terça-feira, 22 de outubro de 2013

DO IMPLÍCITO E DO EXPLÍCITO

Rafael, Escola de Atenas, 1506 – 1510







No que se escreve existe o explícito, o escrito propriamente dito e o que ao que escrito lhe fica implícito, o que lhe subjaz nas entrelinhas.
Tal como um desenho, a escrita pode ser um traçado bidimensional ou com profundidade, o que está para lá da altura e da largura, da profundidade estrito senso mesmo, o implícito.
O explícito é o explícito, a evidência.
O implícito é o que está para lá das evidências, do imediatamente percetível e que é sugerido pelos contornos, o traçado da própria escrita.
Na escrita, o implícito não se estabelece à vontade de cada qual, antes a partir daquilo que a própria escrita sugere ou permite elaborar.
A evidência, o explícito está na cara, é evidente e perdoem-me o pleonasmo e o implícito interpela o leitor, exige-lhe o esforço de, a partir do seu traçado, do traçado da escrita, ir para lá dele e dar-lhe, chegar-lhe ao conteúdo, ser coautor interativo juntamente com o autor que ao escrito o concebeu.
O implícito exige do leitor que em simultâneo, num esforço interpretativo, à escrita a complemente do que dela se depreende.
O escrito é o que escrito está, o visível e não obriga a mais do que à passividade que nada ou quase nada senão a soletrada leitura retém.
O não escrito é muito mais do que o escrito, é o invisível e obriga à atividade retentora, redentora mesmo de quem lê.
A eficácia do implícito ultrapassa em muito a ineficácia unidimensional do explícito sendo certo que na escrita como em tudo, sem o explícito, a forma, não se chega ao implícito, o conteúdo.
O explícito é o imediato, a sombra e o implícito, sendo o mediato, a luz, não se compadece com a vertigem da informação.




o implícito é o pano de fundo, o silêncio em que a palavra, iluminando-se, ganha música








Jaime Latino Ferreira

Estoril, 22 de Outubro de 2013



5 comentários:

Kika disse...

Kriu?

A minha palavra ganha asas... Sempre!

Kriu!

. intemporal . disse...

.

.

. o explícito está para a forma como o implícito está para o conteúdo . "quasi" sempre . :) .

.

. abraço.O .

.

.

disse...

A esta hora é evidente que já tenho fome, está bem explícito no meu rosto afunilado...

manuela baptista disse...

o implícito na literatura, sim

como forma poética, para o outro imaginar e desenvolver

em política, para mim, nada é explícito


agora aquelas pessoas que só falam por implícitas palavras, e dizem, estás a ver? e nós não estamos a ver nada

se lhe associarmos uma cotovelada, então, eu abomino-as explicitamente

:)))


ki.ti disse...

eu tenho uma vertigem de informação,

quando implícito gatos lá fora