quinta-feira, 12 de abril de 2012

DESCOLAGEM

autor que não consegui identificar

“ Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-lo, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. ”
( Fernando Pessoa ) 

Persistindo na soneto mania que, ultimamente, à minha verve a tem alimentado, descolo do que se diz que sempre foi ou teria de continuar a ser assim …

Descolam praças e mercados
tudo cai em mil bocados
arrepiam caminhos traçados
desfazem-se sonhos ceifados

Desfiam-se mágoas sem ver
o que nos resta escrever
por entre o que sem saber ler
não se sabe como querer 

Descolam reais estilhaçados
desarmando o crer e o ser
sentindo-se descompensados 

Mas eu já descolei por os ter
do que sei meus compensados
dizeres que te dou a saber


… e nesta aparente fuga em frente, na descolagem global e remetendo para trás, tudo se cola e faz sentido outra vez!




( seguir com disponibilidade o novelo de links )





Jaime Latino Ferreira
Estoril, 12 de Abril de 2012

5 comentários:

Hanaé Pais disse...

É maravilhoso descolar e fazer sentido outra vez...
Parabéns pelo seu novo grito de esperança...
Subir é elevar-se...
Subir é libertar-se no ar...
Subir é ir ao encontro do Sol e das Núvens...

Como gosta de música e não posso tocar no meu piano para si, deixo-lhe um poema:

Nas teclas de um piano louco
sinto todo o céu gotejando
sabe-me a música a tão pouco
e das teclas do piano louco
sai a minha alma voando

Voo
e sinto a música
e quero tê-la no meu jardim
será uma música sonhada
nas teclas do piano tocada
mas foi criada só para mim

Ouço e estou contente
tenho a alma lavada de voz
quero tê-la presente
com a música sou mais gente
e os meus olhos são felizes e não estão sós

Danço e flutuo nos rios
que a música traz até ao meu chão
dispo as cores que não me interessam
e beijo as notas que elas peçam
com a voz do meu coração

Regresso
e a música vem
juntar-se à loucura de um tempo em paz
ouço sinos distantes na luz
é a inspiração que me seduz
e sem música nada se faz

Ganho asas
e tenho alegria
e o tempo é sempre assim
guardo a música neste meu dia
com ela toco notas de magia
sou mais feliz
sinto todo esse tempo em mim

Agradeço
às teclas do meu piano louco
por me acompanharem na gratidão
grito palavras belas até ficar rouca
e mesmo que o tempo seja pouco
sei que o que vivi não foi em vão!

FIM

Espero que goste!
E espero que seja tão Feliz, nas descolagens,
Como eu sou!

manuela baptista disse...

desformatar

para atravessar


com a sonetomania e um Aleluia lindíssimo!

BRANCAMAR disse...

Gostei muito, é preciso descolar, mudar, atravessar novos caminhos, estar aberto a tudo...o que não significa perder a identidade, bem pelo contrário - são formas de não adormecermos pelo caminho nos vícios do hábito.

Beijos

Dulce disse...

Jaime, quanta beleza, quanta harmonia!

Belíssimo..vou mesmo levar.

Um abraço muito Amigo de Obrigado.
Bem-haja por este tanto de beleza que sempre nos trás.

dulce ac

Hanaé Pais disse...

Deixo-lhe estas letras para o inspirar para um novo soneto:

E agora, digo-vos adeus (...)
Éreis a única criatura frente à qual eu me considerava culpado, mas escrever a minha vida confirma-me a mim próprio. Acabo por vos lamentar sem me condenar severamente.
Tendo sido incapaz de viver segundo à moral comum, procuro, pelo menos, estar de acordo com a minha:é no momento em que se rejeitam todos os princípios que convém munirmo-nos de escrúpulos. Havia tomado convosco compromissos imprudentes que a vida viria a contestar: peço-vos perdão, o mais humildemente possivel, não por vos deixar, mas por ter ficado tanto tempo.
Marguerite Yourcenar
Tratado do Vão Combate
Espero que goste, eu adoro é muito
profundo e insinuante.