sábado, 12 de maio de 2012

QUANDO MORRE UM ARTISTA




Quando morre um artista é como se um rio fosse privado da sua foz e da nascente.
O rio continua a correr mas não corre da mesma maneira.
Priva-se dos sais minerais da sua circulação subterrânea e da salinidade do mar.
Do sal.
Não fossem outros artistas perpetuarem-no e parada, a água, putrefazia-se.

Quando morre um artista vai-se, com ele, a dimensão que na sua obra, do mundo, no que está ao seu alcance faz por perpetuar.
O que está ao seu alcance fazer perpetuar é a sua razão de viver.
A sua luta incansável, a sua razão de ser.
No que toca, pinta, escreve o artista, na ansiedade de partilhar o que vê, ou ouve ou sente, não tem tempo suficiente ou o tempo que tem é todo o tempo que lhe resta e quando morre …
… não fossem outros artistas perpetuarem-no e o tempo, sem eternidade, morria connosco.

Quando morre um artista, na eternidade que legou, acresce a imortalidade.
Desde que o artista seja perpetuado.
Enquanto vive, porém, nunca é devidamente reconhecido.
Assim o sente, assim o sabe e, por isso, não descansa.
Mas quando morre, porém, perpetuado que o seja, renasce em todo o seu esplendor.

Quando morre um artista, feito de nós sendo todos, na noite que em nós mergulha, no seu silêncio morremos um pouco.
Mas, pela mão de todos os artistas que o perpetuem, renascemos, alvorecemos também.
Mais pobres mas também mais ricos.
Perpetuado e ai se o não fosse, com ele, em nós o levamos para sempre.

O artista é um sol que gira.


na pessoa de Bernardo Sassetti, a todos os artistas quando morrem
 


( arrastado de mb )
 

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 12 de Maio de 2012

4 comentários:

Hanaé Pais disse...

YOU TUBE:

"Alice é um marco importante na forma como olho agora para a composição musical."

Bernardo Sassetti

nacasadorau disse...

"Quando morre um artista, na eternidade que legou, acresce a imortalidade."

Cabe-nos perpetuá-lo.

Obrigada por este maravilhoso post.

Beijinho

manuela baptista disse...

assim será!

bonito o sol destas palavras

Isabel Venâncio disse...

Tive tanto prazer em ler o seu post. Delicado lamento pela morte do Bernardo.
Músico que eu admirava. Pessoa que muito estimava.
Um abraço

Isabel