pena(s)...

Kriu!

disse...

Não ligues, Jaime, a Kika não sabe atender o telefone...

. intemporal . disse...

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. a Criação . Jaime . é o produto da existência . se existe . Cria . e cria .

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. um ronco de dentro . um sopro . uma brisa ou aragem . a Criação É . simplesmente . e . em tudo/todo o "resto" composta . :) .

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. uma boa semana .

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. abraço .

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