quarta-feira, 15 de junho de 2011

ACADEMISMO, DOENÇA INFANTIL DA MODERNIDADE

Van Gogh

O discurso academista é um discurso desprovido do eu e, exactamente por dele ser desprovido, faz tábua rasa do   singular, do cidadão comum individualmente considerado.
Tudo nele, na sua multifacetagem, bate certo menos essa omissão, a omissão do singular, do eu e do que a ele lhe escapa o que é a mesma coisa, a omissão insusceptível de lhe conferir humanidade e, logo, adesão à realidade.
Três dimensões deste discurso:
A dimensão política, a científica e a artística.
Dimensão política:
A política sem o destinatário concreto a quem ela se dirige, resumida às ideologias ou às doutrinas que a sustentam, despida, também, de quem as encarne, transforma-se em retórica sem emissor nem destinatário, fogo-fátuo sem ter princípio nem fim, princípios ou finalidade;
Dimensão científica:
O conhecimento científico, na sua metodologia, sem ter objecto nem finalidade, é um amontoado de hipóteses, tantas quantas as que se queiram formular desprovidas de seriação hierárquica, desprovida também, essa dimensão, da excepcionalidade que todos somos, hipóteses dispostas a confirmar como a desfirmar a regra que se tinha como segura e tanto mais quanto de ambos esse conhecimento estiver desenquadrado, do objecto como da finalidade;
Dimensão artística:
A arte, sem o seu autor e aquele a quem ela se destina, o outro autor, como nas dimensões política ou científica, podendo ser tudo, pode descambar em nada e ainda que, como fogo-fátuo, se transforme, circunstancialmente, em top de vendas ou de sucesso instantâneo.
O discurso academista, colado de citações postas entre aspas, biombo de quem o emite nele se escondendo e escudando, omitindo o eu, por muito certo que o esteja quando originalmente emitido na primeira pessoa, torna-se em vacuidade sem sentido descolado que fica da realidade.
Essa é a doença que aflige e constrange os nossos tempos à falta de quem, como eu, saiba conjugar na primeira pessoa …
… um eu que também és tu ou ele, nós, vós e eles!





Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Junho de 2011

8 comentários:

Eurico disse...

Uma excelente postagem. Tua argumentação fere o ponto mais sensível da questão. Em torno dessa doença, ergue-se a muralha que separa o mundo real, das miríades de "hipóteses de realidade" em que se insulam os academicos.

Bravo!

Jaime Latino Ferreira disse...

EURICO


Meu Caro,

... insulam ...

Bela expressão em que o falar do português da outra margem em tanto nos enriquece!

Muito obrigado e seja bem vindo a este meu blogue, um abraço


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Junho de 2011

Jaime Latino Ferreira disse...

EURICO


Uma vez mais,

Deixe-me apenas que Lhe esclareça:

Eu não confundo academismo com espírito académico que é outra coisa e do academismo enfermam tanto alguns académicos como muitos que o não são!

Mais uma vez, um grande Abraço


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Junho de 2011

Eva Gonçalves disse...

As três domensões num só discurso isento da individualidade. Se a doença é infantil... qual será o prognóstico de evolução na adolescência? :)
P.S.Espero não se ter ofendido com a recusa do pedido no livro das caras. Como expliquei na mensagem, se calhar um dia destes alargo o leque, mas para já... :)Ainda posso acabar por eliminar completamente a conta.. está mais para isso, rrss
Abraço

manuela baptista disse...

eu diria, doença infantil do modernismo ou mais precisamente modernice

o academismo tem bafio, como o tem, o discurso político

saber conjugar todos os tempos será esse o desafio da modernidade

penso, EU! :)))

manuela

Jaime Latino Ferreira disse...

EVA GONÇALVES


Querida Amiga,

Pois é, a doença já vai sendo prolongada logo, e respondendo-Lhe à pergunta, o prognóstico, na adolescência, será o academismo, doença infantilmente retardada da modernidade!

Quanto ao livro das caras como lhe chama:

Eu não vi a Sua mensagem ou então se calhar, sou eu que ainda não domino as potencialidades, que não domino (!), daquele suporte!

Mas deixe lá que não sou pessoa de melindres, o tempo o ditará ...

.. não aos melindres, a esses nem pensar, mas ao que ele venha a decidir!

Um grande beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Junho de 2011

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Pensas tu de que ... comigo também!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Junho de 2011

Jaime Latino Ferreira disse...

EUS I


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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Junho de 2011