domingo, 9 de outubro de 2011

ESPIGADOTES

Eduardo Batarda, Reserva, 1988


Qualquer dia, não faltará muito, sucumbirão as crianças ao empedernido que as não escuta!
Empedernido que, por medo do que nelas se contém e que, verdadeiramente, nunca encarou, foge sempre a ouvi-las …
Que insiste em formatar homenzinhos, homenzinhos e mulherzinhas, num molde que se esvai …
… esvai de tão gasto estar!
Esvai de nada mais ter para dar.
Esse empedernido de tanto se querer espigadote à força e com o qual já ninguém se identifica …!
Espigadote naquele molde definitivo dos que julgando-se grandes, supostamente, já não crescem mais!
Espigadotes compostinhos, assim, de corda ao pescoço, hirtos de não saberem onde pôr as mãos, as mãos ou o resto, muito institucionais e que trazem sempre consigo um batalhão de yes men feitos à sua própria imagem, a assentirem com as suas cabecinhas ocas ao mais despropositado bitate que os espigadotes, de propósito ou a despropósito, balbuciem.
Espigadotes de faz de conta que se esqueceram de ser crianças …
… esqueceram é pouco … nem se querem lembrar disso!
Por isso, por isso mesmo se tornaram tão crescidinhos …
Voz descolocada, calinadas à tripa forra na gramática e de vervezinha sempre prontita a saltitar.
Espigadotes daqueles que quando vêm uma criança logo estão prontos a dizer que engraçadinha!
Com um sorriso besta e uma tal desconformidade diante dela que ela própria se interrogará de onde veio um tal ET!?
Espigadotes …
Tão espigadotes e atinadinhos que metem medo ao susto!
Qualquer dia, de tão espigadotes e distantes, esses mesmos espigadotes sugarão a infância, reserva de esperança e de futuro, no turbilhão do tem de ser que eles próprios obstinada e persistentemente criaram …
… e de tão espigadotes que o são, esquecer-se-ão que mataram a criança!







Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Outubro de 2011

3 comentários:

manuela baptista disse...

os políticos já nascem formatados!

saiam dois, chapa nº4, forma 7

tediosamente parecidos
perigosamente, espigadotes...?

é elogio

xatos, sim

cada vez mais longe de nós, uma linguagem afastada de nós, um projecto que não é o nosso, uma visão que só eles vêem

eles para um lado, nós para o outro


do ponto de vista das crianças, é verdade sim!

sugam-nas, tiram-lhes o futuro assassinando o presente

ki.ti disse...

Não te esqueças que esses semdotes também sugam os animais e esquecem-se!

Maria João disse...

Jaime

Meu querido amigo


Há muito que, apesar de fazerem querer o contrário, os espigadotes roubaram o futuro à criança. É que nestes tempos em que parecer é que importa e ter, é o mais importante, o Ser fica algures perdido entre as duas coisas e crescer, já não interessa para nada.

Beijinho grande :-)