sábado, 2 de novembro de 2013

SE PARASSE DE ESCREVER

George Frederic Watts, Hope, 1886








E se eu parasse de escrever?
Deixaria de existir?
Perder-se-ia tudo o que até aqui e do porquê do que escrevi?
Será que tudo o que até aqui escrevi deixaria de fazer sentido?
Tornar-se-ia irrelevante?

Estas são interrogações que me fazem, com denodo, prosseguir na escrita.
Como se uma réstia de esperança, pela interrupção da escrita, se esvaísse.
Esfumasse de vez.

Réstia de esperança.
Esperança em quê?
Em que a força da palavra prevaleça, em tempo de vida útil, sobre a palavra da força.

A força da palavra sobre a palavra da força.
A que me refiro eu?
Refiro-me à força, ao poder congruente das convicções expressas independentemente da palavra do poder, da força.
Do peso da sua expressão pública.
Da expressão pública ou da força de mandatos, da adesão que ela, a palavra suscite num determinado momento na certeza, contudo, que ela, a força da palavra não atropele, viole ou esmague essa mesma força de mandatos ou adesão públicos e refutando inevitabilidades.
Que não viole as regras do jogo democrático o que pressupõe, sublinho, a força que ela, a palavra, em Democracia, de per si, possa e deva ter.

A força da palavra.
Aquela que deriva, tão só, da argumentação despendida em que a Democracia, tão esquecida, maltratada ou subvertida que é esta sua outra face, assenta.

E se eu parasse de escrever?
Que seria da luminosidade em que circulo?
Se eu parasse de escrever o que seria de mim?

se deixasse de escrever
a vontade ditaria
não deixes esmorecer
o que te dá fantasia

E fantasio.
Impenitente, fantasio que a força da palavra prevalecerá sobre a palavra da força.
Que esta, a palavra, não se limita a ser um mero fator estatístico a ter relevância em função do seu peso aritmético.
E nesse subtil, evanescente recanto me aninho, resguardo e persevero.




como ato libertador de criação, escrever é viver






Jaime Latino Ferreira

Estoril, 2 de Novembro de 2013



5 comentários:

manuela baptista disse...

se parasses de escrever,

deixarias de ser quem és


mas algures alguém escreveria, e assim por diante até um dia

e seria de festa esse dia


bonita a música!

ki.ti disse...

ninguém te aturava!


Kika disse...

Kriu!

Decerto terias mais tempo, para ajudares na lida da casa, não é, Jaime?
Porque limpares apenas o pó, não eleva a argamassa ao andaime!

Kriu!

disse...

Se parasses de escrever,
Eu permaneceria permanentemente onde estou,
Porque tu, já te estou a ver,
A implicares com este tanto que eu também sou!

. intemporal . disse...

.

.

. quem escreve descreve e inscreve . a eternidade neste tempo breve . a memória como História . e toda a escória . que vá para o diabo que a carregue . :) .

.

. abraço.OOO .

.

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