terça-feira, 24 de janeiro de 2012

QUE PROVEDOR

Vieira da Silva, Equidade, 1966



Foi o Presidente da República de Portugal que muito recentemente se definiu a Si próprio como Provedor do Povo
Tive assim o cuidado de ir ao Dicionário Priberam da Língua Portuguesa que qualquer um de Vós, na Internet, poderá consultar, em busca do significado da palavra provedor e nele encontrei:

provedor ( prover + dor )
1. Encarregado de prover a alguma coisa.
2. Fornecedor, abastecedor.
3. Presidente da junta administrativa de um estabelecimento de caridade.
4. Cargo público destinado à defesa dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos (ex.: provedor de justiça).
5. Cargo, em órgãos de comunicação social ou em outras empresas, públicas ou privadas, destinado a receber e investigar queixas ou a estabelecer a comunicação entre a instituição e os seus utilizadores ou utentesusuários.
6. Pessoa que ocupa qualquer desses cargos.

Nesta minha dissertação vou, pois, seguir à risca o que neste dicionário sobre essa mesma palavra consta:
Prover, providenciar, remediar, acudir ou suprir à dor …
… dos cidadãos porque era isso, suponho, a que o Presidente da República se referia.
Não se tratando, no caso, de um presidente de junta administrativa de estabelecimento de caridade ou de qualquer outro cargo em órgãos de comunicação social ou de outras empresas públicas ou privadas destinado a receber e investigar queixas ou a estabelecer a comunicação entre a instituição e os seus usuários a não ser pelo eco que estas Lhe dão, então, o que mais dessa expressão Dele se aproxima será, neste caso, o cargo de Provedor da Justiça mas esse é um cargo que já existe, Dele não depende e está preenchido …

Assim, não pensando querer o Presidente da República duplicar funções chocando com aquelas de um outro órgão constitucional já existente, o que quererá Ele dizer ao definir-se como provedor e tanto mais quanto esta Sua auto-designação coincide, no tempo, com as suas próprias queixas ou desabafo público!?
Encarregado de prover às suas próprias queixas?
De as amplificar já que sendo o supremo magistrado da nação, nelas e em si mesmo, a todas as encarnaria …!?
Prover-se a si próprio!?
Não, há qualquer coisa que não bate certo e que o Seu próprio esclarecimento entretanto publicado acaba por não vir elucidar!
Provedor …
Provedor não será, provavelmente, a melhor metáfora de si próprio.
Não, Senhor Presidente, o que o senhor conseguiu foi prover, agora no sentido de abastecer, toda uma nação de imensa indignação, isto é, de imensa dor.
Para usar a linguagem do próprio dicionário, lá que nos abasteceu, abasteceu ou, se quiserdes, forneceu!
Forneceu motivos de redobrada indignação sem recurso a quem!
Que provedor este que para prover às queixas do povo, gozando de posição dominante, amplifica, antes de mais, as que Lhe são inerentes!?
Associado o Seu desabafo a esta Sua auto-designação, então, um e a outra adquirem redobrada gravidade …

Pelo que escrevo falo e no que ao que escrevo toca, aguardo sem resposta e desde há muito que me seja dado … provimento!









Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Janeiro de 2012

2 comentários:

manuela baptista disse...

desprovedes pois, caro senhor!

ópera bufa, é a palavra certa para esta cena toda

é o que eu acho

BRANCAMAR disse...

Mais uma vez Jaime e muito bem.
Não sei se estas últimas cenas do P.R. não foram das mais ridículas ao longo da nossa história.

O Provedor não se limita a receber cartas de desabafo, o Provedor resolve as questões tanto quanto pode e eu tenho prova disso. Há já muitos anos estava na Provedoria da Justiça O Dr. Meneres Pimentel a quem expus um problema de uma viuva de uma aldeia do concelho de Amarante, viuva de um ferroviário cuja pensão ficou prejudicada apenas por um dia numa legislação que na altura saiu para essa caixa de previdência que tinha características particulares e que entretanto desapareceu. A senhora ficaria na miséria, enquanto outros por apenas mais esse dia já teriam direito às suas pensões de sobrevivência mais abonatórias. Passados tempos e quando já me tinha esquecido, recebi da interessada a notícia de que tudo foi regularizado e reposta a justiça.
Serviu este texto para recordar que ser provedor de alguém, neste caso da justiça é agir, porque cartas de desabafo qualquer um de nós as recebe.

Beijinhos e escreva sempre, com a persistência que o caracteriza.

Branca