terça-feira, 11 de junho de 2013

CORRENTEZA





corrente 1


RÉPLICA

Minha réplica
tem na escrita
a poética
o cromático
que a transporta
e o lunático
tem a força
que a recita
e que me fita
tem o enfático
musical
que a digita
cheio da cor
que entremeia
a sinalética


9 de Junho de 2013


corrente 2


10

Minha língua
minha pátria
da largura
comprimento
tem da área
só altura
a estatura
e a métrica
desde o início
corta a meta
na espessura
do que canta
que à usura
a estilhaça
e à loucura
na harmonia
que se dá
e sempre dura


 no dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas



10 de Junho de 2013


corrente 3


SE  PUDESSE


Se pudesse
numa cloaca
buraco
me metia
e dessa toca
muito e muito
mais veria
muito mais
do que ao estreito
mundo inteiro
ressonante
nesta voz
eco besteiro
e num só grito
escorreito
o enxotaria
ao vespeiro
que escoado
sairia
célere
e de uma vez
pelo traseiro



publicado em primeira mão e por rajada na caixa de comentários do meu mural em Réplica a Picasso



Jaime Latino Ferreira

Estoril, 11 de Junho de 2013




domingo, 9 de junho de 2013

RÉPLICA A PICASSO

Picasso, Garçon à la Pipe, 1905




Alguns pintores  transformam o sol numa mancha amarela, outros transformam uma mancha amarela no sol


citação retirada, numa primeira versão entretanto aprimorada, do mural de Paulo Morais-Alexandre e cuja réplica em primeira mão nele publicada, do meu mural para aqui foi sendo corrigida, revista e aumentada



RÉPLICA



PABLO  RUIZ  Y  PICASSO


Meu Caro Pablo,

Em resumo, a mancha está lá mas há quem se limite a vê-la e quem dela faça um portal ou uma incomensurável janela para o infinito e quer a pinte como não.
A escrita, aliás, pelo que nos seus rabiscos ou signos que logo por definição silenciosa a caracterizam, como se em esboço, já é pintar.
E ouve, ouve esta canção de fundo An die Sonne, dedicada Ao Sol de Schubert:
É mesmo o sol ou uma mancha e que cor tem ela?
E a nossa, que cor é a nossa?
Um arco-íris?

Um Abraço


o som repousa no silêncio, luz da cor



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Junho de 2013
 

Picasso, Woman with a Flower, 1932



quarta-feira, 5 de junho de 2013

MAIS AINDA

Paula Rego, Em volta da Pietá I ou, escreveria, de uma alegoria a um masculino moribundo



CAMPAINHAS

Sendo certo que as aparências não fazem os personagens há, no entanto, sacerdotes que pela sua untuosidade fazem soar todas as campainhas de alarme.
Sob a capa reverencial, essa untuosidade, aliás, já se apressou, toda ela, em vir a terreiro marcar, armadilhar o território do novo Bispo de Lisboa.
Salvaguardadas as devidas distâncias, aquilo de que a Igreja precisa é de uma autêntica revolução cultural que a sacuda, interpele do topo à base.
Atenção que foi por esta ordem e não pela inversa que escrevi do topo à base.


que fique claro que nem ao atual nem ao futuro Bispo de Lisboa, muito menos ao Papa por quem tenho toda a consideração e reverência nessa untuosidade os incluo e isto pesem embora as atabalhoadas declarações de D. Manuel Clemente, declarações que em post imediatamente anterior a este elenquei e que seguindo criteriosamente os links, de uns a outros, as delimitam. A um bispo e muito menos a um Cardeal Patriarca lhes é conveniente dirigirem-se aos órgãos de soberania com a displicência ou o populismo com que D. Manuel Clemente nessas infelizes declarações, pura e simplesmente e não Lhe sendo recomendado, o fez


3 de Junho de 2013


NO  ENTANTO

Mediaticamente, a situação tanto económica quanto social e política tornou-se de tal modo dominada, intoxicada pela crise que, na sua crescente aridez nada mais resta de que falar e a prova disso é que as prévias declarações de D. Manuel Clemente (*) por mim, aqui, abordadas não fossem os conturbados tempos que hoje vivemos e teriam dado brado.
Não que pretenda criar manobras de diversão que dela, da crise nos distraiam mas, no entanto, e tanto mais quanto da perspetiva de um crente e praticante, católico apostólico romano que o sou, as minhas reflexões adquirem tanto maior oportunidade quanto a perspetiva tradicional da Igreja, pelo que em nós, culturalmente, de um fadismo fatalista nos enforma, não está assim tão dissociada da crise quanto, à primeira vista, o possa parecer.
Colocam-se quantos untuosos (**) a coberto da função assistencialista da Igreja que urge e que a tudo o mais deveria, segundo os próprios, obliterar, então não deviam os deputados estar a tratar de coisas mais importantes do que a coadoção, sublinham e, no entanto …
No entanto, dir-me-ão que com amigos assim como eu precisa lá a Igreja de inimigos.
Maior equívoco:
Maior equívoco porque o que escrevo não são nem tiradas ocas, nem de ocasião, vai sendo ao longo dos anos fundamentado e não na perspetiva do confronto mas para que a esta, à Igreja, lhe seja devolvida a sabedoria que, quantas vezes, parece que, à míngua dela e divorciando-a da realidade a diminui ou vai cavando um fosso que entre o velho e o novo que a Mensagem sempre tem e é e que à Igreja a leva, balcanizada, paulatinamente e logo no seu coração e berço, a Europa, mais e mais a depauperar-se.


(*) declarações tanto mais paradoxais quanta a chancela do Prémio Pessoa que em 2009 Lhe foi atribuído, entre outras razões, pela « sua intervenção cívica » em que se tem « destacado por uma postura humanística de defesa do diálogo e da tolerância, do combate à exclusão e da intervenção social da Igreja » como, então, referia o júri na justificação da sua atribuição
(**) remeto para o meu texto que a este o encima


não tenhais a intellighenzia Convosco e duvido que o Povo também Vos siga


4 de Junho de 2013


O  LOBO

Quanto mais gritas que vem aí o lobo mais ele
em ti
se transfigura

O lobo
ou o deserto de ideias
que uma vez soltas
nos surpreendem e ao medo o vencem e afugentam


a propósito da metáfora de Pedro e o Lobo que Vos recomendo, vivamente, aqui a seguir



Jaime Latino Ferreira

Estoril, textos revistos e que foram publicados, em primeira mão, no meu mural entre os dias 3 e 5 de Junho de 2013



segunda-feira, 3 de junho de 2013

EM SEQUÊNCIA

Paula Rego, Em volta da Pietá I ou, escreveria, de uma alegoria a um masculino moribundo



DEIXA-TE  ESTAR


Espremi-O
e Ele a mim me disse
deixa-te estar
aquieta-te
e ao vício
mania ou pulsão
que aqui se cita
no que escreveste
é minha e está na tua mão

Deixa-te estar
aquieta-te
que eu suspiro
na ligação
que em ti a mim me imita
já que a imagem
de mim
em ti suscita
o que nela por ti
me ressuscita


a propósito de d(eu)s na carta que escrevi a D. Manuel Clemente


30 de Maio de 2013


HÁ  QUESTÕES

Há questões como as escritas na minha carta a D. Manuel Clemente incluídas aquelas dos links que a acompanham, que não são da oportunidade ou da conveniência, da tática, portanto, mas da estratégia, isto é, dos princípios.
Essas questões não se adiam, assumem-se e é no risco que sempre implica a sua assunção que se vê a grandeza de quem as perfilha e por elas dá a cara.
Há questões que não sendo fraturantes, por circunstancialismos vários, se fazem fraturantes só que resta saber aonde:
Se na sociedade se no interior da própria Igreja e mesmo nesta, como em França, será que o universo católico ou crente que o seja, se resume à expressão minoritária do ativismo fundamentalista e militante das manifestações de rua e já para não falar do aproveitamento que delas faz a extrema-direita arruaceira contra o casamento entre homossexuais e tanto mais quanto ao arrepio das decisões tomadas pela própria democracia representativa?
Há questões sobre as quais, sem ambiguidades, importa prevalecer nos princípios da inclusão e tanto mais quanto, como na Nigéria ontem aconteceu e onde por prevalecerem as pulsões fundamentalistas que, quantas vezes, se abatem sobre estas ou aquelas comunidades religiosas, pesadamente e por arrasto foram penalizadas as relações homossexuais.
Há questões que, tanto mais quanto cada vez mais atabalhoadamente, já não têm sustentabilidade possível!


a propósito de declarações de D. Manuel Clemente


 31 de Maio de 2013


INCLUSIVIDADE

Um cristão e, logo, um católico ou é inclusivo, quer dizer, ou é aquele que inclui ou que tem o sentido da abrangência ou não o é de todo.
O sentido da abrangência nele incluído aquele de admitir sermos todos pecadores, sem exceções, sem exclusões e sem credenciais especiais para o além como, aliás, já o admitiu o Papa Francisco ou como se reza, supostamente como os cristãos o fazem, numa Ave Maria.
Católico, aliás, quer dizer universal e a universalidade é antónima da exclusão.
Na sua radicalidade, porque é pela inclusão que esta se afirma e reconhece, não há nem tergiversações ou evasivas, nem meios-termos, nem favas na boca.


estes três textos, aqui revistos e corrigidos, foram publicados, originalmente e por esta sequência, no mural do meu facebook

que a Igreja não embarque numa deriva populista o que seria o pior que Dela se poderia esperar



 Jaime Latino Ferreira

 Estoril, textos escritos entre o dia 30 de Maio e o dia 1 de Junho de 2013



terça-feira, 28 de maio de 2013

CARTA AO NOVO BISPO DE LISBOA

pormenor da azulejaria de S. Vicente de Fora, Sede do Patriarcado de Lisboa ou da arte da história aos quadradinhos de que fomos seus precursores



D.  MANUEL  CLEMENTE

Nomeado Cardeal Patriarca e Bispo de Lisboa

Eminência,

No dia em que, na língua portuguesa, a língua em que, como em nenhuma outra, me exprimo, olhei com outros olhos para a palavra Deus, já lá vão muitos anos, não apenas com a Igreja da qual estava afastado me reconciliei como nela, nessa palavra e literalmente a Deus O vi, não apenas na sua significação transcendente mas, também, na sua aplicação lúdica e concreta.
Extasiado, enamorado vi Deus na sua relação universal connosco e independentemente de Nele se acreditar como não.
Sim, porque de que servirá Deus se connosco, nós todos e sem exceções, ele não estabelecer relação ou conectividade?
Deus, em português e independentemente da ordem em que às suas letras inicial e final se sequencializem, também é um eu, repare, entre o ( d ) de divino ou diabólico e o ( s ) de sagrado ou de satânico.
Um eu permanentemente livre de optar entre o bem e o mal.

Se não for pedir-Lhe muito, gostaria que lesse as três páginas que neste meu blogue a esta minha carta a precedem, a saber, Feminino /  Masculino / Neutro, Que Nome e Equívocos e tendo o cuidado de aos seus links, criteriosamente, também os seguir.
Perdoar-me-á mas já vai muita e muito longa a minha maturação e não gosto, acredite, de me estar sempre a repetir!

Relativismo.
Dir-me-á e perdoar-me-á o abuso de Lhe atribuir o que não diz que no que escrevo prevalecerá o relativismo mas permita-me que discorde.
Na verdade, por mais que se relativize, aí é que está, acaba sempre por prevalecer ou revelar-se o maravilhoso ou o inesperado em nós.
Em nós e nos outros, em Deus.
Como é possível que, logo na língua portuguesa e na palavra Deus que, Ele próprio, como se diz, escreverá direito por linhas tortas, se revele este Seu tão inesperado e universal atributo lúdico do qual todas as mulheres e homens de bem, diria, partilham e independentemente de Nele acreditarem como não?
Atributo que a uma criança, tão simplesmente, o permite, no fundamental e ao encontro da doutrina, portanto, tão ludicamente exemplificar?
Deus numa relação íntima, diria, da qual todas as pessoas de bem comungam ou perfilham?
Que a Deus, na palavra em que se exprime em português, literalmente, em processo sempre por realizar, o permite ver e perscrutar?
Ver como eu O vi e que a Ele, na sua essência, de volta me trouxe ou que a mim Dele, por fim, me reaproximou?
Como explica-Lo assim senão na língua portuguesa e na maravilhosa coincidência que nesta, na Sua palavra se revela no inviolável, sagrado que há em nós e que nessa relação trina e potenciadora do eu com o ( d ) e com o ( s ) se estabelece?

Se os efes ganhassem outra substância!
Excetuando a sua expressão em português como aqui, mais uma vez, o demonstro, como o sabemos, Deus é demasiado abstrato, não tem forma e nem tem sexo.
Tal como o espírito, ou têm-nos?
É por isso que entre Ele e nós se criam, como o percebo tão bem, mitologias intercessoras que eu nem digo, longe de mim tal coisa pois que estaria a negar a minha fé, que não se justifiquem e não façam pleno sentido.
Quando essas mitologias não estão presentes, quantas vezes, de um extremo deífico não se cai, rapidamente, num outro qualquer profanador do seu nome e mesmo se invocado em seu próprio nome.
Mas em português, que simples e simultaneamente reveladora a Sua expressão não se patenteia!

E Deus está em todos nós.
Mulheres, homens e crianças e não dá mais para prevalecermos em interpretações literais ou fundamentalistas das escrituras e escrevo-Lhe aqui ao encontro, tal como no princípio, de dar a primazia à palavra, Deus é, antes de mais, a própria palavra que O designa e não é para o afrontar, acredite, que sobre Ele aqui Lhe escrevo.
Aqui como também já escrevi, nomeadamente, ao Papa Francisco e para que junto Dele, por mim, sempre agindo em contracorrente o que, julgo, sabeis, possais interceder.
Ou de como, de um sonho revelado e na palavra expressa, Ele é luz, aquela e frondosa árvore que O nomeia.

Nomeado Cardeal Patriarca D. Manuel Clemente
Reverendíssimo,

Por uma vez, nesta carta que Lhe escrevo, a Deus não o poupei e já levo muitos e muitos anos de fidelidade à palavra sem necessidade da sua recorrente invocação.
Resumindo:
Neste dia 28 de Maio, em português e paradoxalmente, também o conceito de Deus aqui sai do pedestal e democratiza-se.
Desejo-Vos as maiores felicidades no exercício deste Vosso novo Ministério não sem que o melhor também deseje a D. José Policarpo, Vosso antecessor e ainda no exercício do cargo.

Vosso e sempre




Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Maio de 2013

S. Vicente de Fora, Lisboa



domingo, 26 de maio de 2013

EQUÍVOCOS


Egon Schiele, The Family, 1918 ou três num só




Os que pensam ser possível neutralizar os fundamentalismos e, com eles, o sectarismo e o terror pela via da negação de Deus estão completamente equivocados.
O fundamentalismo não se estanca com outros fundamentalismos em maior ou menor grau mas de sinal contrário nem contemporizando com ele sendo certo que as pessoas, seja por estas, por aquelas ou por todas as razões e quer o queiramos, quer não, têm do transcendente como da liberdade um irreprimível anseio.
Escudando-as não fundamentalisticamente nas religiões, esse é que é o ponto, por essa via sim, ao fundamentalismo se contém.
É no terreno de Deus que, doutrinariamente, se trava a batalha decisiva e leva a melhor sobre o fundamentalismo, terreno em que, tal como na globalização ou na ecologia, as religiões, a tudo religando e porque religam é que também o são, não conhecem fronteiras senão assim como, persistentemente e ao longo dos anos, insisto em o fazer.
Reparem que utilizei as expressões neutralizar, estancar, conter ou levar a melhor e não esmagar, outro equívoco ou fundamentalismo em que importará não incorrer.


é no terreno de Deus sem o invocar a torto e a direito e por tudo e nada que se potencia o bem agir de todas as mulheres e homens de bem e sejam eles crentes, descrentes ou não crentes

no dia em que, também um soldado francês foi vítima de arma branca em Paris



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Maio de 2013