domingo, 27 de novembro de 2011

CANTO MUDO




Aquilo que canto é mudo
no silêncio tem de tudo
se o declamar o meu canto
perde o relevo e o espanto

Num calar que tem de santo
enche-se o mundo de tanto
dito alto a tudo mudo
do cantar sobra o que grudo

O que escrevo ou um entrudo
quando o pensar é um pranto
equacionar que levanto

Às fronteiras as quebranto
sem esquinas arestas bicudo
pontuar grave ou agudo



da imaterialidade acústica da poética, no dia em que o Fado, marca indelével da língua portuguesa, se tornou Património Imaterial da Humanidade





 
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 27 de Novembro de 2011

2 comentários:

manuela baptista disse...

em quebranto
é mudo o canto

não fora uma guitarra afinada
uma toada
uma estrada

e o orgulho de ser português!

eu cá tenho, pouco me importa os velhos do Restelo

Maria João disse...

Jaime

Meu amigo

E quantas vezes o canto, sendo mudo, entoa em qualquer lugar do universo. Creio no silêncio, como sabe, esse silêncio com que oiço o fado e nele me reconheço, pertença do meu povo.

Um abraço forte, que vem de dentro de um canto meu, tantas vezes, também, mudo.