terça-feira, 1 de novembro de 2011

FARTAR VILANAGEM


Van Gogh, Os Ciganos

Como se poderá pretender que países como a Grécia, a Irlanda ou Portugal e omitindo outros que, no seu seio, se dizem ricos, resolvam os seus problemas estruturais relacionados com o emprego, o crescimento, os seus défices e com as suas dívidas soberanas quando a Europa, nas pessoas dos seus representantes Van Rompuy e Durão Barroso, em carta conjunta, vem agora fazer um apelo dramático à concertação do G20, sem a qual esta, a Europa,  não poderá, sozinha, resolver os seus problemas?
Bem sei que cada país tem os seus problemas específicos e que a cada qual lhe compete fazer a sua parte de um esforço que, afinal e por si mesmo, individualmente, contudo, inglório, lhe escapará …
Mas se a União Europeia apela dramaticamente ao conjunto daqueles que são os países mais ricos e que se agrupam no G20, sem os quais, esta, aos seus problemas específicos não conseguirá fazer face, o que poderão nela e por si mesmos, fazer aqueles que mais debilitados estão!?
Certo é que há uma debilidade específica da União Europeia que a coloca em desvantagem absoluta em relação a todos os outros espaços ou países que ao G20 o integram e essa tem um nome que se traduz numa imensa debilidade política em relação aos seus outros parceiros dos quais ela também faz parte, para mais (!), mas que a inferiorizam, por opção própria, a saber:
O facto de ela não ser, verdadeiramente, uma união política que corresponda, pelo menos, ao espaço que integra aqueles países que constituem a moeda única!
Não por acaso, é no seu interior, no núcleo do euro que essa debilidade se faz agora sentir com crescente e clamorosa premência:
Grécia, Irlanda e Portugal são países que integram esse núcleo central constituinte mas, o que é certo, é que a esse núcleo lhe falta voz única e pronta decisão …
Cabeça Política!
Sim, porque não dá para que os mais fracos expiem se a União não se portar à altura!!!
Cabeça …
Cabeça sem a qual não há nem união económica nem, em bom rigor, outra qualquer, célere e decidida que o seja e que lhe permita atalhar a sensibilidade ou o nervosismo que, disso se dando conta como os mercados se dão, porque eles, afinal, a essa desconfiança política apenas a espelham, reagindo prontamente e à flor da pele àquilo que a União leva, por seu turno e estrebuchante, uma eternidade a decidir.
E tanto mais quanto parte dos membros constituintes da Europa, dos constituintes também do G20 jogarem com um pé numa, a União, e o outro no outro, o G20 ou o G8 ou pretendendo apenas salvar a sua pele como mais ricos e livrando-se dos problemas comuns que aos mais fracos, em particular, os dilaceram …
Chega de ambiguidades!
Não dá para ser rico, por um lado, ou fazer-se de conta que se o é, tendo, por outro lado e sozinho, deixado de o ser!
Se eu fosse o representante de um dos tais países ditos emergentes, alguns deles bem mais antigos do que alguns dos países da Europa e que ao G20 o integram, não me conteria neste desabafo:
Chamam-nos emergentes … o tanas (!) … uma verdadeira emergência é a Europa que sem saber quem é e se o é, tem alguns dos seus que quando lhes convém dizem-se ricos e da União jogam fora e quando não, atrás dela se escudam na esmola que aos mais ricos que nós somos, afinal, fazem apelo … é fartar, vilanagem!








Jaime Latino Ferreira
Estoril, 1 de Novembro de 2011

5 comentários:

manuela baptista disse...

a Europa é chamada de velho continente

e habituámo-nos a vê-la orgulhosa da sua cultura e do papel que representou no mundo

ainda não há muitos anos, os nossos irmãos brasileiros quando vinham a Portugal diziam: vou à Europa

neste momento estamos verdadeiramente velhos, não renovamos as gerações e não renovamos as soluções

os ciganos já foram cidadãos do mundo, mas com a globalização este conceito passou da tenda e da carroça, para o hotel de cinco estrelas,

assim como a economia e a política passaram a ser ciganice e todos se aproveitam do que está à mão

os ricos da Europa pedincham-se a si próprios e temos pena de um mundo assim

proponho um G0 e começamos tudo de novo!

BRANCAMAR disse...

Pois é Jaime, também acho que a Europa está velha e decadente, sobretudo desorientada, o que não augura nada de bom.
Quem sabe, como diz a Manuela temos mesmo que começar do zero, quem sabe a solução não é mesmo a globalização, a não ser no aspecto humano, porque nos outros, sobretudo o económico, não se tem mostrado uma grande solução, é o desvario total...
Não há dinheiro que chegue para tantos representantes, nacionais, europeus e por aí fora, e para outras "artificialidades" mais que vamos vendo e são gritantes.

Deixo beijos.

. intemporal . disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Linda Simões disse...

Começar do zero, com uma bagagem de conhecimentos bem recheada,sem desprezar as raízes,o berço,a cultura,as conquistas. Com um senso de responsabilidade voltado para o coletivo,o bem estar social,a união dos povos,sem discriminação de raças,de línguas,de classes...

Que bom seria...Um mundo onde o SER fosse mais importante...


Um abraço,


Linda Simões

Maria João disse...

Pois Jaime...

União? O que é isso?
Acaso alguma vez existiu a intenção verdadeira de tornar a Europa mais forte, por via da união entre os mais ricos e os mais pobres? Duvido...
A questão é o poder e o domínio de uns sobre os outros e a salvaguarda dos interesses dos mais poderosos. Que ainda são ou que não sendo já, isso não revelam.

Um beijinho grande para si.