segunda-feira, 29 de abril de 2013

ENCOLHENDO-SE, O ESPAÇO/TEMPO EXPANDIU-SE


contrativa expansão




Vivemos cada vez mais em menos tempo ou escrito de outra maneira:
Hoje em dia e numa crescente vertigem, em mais tempo são-nos proporcionadas uma quantidade de vivências que ao indivíduo, nem é preciso recuarmos um século, com uma esperança de vida, é certo, muito inferior à nossa, falo das cada vez mais vastas zonas do globo onde se vive com um mínimo de dignidade e qualidade de vida, não lhes seriam, no entanto, minimamente concedidas.
É certo que a esperança de vida vai, substancialmente, aumentando mas não menos certo é que o tempo de vida útil também corre a uma velocidade cada vez mais estonteante e vertiginosa proporcionando-nos uma miríade de experiências nunca antes, em tempo de vida útil, vividas.
Dir-se-á que esta dupla e paradoxal sensação decorre do exponencial desenvolvimento técnico/científico e sem dúvida que este ajuda a explicar a perceção que das minhas constatações anteriores decorrem mas esse desenvolvimento não explica tudo.
Se explicasse, tal equivaleria a dizer que tudo depende da nossa capacidade inventiva e que a realidade que a transcende da qual ela é reflexo, não só mas também já que não me ocorre, tão pouco, escrever que não estejamos munidos do livre arbítrio ou da capacidade de contrariar determinismos, não pode deixar, contudo e contrariando por igual tecnicismos como antropomorfismos, visões centradas exclusivamente em nós, de ser tida em linha de conta.

Tempo.
Tendo em consideração que este se perceciona diferentemente em função da idade cronológica que se tenha e das circunstâncias que decorram não menos certo é que, grosso modo, vivemos cada vez mais anos e cada vez mais vidas embora a nossa vida, como um todo, decorra num crescente ápice.
Espaço.
O mundo, tendo a dimensão que sempre terá tido, será (?), parece que encolheu ou que a ele, individualmente, o abarcamos cada vez mais amplamente ou que todas as distâncias se encurtaram entre mim e o meu semelhante independentemente da distância ( abarcamos, individualmente, cada vez maiores distâncias, sublinho ) que o separa de mim mesmo.
Dou-vos desta dupla perceção apenas um exemplo que, ainda nestes últimos dias, tive ocasião de vivenciar profundamente:
Há muitos anos atrás, mais de trinta, o que não eram trinta anos na vida de um antepassado nosso, provavelmente todo o seu tempo de vida útil quando hoje, graças a Deus, à minha a não dou por concluída, longe disso, deu-se um episódio entre um amigo meu e eu próprio do qual, por minha responsabilidade mas não vindo, no concreto, para aqui ao caso, não me orgulho mesmo nada.
Entretanto perdemos o rasto um do outro e, outro dia, por via das tecnologias da informação mas por mero acaso, voltámos a entrar em contacto um com o outro.
Tive, então, a oportunidade que não desperdicei de, por escrito, com ele desfazer autocriticamente os equívocos que nesses recuados tempos se geraram entre nós e que não deixavam de manchar a minha, como dizer, reputação ou que imprimiam uma nódoa que manchava a nossa e recíproca memória comum.
E, de repente, parece que nos demos a abraçar e ainda que à distância, na catarse que, não apenas em mim, julgo, por via da recetividade desse meu amigo e da minha própria iniciativa, se desencadeou.
Desde quando é que noutros tempos e deste modo, em tempo de vida útil, tal poderia ter assim acontecido?
Desde quando é que essa memória comum teria sido possível tanto de digerir como de resolver por uma como por outra das partes e sobretudo assim, de um momento para o outro?
Provavelmente o assunto ficaria por resolver e nunca mais teria tido a hipótese, quem sabe, de com esse meu amigo me voltar a cruzar e tanto mais quanto separados pela distância física, quanto mais ainda de resolver o contencioso que entre nós existia?

O tempo e o espaço encurtaram, contraíram-se pese embora, à nossa escala, ambos, encolhendo se tenham, simultaneamente, expandido.
Que sinal prodigioso dos tempos que decorrem!
Encolhendo-se, quer na esfera singular como para lá dela, o espaço/tempo expandiu-se.
No luminoso som que a escrita imprime e onde confluem ambas, a velocidade da luz com a do som, assim através dela se domine a sua arte, encurtam-se distâncias abrindo sempre novas e imprevisíveis potencialidades num tempo que, contraindo, se abre e se expande.
Como se tivéssemos dobrado um cabo que, julgaríamos, numa enganadora ilusão espaço/temporal, estaria completamente fora do nosso alcance vir a ultrapassar.
Se a uma porção de espaço/tempo, pela travessia de um Buraco Negro, a sujeitássemos a forças gravíticas de sinal contrário, aceleração/desaceleração, que a sua travessia e o seu desfecho, sem mais, desencadeariam, o que é que a essa travessia poderia, sem outras variáveis que nela interviessem, vir-lhe a acontecer?
Mas se a essa porção de espaço/tempo, em contraciclo, lhe somássemos a velocidade da luz cristalizada que pela sua verbalização ou consciencialização formulada por escrito, insuspeitada força gravítica maior, a contrabalançasse, onde poderíamos, então, vir a desembocar?


( a CG )

de quando o som atinge em cheio a luz ou de como agarrando a luz pelo som, isto é, pelo que dele se visualiza a ambos os fazendo, pela escrita, convergir, podemos ter entrado, com sucesso, noutra dimensão do espaço/tempo



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Abril de 2013



4 comentários:

ki.ti disse...

É uma espécie de gato enrolado, claro.

manuela baptista disse...

o admirável mundo novo, por um lado
e tanta confusão no mundo, por outro

é uma contradição do espaço e do tempo, deste nosso

. este é um buraco negro

:)))

EVB disse...

"O tempo e o espaço encurtaram, contraíram-se pese embora, à nossa escala, ambos, encolhendo se tenham, simultaneamente, expandido."
Eis uma contradição cujos efeitos afinal podem ser muito positivos. Mas quantos de nós chegam a dar por isso, significativamente?
Um fraterno abraço, à mesa de um café, um dia destes. Se o tempo não encurtar demasiado...

Jaime Latino Ferreira disse...

EVB


Caro Amigo,

Um dia destes, concerteza, à mesa de um café e com muito gosto!

Grande e fraternal Abraço


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Maio de 2013